Portugal indenizou 80% dos danos segurados após tempestade Kristin; Brasil protegeu apenas 6% das perdas nas enchentes do Sul

Regulador português mostra que seguradoras indenizaram mais de 80% dos prejuízos segurados da tempestade Kristin. Comparação evidencia o enorme déficit de proteção brasileiro e reforça o debate sobre um fundo nacional para catástrofes

O relatório divulgado pela Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), regulador do mercado segurador português, mostra como a penetração do seguro pode fazer diferença na recuperação econômica após grandes desastres naturais. Embora o país ainda enfrente um importante déficit de proteção, Portugal apresentou um nível de cobertura muito superior ao observado no Brasil durante as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul.

A tempestade Kristin provocou perdas econômicas estimadas em 5,3 bilhões de euros, das quais 1,4 bilhão de euros estava protegido por seguros — o equivalente a 26% das perdas totais. Foram registrados 218 mil sinistros e, apenas seis meses depois, mais de 99% dos casos já haviam sido periciados, cerca de 85% dos processos encerrados e mais de 80% dos prejuízos estimados no segmento residencial já haviam sido indenizados.

O presidente da ASF, Gabriel Bernardino, classificou o desempenho operacional das seguradoras como robusto, mas alertou para o fato de que quase três quartos dos prejuízos permaneceram sem cobertura securitária. Para enfrentar esse desafio, o regulador propõe a criação de um Sistema Nacional de Proteção contra Catástrofes Naturais, envolvendo Estado, seguradoras, resseguradoras, empresas e cidadãos. O relatório também mostra que 91% das perdas seguradas foram absorvidas pelo mercado internacional de resseguros, reforçando o papel do resseguro na estabilidade financeira diante de grandes eventos.

Brasil: apenas 6% das perdas tinham seguro

Se Portugal considera preocupante um índice de cobertura de 26%, o cenário brasileiro é significativamente mais desafiador. As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, consideradas o maior desastre climático da história recente do país, provocaram perdas econômicas estimadas em cerca de R$ 100 bilhões. No entanto, apenas aproximadamente R$ 6 bilhões estavam cobertos por seguros, o equivalente a 6% dos prejuízos.

Foram registrados cerca de 58 mil avisos de sinistros, demonstrando a capacidade operacional do setor, mas também revelando que a maior parte das famílias e empresas afetadas precisou recorrer a recursos próprios ou ao apoio do poder público para reconstruir seu patrimônio.

Os maiores desembolsos ocorreram justamente nas grandes operações empresariais. O segmento de Grandes Riscos respondeu por mais de R$ 3,2 bilhões em indenizações, distribuídas em aproximadamente 922 sinistros. Já no seguro residencial, mais de 3 mil imóveis receberam indenizações que somaram cerca de R$ 340 milhões, incluindo aproximadamente R$ 95 milhões destinados à reconstrução das moradias. O seguro prestamista registrou a maior parte dos pagamentos no Sul.

IndicadorPortugal (Tempestade Kristin)Brasil (Enchentes RS)
Perdas econômicas€ 5,3 bilhõesR$ 100 bilhões
Perdas seguradas€ 1,4 bilhãoR$ 6 bilhões
Cobertura das perdas26%6%
Sinistros218 mil58 mil avisos
IndenizaçõesMais de 80% dos danos segurados na habitação já pagosMais de R$ 3,2 bilhões em Grandes Riscos e R$ 340 milhões em residencial

Lacuna de proteção chega a 90%

Para Ana Carolina Mello, executiva com mais de três décadas de experiência no mercado segurador, os números refletem um problema estrutural que vai muito além de eventos isolados. Segundo ela, dados do Radar de Eventos Climáticos e Seguros, da CNseg, mostram que a lacuna de proteção climática no Brasil chega a 90%. Em outras palavras, de cada R$ 100 em prejuízos causados por eventos climáticos, apenas R$ 10 contam com cobertura securitária. A média global é de aproximadamente 40%.

“A indústria de seguros foi construída para responder ao grande evento isolado, como um terremoto ou um furacão. Hoje, o desafio é outro: tempestades sucessivas, enchentes recorrentes, incêndios simultâneos e eventos climáticos cada vez mais frequentes. O modelo tradicional de precificação e cobertura está sendo colocado à prova”, afirma.

Na avaliação da especialista, o caso do Rio Grande do Sul evidenciou essa mudança de paradigma ao mostrar tanto o volume de prejuízos sem cobertura quanto a necessidade de desenvolver instrumentos mais adequados para riscos climáticos de grande escala.

Ela destaca que o mercado começou a reagir com a incorporação de dados climáticos aos modelos de subscrição, o avanço das ferramentas de georreferenciamento e a expansão dos seguros paramétricos, que utilizam gatilhos objetivos — como volume de chuva, temperatura ou velocidade do vento — para acelerar o pagamento das indenizações.

Dados da FGV Agro mostram que esse mercado vem crescendo rapidamente. Entre 2021 e 2024, o número de apólices paramétricas rurais passou de menos de dez para mais de 170, enquanto a área segurada aumentou de menos de 200 hectares para mais de 5,5 mil hectares. Em 2025, esse modelo já alcançava cerca de 11 mil hectares segurados.

Para Ana Carolina, a necessidade de ampliar a proteção se torna ainda mais urgente diante da elevada probabilidade de retorno do El Niño no segundo semestre de 2026, fenômeno que pode aumentar a frequência e a intensidade dos eventos extremos no país.

“O risco climático deixou de ser uma exceção. Tornou-se parte permanente da gestão de riscos. O desafio agora é transformar um mercado historicamente reativo em um sistema capaz de antecipar perdas e ampliar a proteção antes que o desastre aconteça”, conclui.

Nesse contexto, ganha força também no Brasil a discussão sobre a criação de um Fundo Nacional para Catástrofes, defendido pela CNseg, como forma de ampliar a capacidade de resposta financeira do país diante de eventos climáticos cada vez mais severos e reduzir a enorme parcela das perdas que hoje permanece sem cobertura securitária.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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