Cai a procura de proteção para cargas

Fonte: Valor Financeiro Seguros

Com economia fraca e más condições das rodovias, há recuo na demanda por seguros na movimentação de mercadorias

Por Carmen Nery

Tipo de carga, rastreamentcr 6 rotas são* ” Itens avaliados

segmento de seguros de transportes de carga vem apresentando, nos últimos dois anos, um quadro de baixo crescimento e elevada sinistralidade. O desempenho intrinsecamente ligado à economia implica menor movimentação de mercadorias e, por conseguinte, menor demanda por seguros. As péssimas condições das estradas, as extensas jornadas e a falta de capacitação dos caminhoneiros, além do aumento da violência, tiveram impacto na taxa de sinistralidade, que subiu dez pontos percentuais em 2014, saltando de 59% em 2013 para 69% no ano passado.

Com isso, os preços foram elevados, redução da demanda c um movimento de maior exposição ao risco por parte dos clientes com uma parcela preferindo o autosseguro. O resultado é que, em 2014, o volume de prêmios relacionados a seguros de transporte somou R$ 2,52 bilhões, apenas 1,8% a mais em relação aos R$ 2,47 bilhões de 2013. Do total, 46% são prêmios advindos de transportadores; 34% de embarcadores nacionais e 20% de embarcadores internacionais.

“O volume de prêmios não cresceu e não acompanhou a exposição de risco; houve, portanto, uma deterioração do resultado do seguro de transporte”, resume Paulo Robson Alves, presidente da comissão de transportes da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg). A sinistralidade, segundo ele, cresce porque a malha rodoviária responde por 60% do transporte de cargas, e 63% dos 90 mil quilômetros de estradas nacionais estão em situação ruim, precária ou regular, de acordo com dados da Confederação Nacional dos Transportes (CNT).

“Dos 69% de sinistralidade, os acidentes são em maior número, embora o volume Financeiro no roubo seja maior. O montante de sinistros também varia de acordo com o segmento. Entre os transportadores chegou a 70%; nos embarcadores nacionais atingiu 84%; e, nos embarcadores internacionais, que lidam principalmente com carga em contêineres, foi de 41 %”, enumera Alves.

Ricardo Girao, diretor de transportes da corretora Aon, diz que o mercado tomou-se também mais competitivo com a chegada de novos players, como as seguradoras XL, Swiss RE, AXA, HDI e Argo. Ele observa que em 2014, com a Copa, houve um aumento de roubo de cargas de eletrônicos. Com o risco ruim, as taxas foram elevadas e a demanda caiu. As seguradoras tiveram de reduzir suas margens. “Com um volume de prêmios menor e sinistralidade crescente, a rentabilidade de todo o setor caiu. A margem internacional, que era de 50%, caiu para 23%.”

A Aon opera no Brasil com 23 seguradoras e mantém uma área de consultoria em gerenciamento de risco. Os consultores analisam as características dos sinistros, as rotas, como a carga é transportada e se a empresa conta com algum tipo de rastreamento. Com isso, faz um mapeamento da operação e o melhor desenho de prevenção de risco, que é oferecido como uma consultoria, em alguns casos incluídos no valor do prêmio.

Outra empresa com forte atuação em gerenciamento de risco é a Pamcary, que se associou à Marsh em janeiro de 2014 na comercialização de seguros e gerenciamento de risco no mercado de transporte terrestre e logística. O apelo para a parceria foi a forte sinergia entre as duas empresas. Sérgio Caron, líder da prática de transportes da corretora Marsh Brasil, diz que 95% dos clientes são embarcadores industriais; e na Pamcary, 90% são transportadores rodoviários. Segundo ele, a Pamcary tem uma rede nacional de vistoriadores, que conseguem chegar rapidamente ao local dos acidentes para evitar o saque ou que a carga se danifique. A empresa automaticamente acumula um banco de dados, recolhendo documentos e mais de 80 informações sobre o sinistro.

“Com isso, tem uma capacidade de prestar consultoria em gerenciamento de risco. A Marsh passou a usar o banco de dados e essa competência para os clientes embarcadores”, diz Caron. Segundo ele, 2014 foi um ano difícil e 2015 será ainda mais desafiador. “Este será um ano em que as empresas precisarão ter mais cuidado com os seus números. A nossa proposta de valor vai desde a causa dos problemas. Temos conseguido mostrar que vale a pena pagar R$ 1 milhão em prêmio e mais R$ 100 mil de consultoria e, na renovação, pagar apenas RS 700 mil em prêmio e evitar chegar a R$ 1,5 milhão em função do número de sinistros.”

Na Rodobens, a operação de seguros e gerenciamento de risco atua em sinergia com a concessionária de veículos Rodobens Veículos Comerciais. A empresa teve um bom primeiro semestre em 2014 e conseguiu fechar o ano com crescimento de 6%, com prêmios de R$ 35 milhões. Segundo Carlos Ronaldo Paes Ferreira, diretor da Rodobens Corretora de Seguros, a sinistralidade tomou-se mais crítica e, assim, houve oportunidade em gerenciamento de risco, que tem uma penetração de 70% na base de clientes. “Com isso, tivemos resultado maior na redução do número de sinistro e no valor do seguro. A consultoria é permanente e começa com um diagnóstico de 60 dias. Temos 270 clientes na carteira, e a área de gerenciamento de risco representa um faturamento de R$ 3 milhões. Nossa sinistralidade foi de 50%”, diz Ferreira.

A maior parte das seguradoras tem o maior volume da carteira concentrada no segmento de transportadores que precisam contratar um seguro obrigatório, o de Responsabilidade Civil do Transportador Rodoviário de Carga (RCTR/C), que cobre acidentes, além do seguro facultativo contra roubo RCF/DC (seguro facultativo de Responsabilidade Civil do Transportador Rodoviário por Desaparecimento de Carga). As que têm foco maior no embarcador, porém, tiveram um melhor desempenho, como é o caso da Argo, que obteve, em 2014, prêmios de R$ 70 milhões, com crescimento de 30% em relação a 2013 e taxa de sinistralidade de 50%, abaixo da média de mercado.

Salvatore Jr, diretor de transporte da Argo, explica que o seguro ao embarcador tem ampla cobertura, e a exposição ao risco é menor, a não ser embarcadores nacionais com logística própria para distribuição em diversos pontos do país. A carteira da Argo tem 60% de embarcadores, dos quais 40% são importadores com muito pouca distribuição terrestre e carga conteineirizada. Para ele, o que diferencia a empresa é o conhecimento do risco por meio de uma equipe de 16 subscritores seniores. “Somos novos no mercado, disputando com grandes empresas globais centenárias. Foi uma decisão estratégica focarmos no importador”, comemora Salvatore. “Para 2015, nossa meta é chegar a RS 80 milhões em prêmios.”

Outra empresa que optou pela especialização é a Porto Seguro, que está lançando seguros customizados e simplificados para segmentos verticais. Cerca de 70% da carteira são de transportadoras, mas a seguradora criou a linha Seguro Transporte Mais Simples, inicialmente para os segmentos de autopeças, móveis e materiais de construção. A meta é chegar a 15 segmentos até o fim do ano. O produto dispensa a averbação (comunicação de embarque), e o pagamento pode ser feito à vista ou em até dez parcelas. “Segmentamos a carteira de acordo com a sinistralidade, o que me permitiu chegar à precificação e analisar que desconto dar com base na minha experiência. Em 2014, geramos prêmios de R$ 125 milhões, e nossa sinistralidade foi de 43%, porque também temos a gerenciadora de risco que faz o rastreamento da carga com monitoramento por satélite, celular ou híbrido. E elaboramos planos de gerenciamento de risco”, enumera Rose Matos, gerente de produtos de transporte da Porto Seguro.

O grupo segurador Banco do Brasil e Mapfre comemora prêmios de RS 277,93 milhões em todas as carteiras de seguros obrigatórios – rodoviário (RCTRC), ferroviário (RCTFC), aéreo (RCTAC) e marítimo (cabotagem)-, além do facultativo RCTFDC. Apesar da maior capilaridade do Banco do Brasil, apenas RS 15,7 milhões foram fechados nas agências. A Mapfre respondeu por RS 262,23 milhões em prêmios por meio de suas 127 filiais. Hoje, 80% da carteira é de transportadores. “Em 2014, crescemos 6%. Em 2015, pelo movimento dos dois primeiros meses, houve um decréscimo por perda na carteira. Apesar disso, o resultado foi melhor com sinistralidade 11 pontos percentuais abaixo, caindo de 61% em janeiro e fevereiro de 2014 para 50% em igual período de 2015, resultado de nosso trabalho de gestão de risco e redução de perdas”, analisa Tiago Camillo, gerente técnico de seguros de transportes da BB e Mapfre.

A Allianz Seguros tem uma carteira equilibrada: 60% de transportadores e 40% de embarcadores, com prêmios de RS 200 milhões, em 2014, crescimento de 12%. Segundo Marco Antonio Santos, superintendente de transportes da Allianz Seguros, a expectativa para 2015 é chegar a um valor entre RS 230 milhões e R$ 240 milhões, com crescimento em tomo de 20%. Ele afirma que a empresa tinha uma carteira pulverizada e fez um trabalho junto aos corretores para reduzir a sinistralidade, que fechou o ano em 56%. Em 2015, a meta é manter ou reduzir esse índice. Santos diz que a parte mais importante para a redução dos riscos é a subscrição, quando se analisam o tipo de mercadoria, as rotas e o plano de gerenciamento de riscos.

A Tokio Marine teve um ano difícil em 2014, com sinistralidade alta, o que levou a empresa a fazer uma limpeza na carteira, desistindo de contas de alto risco. A carteira é dividida em 50% de embarcadores nacionais, 30% de transportadores e 20% de embarcadores internacionais. No ano passado, a empresa obteve R5 200 milhões em prêmios, 20% abaixo de 2013. Felipe Smith, diretor-executivo de produtos pessoa jurídica da Tokio Marine, diz que a carteira de transportadores é mais nervosa, com maior risco, porque as cargas são diversificadas, e a seguradora não sabe o que está sendo transportado.

“Passamos de uma sinistralidade de 55% em 2013 para 63% no ano passado. A taxa vem crescendo em função da maior competição, que leva à redução dos prêmios. O mercado fez RS 2,5 bilhões em prêmios para serem divididos por 20 seguradoras. Ficou mais apertado”, diz Smith. Ele afirma que a decisão de desistir de contas deficitárias só é tomada após as tentativas de se reduzirem os riscos das empresas. “Tem cliente que não aceita e somos obrigados a desistir. Fizemos uma limpeza de mais de 20% em prêmios. Mas fiquei com uma carteira muito mais saudável. Este ano, reduzimos a sinistralidade para 33% e temos conseguido manter a meta de crescimento de 15%.”

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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