A agência de classificação de risco Morningstar DBRS alertou que a recente onda de distúrbios sociais na França reforça uma tendência crescente: manifestações violentas, tumultos e comoções civis estão assumindo características tradicionalmente associadas aos riscos catastróficos.
“A principal preocupação das seguradoras não é necessariamente a gravidade de um sinistro individual, mas o potencial de acumulação de milhares de sinistros correlacionados em carteiras de seguros patrimoniais comerciais, automóveis, bens públicos e lucros cessantes, quando os distúrbios se espalham rapidamente por várias cidades”, afirmou a agência em comunicado.
Segundo estimativa divulgada pela Morningstar DBRS, os recentes tumultos na França deverão gerar perdas seguradas inferiores a € 1,2 bilhão, desde que não ocorram novos episódios de violência.
A agência destacou que os acontecimentos reforçam a necessidade de tratar os riscos associados a greves, tumultos e comoções civis — conhecidos internacionalmente pela sigla SRCC (Strikes, Riots and Civil Commotion) — como riscos de acumulação, que exigem precificação específica, limites de cobertura e proteção de resseguro adequados.
Efeitos semelhantes de acumulação já foram observados nos Estados Unidos, no Chile e na África do Sul, onde episódios isolados de agitação social provocaram perdas seguradas superiores a US$ 2 bilhões.
“Episódios recorrentes de agitação social provavelmente continuarão pressionando os preços, os limites de cobertura, as franquias e os critérios de subscrição dos seguros contra greves, tumultos e comoções civis”, acrescentou a Morningstar DBRS.
FRANÇA PREPARA MECANISMO DE SEGURO COM APOIO ESTATAL
A agência também destacou a proposta francesa de criação de um mecanismo de seguro contra tumultos com respaldo do Estado como evidência de uma mudança na percepção desse risco.
Segundo a Morningstar DBRS, quando implementado, o mecanismo deverá reduzir as incertezas sobre a distribuição das perdas decorrentes de episódios extremos de violência urbana.
“Até lá, entretanto, as seguradoras francesas continuarão dependendo da combinação existente de seguros privados, resseguros e eventuais mecanismos de ressarcimento pelo Estado, potencialmente sujeitos a controvérsias. Isso reforça nossa avaliação de que os distúrbios civis não podem mais ser tratados como um risco patrimonial secundário, especialmente na França”, concluiu a agência.
INSTABILIDADE SOCIAL TAMBÉM REPRESENTA RISCO FISCAL PARA A FRANÇA
Além dos impactos diretos sobre o mercado segurador, os distúrbios também podem representar riscos fiscais e para o crédito soberano francês, segundo Mehdi Fadli, vice-presidente sênior e responsável pelo setor de classificações de risco soberano globais da Morningstar DBRS.
“Embora os custos fiscais diretos associados aos protestos recentes provavelmente permaneçam administráveis, o risco mais significativo está na possibilidade de que tensões sociais prolongadas restrinjam ainda mais a formulação de políticas públicas, dificultem a aprovação de um orçamento para 2027 compatível com os objetivos fiscais do governo e aumentem o risco de a França não conseguir corrigir seus desequilíbrios fiscais”, afirmou.
Segundo Fadli, a manutenção das pressões políticas e sociais também poderá manter elevados os custos de financiamento da dívida soberana francesa e dificultar os esforços de consolidação fiscal antes das eleições presidenciais de 2027.

























