Terceirizar a função-chave do risco: quando o seguro deixa de ser custo e vira governança

Izabela Dias explica como o RMaaS harmoniza corretores, áreas internas e seguradoras para garantir programas de seguros mais eficientes.

Ter um programa de seguros robusto não significa estar protegido. Em muitas empresas brasileiras, o seguro ainda é tratado apenas como custo ou ato de compra — sem vínculo direto com estratégia, governança ou continuidade do negócio. Nesse cenário, lacunas de cobertura, processos reativos e sinistros negados continuam sendo uma realidade, mesmo em grandes companhias com operações complexas.

A boa notícia é que já existe um caminho para mudar esse jogo — e ele vem de mercados mais maduros como Estados Unidos e Europa: o Risk Manager as a Service (RMaaS). Trata-se de terceirizar a gestão de riscos e seguros com profundidade técnica e independência, garantindo disciplina, governança e alinhamento entre todos os atores do ecossistema (áreas internas, corretores e seguradoras). Um modelo que está ganhando espaço no Brasil e pode elevar a maturidade do setor sem demandar estruturas internas caras e difíceis de formar.

A consultora Izabela Dias é uma das vozes pioneiras desse movimento. Sócia-proprietária da Izabela Dias Consultoria Empresarial, formada em Administração com pós-graduação em Finanças pela Fundação Dom Cabral e Seguros & Resseguros pela ENS, ela acumula mais de 25 anos de experiência em áreas financeiras de grandes grupos e passou 15 anos como Risk Manager do Grupo Cosan — um dos maiores conglomerados do país. Na entrevista a seguir, Izabela explica como funciona o RMaaS, para quem faz mais sentido, os ganhos imediatos e os desafios de adoção no mercado brasileiro.

O que exatamente significa “Risk Manager as a Service” — e em que ele difere de um gestor interno ou de uma corretora de seguros?

O Risk Manager as a Service é um modelo em que a empresa passa a contar com um gestor de riscos experiente — de forma contínua ou sob demanda — sem precisar arcar com a estrutura e o custo fixo de um departamento interno. Em mercados mais maduros, como EUA e Europa, já é comum trabalhar com gestores independentes. No Brasil, o modelo ainda está ganhando espaço, impulsionado pela crescente compreensão de que seguro não é só compra de produto, mas parte central da governança corporativa. As corretoras têm papel essencial na intermediação, na estruturação comercial e na colocação das apólices. O RMaaS é complementar: atua na estratégia de riscos, conectando necessidades operacionais, regulatórias e financeiras ao desenho do programa de seguros. O papel não é substituir ninguém, mas harmonizar as visões — quando todos estão alinhados, o cliente e o mercado ganham.

Quais atividades estão incluídas nesse modelo e como isso se compara ao trabalho de um gestor interno?
O escopo contempla atividades semelhantes às exercidas por um Risk Manager empregado: construção ou revisão do framework de riscos, mapeamento e priorização de exposições críticas, revisão técnica de apólices, identificação de gaps, apoio em renovações, interação com corretores, preparação de relatórios executivos e monitoramento contínuo.
A diferença está no formato. O RM interno é fundamental em operações maiores e mais complexas. Já o RMaaS traz a mesma senioridade de forma flexível e economicamente viável — podendo complementar o gestor interno em projetos específicos, demandas extraordinárias ou aprofundamento técnico em temas mais complexos.

Quais são os principais ganhos para uma empresa que adota esse modelo — especialmente no Brasil?

O modelo entrega profissionalização instantânea, com método, governança e visão estratégica — essenciais para evitar lacunas de cobertura e sinistros negados. Além do ganho técnico, há redução de custos com estrutura interna e contratações mais inteligentes, baseadas em coberturas adequadas. A independência técnica amplia a segurança das decisões e fortalece a governança. Outro benefício é a agilidade: renovações mais previsíveis, sinistros mais eficientes e decisões baseadas em dados e benchmark. Em resumo: RMaaS eleva a maturidade, otimiza custos e fortalece a resiliência da empresa.

Em que tipos de empresas ou setores o RMaaS faz mais sentido?

A demanda está mais ligada à complexidade do negócio do que ao porte. Vejo maior necessidade em empresas de médio e grande porte, especialmente acima de R$ 300 milhões em faturamento anual. Muitas têm demandas relevantes de seguros, mas não contam com um Risk Manager interno. Na consultoria, atendo empresas de vários perfis — listadas ou não, de serviços, infraestrutura e indústrias em geral. Algumas precisam de acompanhamento contínuo; outras, de projetos pontuais como revisão de apólices críticas, análise de riscos em contratos ou suporte em governança.

Como funciona, na prática, a prestação desse serviço?

Adoto uma metodologia estruturada, mas sempre customizada. Começa com um diagnóstico detalhado para avaliar maturidade, apetite de risco e exposições críticas. A partir daí, o trabalho pode assumir diferentes formatos: construção de um framework completo, revisão do programa de seguros, mapeamento e priorização de riscos, definição de controles, apoio em renovações ou suporte regulatório e operacional. O método é consistente — diagnóstico, apetite, identificação e priorização de riscos, desenho de controles, monitoramento contínuo e revisões periódicas — mas o escopo se ajusta totalmente ao estágio de evolução da empresa.

Quais são os desafios para implementar esse modelo no Brasil — tanto para quem oferece quanto para quem contrata?

O principal obstáculo nas empresas é a falta de visão estratégica sobre risco e seguro. Ainda se trata esses temas como custo e não como governança, o que leva a decisões tardias e reativas. Além disso, processos pouco integrados e baixa disponibilidade de dados exigem um trabalho inicial mais profundo. Do lado do provedor, o desafio é disseminar o conceito. Como o papel estratégico do Risk Manager ainda não é amplamente entendido, o modelo “as a Service” naturalmente gera dúvidas. Por isso, parte do trabalho envolve educar o mercado — mostrando que não é uma consultoria pontual, mas uma função contínua que fortalece finanças, operação e governança.

Você pode citar exemplos ou cenários em que o RMaaS evita perdas ou garante maior resiliência?

Um caso frequente é o de empresas com programa robusto, mas sem gestor dedicado. Nessas situações, avalio riscos seguráveis, identifico lacunas ou excessos, recomendo coberturas e proponho estratégias de mitigação. Muitas vezes encontro inconsistências em apólices já contratadas, custos que podem ser otimizados ou cláusulas obrigatórias ausentes. Também gero valor ao apoiar a definição do modelo de atuação com corretores — ajudando a alinhar expectativas e fortalecer a concorrência saudável. Há ainda projetos em processos de bid ou licitação, garantindo que apólices e garantias sejam estruturadas corretamente e não corram risco de impugnação — algo crítico para evitar atrasos, penalidades e perda de contratos. No fim das contas, o RMaaS funciona como um catalisador: acelera processos, reduz riscos e traz clareza técnica para decisões que têm impacto direto no caixa e na continuidade do negócio.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Ouça nosso podcast

ARTIGOS RELACIONADOS