O mercado segurador brasileiro iniciou 2026 repetindo um movimento que já vinha sendo observado ao longo do ano passado: crescimento concentrado nas linhas ligadas à proteção, com desempenho mais fraco dos produtos de acumulação. Os dados divulgados pela Superintendência de Seguros Privados (Susep) mostram que o setor supervisionado arrecadou R$ 106,18 bilhões no primeiro trimestre do ano, alta nominal de 0,76% em relação ao mesmo período de 2025.
Embora o crescimento agregado ainda seja moderado, os números revelam uma dinâmica mais favorável para os seguros de danos e pessoas, segmentos que seguem sustentando a expansão do mercado em meio ao ambiente de juros elevados, mudança no comportamento do consumidor e maior preocupação com proteção patrimonial e financeira.

Os seguros de danos e pessoas, excluindo o VGBL, arrecadaram R$ 55,72 bilhões entre janeiro e março, com crescimento nominal de 6,65% sobre igual período do ano anterior. O resultado reforça a leitura de que a expansão do setor está menos associada aos produtos de acumulação e mais ligada à demanda recorrente por proteção, tese que vem sendo defendida por executivos do mercado e pela própria Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg).
O seguro automóvel, principal carteira dos ramos elementares, arrecadou R$ 15,08 bilhões no trimestre, com crescimento nominal de 6,13% e avanço real de 1,87%. O desempenho acompanha o forte ritmo de vendas de veículos observado no início do ano, impulsionado especialmente pelos modelos híbridos e elétricos, além da ampliação da frota circulante e da necessidade crescente de reposição de peças e serviços mais caros, fatores que pressionam o custo do sinistro e sustentam reajustes de preços.

Ao mesmo tempo, o seguro de vida segue como uma das linhas de maior expansão do mercado. A arrecadação cresceu 11,63% em termos nominais e 6,58% em termos reais no primeiro trimestre, evidenciando que a demanda por proteção financeira familiar continua em trajetória de crescimento mesmo após o auge da pandemia. O avanço também reflete um movimento estrutural do setor, que vem ampliando a oferta de coberturas modulares, assistências e serviços agregados para atrair consumidores ainda pouco protegidos.

Os números reforçam uma característica cada vez mais evidente do mercado brasileiro: o crescimento ocorre justamente nos segmentos em que existe percepção imediata de risco e valor por parte do consumidor. Automóvel, vida, saúde complementar e linhas empresariais continuam sendo os motores da indústria, enquanto produtos dependentes de estímulos tributários, incentivos financeiros ou maior horizonte de poupança seguem enfrentando volatilidade.
Essa diferença aparece nos produtos de acumulação. Apesar de o saldo entre contribuições e pagamentos de benefícios e resgates ter permanecido positivo em R$ 6,31 bilhões no trimestre, o segmento continua distante do ritmo observado em anos anteriores. O ambiente de juros elevados mantém a concorrência forte com produtos bancários de renda fixa e reduz a atratividade relativa de parte dos planos de previdência aberta, especialmente do VGBL.
Outro dado que chama atenção é a redução de 5,84% nas indenizações, resgates, benefícios e sorteios pagos à sociedade, que totalizaram R$ 62,7 bilhões no trimestre. O movimento pode refletir uma combinação de fatores, incluindo menor volume de resgates em produtos de acumulação, melhora em indicadores de sinistralidade em algumas carteiras e maior disciplina técnica das seguradoras na subscrição de riscos.
Os dados também mostram o peso crescente do resseguro na estrutura do mercado brasileiro. No primeiro trimestre, R$ 7,45 bilhões em prêmios foram cedidos ao resseguro, mecanismo utilizado pelas seguradoras para diluir riscos e ampliar capacidade operacional. O aumento da complexidade dos riscos climáticos, corporativos e patrimoniais tem elevado a importância estratégica das operações de resseguro, especialmente em grandes riscos empresariais, infraestrutura, agronegócio e eventos climáticos extremos.
Pela primeira vez, o Boletim Susep também passou a divulgar o número de empresas supervisionadas em operação no país. Em março, o mercado contava com 153 seguradoras, 12 entidades abertas de previdência complementar, 17 empresas de capitalização, além de 132 resseguradoras divididas entre locais, admitidas e eventuais.
A nova fotografia reforça o processo de diversificação do mercado brasileiro, que entra em uma nova fase regulatória marcada pela consolidação das mudanças trazidas pela Lei do Contrato de Seguro e pela Lei Complementar 213. Ao mesmo tempo, o setor convive com desafios importantes, como ampliar a penetração dos seguros em um país ainda subprotegido, adaptar produtos às transformações climáticas e acelerar o uso de tecnologia e inteligência artificial em subscrição, distribuição e atendimento.
Mesmo com crescimento agregado ainda modesto, os números do primeiro trimestre indicam que o mercado segurador continua demonstrando resiliência operacional e capacidade de expansão nas linhas em que a demanda por proteção já se tornou estrutural.


















