Análise: por que a SulAmérica colocou à venda vida, previdência e capitalização?

Atualização: Nota da SulAmérica confirma as negociações – 21h00

Conforme antecipou a coluna do Broadcast, que tem Aline Bronzati como uma do trio de jornalistas, a seguradora SulAmérica colocou à venda as suas operações de seguro de vida, previdência privada e capitalização.

Tal estratégia vai ao encontro de uma tendência observada no mundo de seguros. Os atuais players, grandes e poderosos, se curvam à combinação de tecnologia digital nova e multifacetada, que tem atraído grande interesse de fundadores, investidores e consumidores.

De acordo com dados da CBInsights, a atividade total de negócios envolvendo insurtech aumentou sete vezes na última década, com média de US$ 1,7 bilhão por ano de 2014 a 2016, comparado a US$ 250 milhões por ano, de 2011 a 2013. Algumas rodadas de mega financiamento – como Zhong  (US$ 930 milhões), Zenefits (US$ 500 milhões) e Oscar (US$ 400 milhões) foram manchetes em 2017.

Em 2018, as manchetes são  que a Zhong, que nasceu de uma parceria com o varejista Alibaba em 2013 para venda de seguro que indenizava o comprador caso a entrega do produto falhasse, tem hoje valor de mercado na bolsa de Hong Kong que ultrapassa US$ 13,6 bilhões, com mais de 7 bilhões (isso mesmo, bi) de apólices para mais de 500 milhões de clientes.

Outra manchete desde meados de 2017 é que a Amazon está selecionando parceiras nos Estados Unidos para ampliar a oferta de seguros. Por enquanto vende apenas seguro garantia para produtos comprados em sua loja virtual. Mas as especulações em torno do tema são fortes, principalmente em torno das seguradoras que já são parceiras no serviço da robô assistente  Alexia, que leva aos internautas dicas sobre seguros entre suas funções.

Na Índia, a Amazon investiu US$ 15 milhões na insurtech Acko. Vir para o Brasil pode ser uma questão apenas de regulamentação. A gigante do comércio varejista online assusta até mesmo as insurtechs. Shai Wininger, co-fundador da  Lemonade, acusou publicamente, por meio do LinkedIn, a gigante Amazon de roubar funcionários de sua companhia de seguro no início do ano. Pouco se fala do Google, mas a aposta dos especialistas é que ele segue a mesma estratégia. Já fez uma tentativa no passado de cotar seguro de carro e certamente não desistiu. Apenas alterou a estratégia.

A corrida pela sobrevivência em um mundo segurador em plena revolução se mostrava bem pouco avançada comparada aos bancos no Brasil até meados de 2017. De lá para cá, todas as entrevistas tocam neste assunto, ainda que de forma tímida. Operações como essa da SulAmérica e da HDI em parceria com o Santander devem ser seguidas por muitas outras concorrentes. Várias são gigantes lá fora no tema inovação, como AXA, Liberty, MetLife, Zurich e Travelers. Certamente implementam seus projetos localmente de forma discreta.

Além das resseguradoras, como Munich Re, Swiss Re, Lloyds of London que são peças-chave no estímulo de seguradoras ingressarem em novos mercados ao garantirem o resseguro da operação. A Munich Re, por exemplo, participa da operação da Trov e o Lloyds’s da Lemonade.

Esse movimento cria várias formas de modernizar o setor.  Tem insurtechs que viram seguradoras, como a novaiorquina Lemonade, e seguradoras que passam a atuar de forma tímida como insurtech e que logo se destacam como unicórnios do mundo digital, como a chinesa Zhong An, a primeira a ultrapassar o valor de US$ 1 bilhão entre as startups de seguros.

A SulAmérica tem sido protagonista de algumas mudanças reais no setor, com investimento no digital das carteiras não colocadas à venda: auto e saúde. Certamente já trabalha também com algo para residências e seguros para pequenas e médias empresas. Implementou o reembolso digital em saúde entre outras inovações e também testa a telemetria no seguro automóvel.

As novidades no Brasil são Minuto Seguros, tida pelos bancos de investimentos como a principal startup da área de seguros no Brasil; Youse, que graças a um sócio estatal tem cacife para anunciar até mesmo na premiação tapete vermelho do Oscar, o que a ajudou a vender mais de 150 mil apólices desde o lançamento, mas isso é apenas a metade da meta que havia sido traçada; ThinkSeg que promete para maio uma grande campanha; e a Kakau, que mal nasceu no Brasil fundada por três sócios e já colocou o país no livro “The Insurtech Book”, liderado por Sabine L.B VanderLinden, que será lançado em junho, em Londres. Os capítulos do livro de mais de 300 páginas foram escritos pelo que o mundo considera “as feras” sobre o tema. O sócio CEO  da Kakau, Henrique Volpi, escreveu o capítulo “Seamless Insurance the time is now”.

Voltando para a notícia da Agência Estado (onde a Coluna Broad é publicada), temos a informação de que para encontrar interessados nessas carteiras, a SulAmérica lançou uma oferta ao mercado com o codinome de “Creta”, em referência à maior e mais populosa ilha da Grécia. Os desinvestimentos estariam ocorrendo por uma busca de escala por parte da seguradora e foco nos segmentos ‘core’, como seguro saúde, que responde por mais de 70% do seu faturamento, e de automóvel. Em seus últimos movimentos nesta direção, a SulAmérica vendeu a sua carteira de grandes riscos para a francesa Axa, e a de seguros habitacionais para a Pan Seguros (seguradora do ex-Panamericano), ambas em 2015.

A nota da coluna também conta que os segmentos alvo da operação Creta têm bem menos importância que os negócios principais da seguradora e, por isso, os desinvestimentos fazem sentido. O faturamento de previdência, por exemplo, foi de pouco mais de meio bilhão de reais no ano passado, enquanto o de vida e acidentes pessoais somou R$ 430 milhões. Em capitalização, foi de pouco mais de R$ 50 milhões. Saúde somou quase R$ 14 bilhões e automóveis, R$ 3 bilhões.

De acordo com a coluna, a operação Creta já provoca especulações sobre possíveis compradores. A lista inclui Axa, que sempre deixou claro o seu interesse na SulAmérica e teria uma preferência junto aos controladores da seguradora, a Família Larragoiti; a Icatu; a alemã Allianz; a Bradesco Seguros; e também a Porto Seguro.

O fato é que o Brasil passa por um tsunami, como bem retrata em seus primeiros episódios a terceira temporada da série Billions, lançada em março no Netflix. A nova CEO da empresa (Asia Kate Dillon no papel de Taylor Mason) de fundos de investimentos Axe anuncia para toda a equipe que o grupo registrou perdas significativas com um tsunami no Brasil. O operador comenta: mas lá não tem catástrofes naturais!

A estagiária, que se mostra brilhante em cálculos e perspicácia a ponto de  conquistar a promoção de substituir Bobby Axelrod enquanto ele é investigado, informa que o tsunami são as delações premiadas que colocaram em risco boa parte dos investimentos feitos pelo grupo no país. Para amenizar a perda, o grupo compra posições em cana na África. Isso mostra como é preciso recuperar a credibilidade e mostrar a todos que o Brasil caminha para ser o país do futuro….um dia. Há esperança.

O imbróglio político afeta os investidores estrangeiros, afeta as empresas locais, que vendem menos, demitem mais, contam com taxa de juros menores em suas aplicações e taxas elevadas para empréstimos em função dos rebaixamentos das agências do rating como consequência do agravamento do risco do Brasil.

Tal situação ressalta que há vários tipos de catástrofes entre as naturais e as feitas pelo homem. Ambas tiram todos da zona de conforto. É preciso “orar, vigiar, mudar estratégia, trabalhar, investir em tecnologia e conquistar os consumidores” 24 horas por dia para se manter em pé e cultivar uma longevidade saudável.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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