Seguradora Zurich ajusta estratégia para avanço de carros chineses e eletrificados no Brasil

Companhia amplia coberturas, rede especializada e atuação com corretores diante da mudança no perfil da frota, que já impacta subscrição, sinistros e composição da carteira

A aceleração das exportações de veículos chineses para o Brasil — que somaram US$ 2,16 bilhões no primeiro trimestre de 2026, quase o triplo dos US$ 763,8 milhões registrados no mesmo período de 2025, segundo dados antecipados pelo Valor — começa a se refletir de forma concreta também no mercado de seguros. O movimento, que inclui tanto modelos elétricos quanto a combustão, já altera a dinâmica de risco e exige adaptações operacionais e comerciais das seguradoras.

Na Zurich Seguros, essa transformação aparece de forma clara nos números da carteira. No primeiro trimestre de 2026, a companhia registrou crescimento de 15,1% em itens no seguro automóvel, enquanto os veículos de marcas chinesas avançaram cerca de 75% em apólices emitidas, evidenciando uma mudança relevante na composição do portfólio.

“A Zurich entende que o avanço da eletrificação da frota, aliado à expansão das montadoras chinesas, vem redefinindo de maneira estrutural o mercado automotivo brasileiro e a dinâmica do seguro”, afirma João Merlin, diretor de Negócios em Automóvel da companhia.

A seguradora afirma que vem se antecipando a esse cenário. Pioneira na oferta de seguros para veículos elétricos e híbridos desde 2019, a empresa ampliou sua estrutura com serviços específicos, como assistência 24 horas com frota elétrica — incluindo guinchos e motos 100% eletrificados — lançada no fim de 2024.

O avanço dos eletrificados, porém, traz desafios técnicos relevantes para o setor. O custo elevado de componentes, especialmente baterias, a necessidade de mão de obra especializada e a ainda limitada disponibilidade de peças tornam a subscrição e a precificação mais complexas. Esse cenário se intensifica com o crescimento acelerado da frota: o Brasil registrou aumento de quase 89% nas vendas de veículos eletrificados em 2024, superando 177 mil unidades, seguido por alta de 26,2% em 2025 e avanço superior a 110% no primeiro trimestre de 2026, com cerca de 90 mil veículos emplacados.

Diante desse contexto, a companhia afirma que tem reforçado o monitoramento de dados e o ajuste gradual de preços e coberturas, buscando equilibrar competitividade e sustentabilidade técnica. “A leitura de risco exige acompanhamento constante, e nossa abordagem é evoluir junto com o desenvolvimento desse segmento, com uma visão de longo prazo”, aponta o executivo.

A mudança também alcança a operação de sinistros. A Zurich vem ampliando a capacitação da rede credenciada e estabelecendo parcerias com oficinas preparadas para veículos eletrificados, além de adotar iniciativas como o Selo Auto Eco e o uso de oficinas certificadas com práticas ambientais.

No campo comercial, a estratégia passa por fortalecer o papel consultivo dos corretores em um ambiente mais técnico e sofisticado. A seguradora já conta com produtos específicos para veículos híbridos e elétricos, com coberturas como proteção para cabos de carregamento, carro reserva eletrificado e assistência diferenciada.

Para a companhia, o avanço das importações — puxado especialmente pelos modelos chineses — já começa a alterar o perfil de risco do mercado, sobretudo pela maior severidade potencial dos sinistros. “Esses veículos apresentam maior complexidade técnica e custo de reparação, o que exige atenção no curto e médio prazo”, afirma Merlin.

A expectativa é que, com o ganho de escala e a evolução da infraestrutura — como rede de oficinas e disponibilidade de peças —, o mercado caminhe para maior previsibilidade. Até lá, o setor deve seguir ajustando suas estratégias para acompanhar uma transformação que, ao que tudo indica, não é pontual, mas estrutural.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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