A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) revisou para 7,9% a projeção de crescimento nominal do mercado segurador brasileiro em 2026, desconsiderando a previdência aberta. A estimativa anterior era de 9,9%, segundo Dyogo Oliveira, presidente da entidade, em entrevista exclusiva ao Sonho Seguro. A revisão representa uma redução de dois pontos percentuais na expectativa de expansão do setor, embora alguns segmentos, como os seguros de riscos financeiros, continuem apresentando desempenho expressivo.
Nas novas estimativas apresentadas pelo executivo, os seguros devem crescer 6,9%, a capitalização, 7,6%, e a saúde suplementar, 8,9%. A previdência aberta permanece fora das projeções devido às incertezas sobre os efeitos da cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre as contribuições aos planos. A CNseg espera apresentar números mais consistentes para esse segmento na divulgação das projeções de 2027, prevista para o final do ano.
Apesar da revisão das expectativas, Oliveira avalia que 2026 tem sido um ano de avanços importantes para o setor, especialmente na interlocução com diferentes áreas da economia e com os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Entre os resultados, cita decisões judiciais favoráveis, avanços legislativos e regulatórios e a inclusão do seguro nas discussões sobre infraestrutura, agronegócio, transporte e mudanças climáticas.
“Acho que foi um ano de muitas vitórias importantes para o setor”, afirma. Para o presidente da CNseg, uma das principais mudanças é o reconhecimento crescente do seguro como instrumento necessário ao desenvolvimento econômico, e não apenas como um produto de proteção financeira.
Segundo ele, essa transformação já pode ser observada na participação das seguradoras em debates que anteriormente aconteciam sem a presença do setor. “Hoje a gente é convidado para as discussões nos mais diversos setores”, afirma, citando iniciativas nas áreas de infraestrutura, construção, mercado imobiliário, agronegócio e portos.
Avanços regulatórios, decisões judiciais e infraestrutura
Entre as conquistas de 2026, Oliveira destaca a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que afastou a obrigação de destinação de 0,5% de reservas técnicas e provisões das seguradoras em créditos de carbono, prevista na legislação que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. A CNseg questionou a medida por entender que a imposição de investimentos compulsórios ao setor não era o instrumento adequado para financiar a transição climática.
O executivo também menciona os avanços nas discussões tributárias envolvendo PIS e Cofins, a tramitação do projeto de lei voltado ao fortalecimento do seguro rural e o desenvolvimento da regulamentação do Universal Life, produto que combina proteção securitária e acumulação financeira. Neste último caso, segundo Oliveira, ainda é necessária uma manifestação da Receita Federal para completar o arcabouço regulatório.
Na infraestrutura, a aproximação com o poder público começa a produzir resultados concretos. A CNseg participou da elaboração de um manual de seguros para parcerias público-privadas (PPPs), em conjunto com o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), e avançou nas discussões para incorporar a identificação dos riscos seguráveis à estruturação de projetos de concessões.
A expectativa é que os contratos passem a contemplar, desde a origem, uma especificação mais detalhada das coberturas necessárias. Oliveira acredita que esse movimento poderá estimular também a revisão de contratos de concessões e PPPs já existentes, ampliando as oportunidades para as seguradoras.
A entidade também avançou em acordos de cooperação e discussões com órgãos públicos ligados aos transportes, portos e aeroportos. O objetivo é incorporar o seguro às matrizes de risco dos projetos e ampliar a proteção de investimentos de longo prazo.
A aproximação se estende aos organismos multilaterais de financiamento. Oliveira relata conversas com representantes do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para estruturar um grupo de trabalho dedicado à utilização de seguros em operações de crédito e investimentos no Brasil e em outros países da América Latina. Para o executivo, essas iniciativas mostram que o setor começa a participar da formulação de projetos econômicos, em vez de ser chamado apenas na etapa de contratação das apólices.
Proteção climática ganha espaço na agenda
A ampliação da participação do seguro nas políticas de adaptação climática será uma das prioridades da CNseg durante a COP31, que será realizada em novembro, em Antalya, na Turquia. Oliveira destaca os resultados do grupo de trabalho da Superintendência de Seguros Privados (Susep) dedicado à proteção contra catástrofes naturais. Entre as recomendações está a criação de uma estratégia nacional de resiliência climática, com participação de diferentes ministérios e do mercado segurador.
Segundo o presidente da CNseg, existe a possibilidade de avançar ainda em 2026 na articulação de uma instância interministerial para tratar do tema. A entidade também participa de um projeto internacional de desenvolvimento de seguros climáticos para municípios da América Latina, com apoio do banco de desenvolvimento alemão KfW. No Brasil, quatro cidades foram selecionadas: Belo Horizonte, Recife, Curitiba e Porto Alegre. A parceria foi assinada durante a 28ª Conferência do Clima, COP 28, em 2023 em Dubai, nos Emirados Árabes, e deve ser concluída para entrar em vigor em 2027.
Cada município identificou uma infraestrutura prioritária para receber proteção securitária. Em Porto Alegre, por exemplo, a escolha envolve uma estação de bombeamento. O projeto está na fase de desenvolvimento das apólices e prevê subsídio do KfW para 60% dos prêmios, com o objetivo de demonstrar a viabilidade da contratação de seguros climáticos pelas administrações municipais.
“É um efeito demonstração. É começar a desenvolver esse tipo de produto no Brasil”, explica Oliveira. A expectativa é que a experiência estimule seguradoras a oferecer soluções semelhantes a outros municípios. Na COP31, a CNseg também pretende apresentar uma versão atualizada de seu Radar Climático, ferramenta que reúne informações sobre a exposição do território brasileiro a eventos extremos.
O objetivo, segundo Oliveira, é consolidar o reconhecimento internacional do setor como parte das soluções para os riscos associados às mudanças climáticas. Ele lembra que a COP30, realizada em Belém, marcou a inclusão do seguro nos documentos finais das negociações. “A gente conseguiu na COP de Belém, pela primeira vez, a inclusão do seguro nos documentos finais. O objetivo na COP de Antalya é ter cada vez mais o setor reconhecido dentro dos documentos oficiais”, afirma.
O desafio de chegar a quem ainda não tem seguro
Apesar dos avanços institucionais, Oliveira reconhece que o setor ainda enfrenta dificuldades para transformar sua maior visibilidade em expansão significativa da base de consumidores.
Na avaliação do executivo, cerca de 70% da população brasileira não possui seguros ou conta com proteção muito limitada. O desafio, portanto, não está apenas em ampliar as vendas para quem já contrata produtos securitários, mas em alcançar consumidores que permanecem fora desse mercado. “Esse é o grande desafio que a gente tem nos próximos anos: definir uma maneira de avançar em direção a essa população que não tem seguro ou tem seguro muito marginalmente”, afirma.
Ele considera que a responsabilidade por essa distância não deve ser atribuída exclusivamente ao consumidor. O próprio setor precisa melhorar sua comunicação, explicar os produtos de maneira mais clara e desenvolver estratégias comerciais capazes de alcançar novos públicos. “Nós reclamamos que o consumidor não entende seguro. Mas, quando olho toda a comunicação do setor, ela não explica o produto”, observa.
Pesquisas realizadas pela CNseg mostram, segundo Oliveira, que a percepção sobre o seguro é positiva entre aqueles que já possuem alguma cobertura. Entre os que não têm, entretanto, existe dificuldade até mesmo para identificar situações em que a contratação poderia ser útil.
Outro problema é a concentração das ofertas nos consumidores que já possuem apólices, enquanto uma parcela expressiva da população permanece sem receber propostas de proteção. Para mudar esse cenário, o presidente da CNseg defende maior diversificação dos produtos comercializados pelos corretores, integração de novos canais de distribuição e utilização mais intensa de tecnologias, incluindo inteligência artificial.
Ele acredita que o setor está próximo de uma transformação na forma de comercializar seguros, com produtos cada vez mais integrados às jornadas de compra de outros bens e serviços. “Eu acho que a gente está realmente no limiar de uma grande transformação do setor segurador”, afirma.
Na avaliação de Oliveira, o desenvolvimento tecnológico e a maior conexão entre seguradoras, corretores e consumidores serão fundamentais para que o mercado ultrapasse os limites atuais de penetração e alcance uma parcela mais ampla da sociedade.

























