O primeiro semestre foi de muito trabalho para a FM Seguros no Brasil. Enquanto prepara sistemas, contrata profissionais e adapta sua estrutura às regras locais, a companhia já fechou contratos importantes, principalmente com empresas de data centers, segmento considerado estratégico tanto para a operação brasileira quanto para o grupo mundialmente.
Embora tenha recebido autorização da Superintendência de Seguros Privados (Susep) para atuar diretamente como seguradora no país, a FM ainda não se apresentou oficialmente ao mercado nessa nova condição. O lançamento deverá ocorrer entre o fim do segundo semestre de 2026 e o início de 2027.
“Estamos em uma fase de setup da companhia, com sistemas, pessoas e toda a organização necessária para começarmos a operar de forma consistente. Temos uma reputação de excelência e não queremos correr o risco de iniciar sem conseguir entregar aos clientes o nível de serviço pelo qual a FM é reconhecida”, afirma Daniel Mazzi, presidente da operação brasileira da FM Seguros.
A adaptação tecnológica é uma das etapas mais trabalhosas. Em vez de adquirir uma plataforma pronta ou construir uma estrutura completamente separada para o Brasil, a companhia decidiu adaptar ao ambiente regulatório nacional os sistemas utilizados pelo grupo em outros mercados. Segundo Mazzi, o processo demanda mais tempo, mas deverá facilitar a integração da subsidiária brasileira com a estrutura mundial e a consolidação dos resultados da companhia.
A seguradora também está ajustando contratos, clausulados e processos ao Marco Legal do Seguro, em vigor desde dezembro de 2025. O executivo afirma que a nova legislação exige mudanças relevantes, mas que a FM se sente confortável com a transformação diante de sua experiência na explicação das coberturas, no acompanhamento técnico dos riscos e na definição prévia das responsabilidades de cada parte.“Temos de adaptar nossos clausulados a uma nova realidade, mas já realizamos um trabalho contínuo de explicar a apólice, suas coberturas e seus limites. Uma expectativa mal estabelecida é uma das piores coisas que podem acontecer na relação com o segurado”, diz.
Migração da carteira levará alguns anos
A FM começou a atuar no Brasil há aproximadamente quatro décadas, inicialmente com serviços de engenharia de riscos destinados a clientes internacionais. Como não possuía licença para emitir seguros diretamente, as apólices eram formalizadas por seguradoras parceiras, que funcionavam como fronting companies.
A Allianz esteve entre as primeiras parceiras da companhia no país. Atualmente, a operação é realizada principalmente por meio da Mapfre, da Sompo e da Swiss Re Corporate Solutions, que emitem localmente as apólices e mantêm uma parcela do risco, enquanto a maior parte é transferida para a FM.
Esse modelo não será encerrado abruptamente. A migração da carteira para a FM Seguros será planejada e deverá ocorrer ao longo de alguns anos. “Temos um acordo de transição. Queremos respeitar a história construída com essas seguradoras, que também são parceiras da FM em outros países. Não será uma transição aberta ou imediata”, explica Mazzi.
Grande parte da carteira brasileira é formada por apólices vinculadas a programas mundiais de empresas multinacionais. Ao longo dos últimos anos, porém, a FM também passou a conquistar grandes grupos com origem no Brasil.
De acordo com o presidente, o país já representa o segundo maior território da companhia em número de clientes, atrás apenas da China. A escala alcançada ajudou a justificar a decisão de constituir uma seguradora local. “A estratégia de estabelecer uma seguradora no Brasil foi tomada justamente para potencializar o que podemos fazer no mercado, colocar o pé de maneira mais firme no país, ter mais autonomia e ampliar nossa atuação”, afirma.
Mazzi não revela projeções de prêmios, investimentos ou prazo para que a nova operação alcance o ponto de equilíbrio. Afirma, entretanto, que a FM pretende se tornar um participante relevante no mercado brasileiro de riscos patrimoniais, inicialmente apoiada pela carteira que será transferida das seguradoras parceiras.
Data centers lideram novos negócios
Antes mesmo do início da emissão própria, a FM avançou na conquista de negócios locais. O principal destaque do primeiro semestre foi o setor de data centers, que vive um ciclo de expansão impulsionado pela inteligência artificial, pela computação em nuvem e pelo crescimento do processamento e do armazenamento de dados.
A companhia atende aproximadamente 80 grupos do setor no mundo e estabeleceu uma estrutura específica para essa atividade. No Brasil, já participa de projetos de grande porte e mantém conversas com empresas que planejam novos complexos. “Data centers são um dos setores em que queremos crescer. Já trabalhamos com esse tipo de cliente há muitos anos e temos visto um encaixe muito bom entre o que essas empresas precisam e o trabalho de engenharia e prevenção que conseguimos oferecer”, diz Mazzi.
A oportunidade, porém, também amplia a pressão sobre a infraestrutura de energia. Segundo a primeira revisão quadrimestral das previsões de carga para o planejamento de 2026 a 2030, elaborada pela Empresa de Pesquisa Energética, pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico e pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, a carga do Sistema Interligado Nacional deverá crescer, em média, 4% ao ano, chegando a aproximadamente 99 gigawatts em 2030.
A projeção considera, entre outros fatores, a expansão dos data centers, o avanço da micro e minigeração distribuída e a integração de Roraima ao Subsistema Norte. Para a FM, a expansão simultânea da demanda por eletricidade e dos investimentos em infraestrutura digital aumenta a exposição de ativos críticos. Uma paralisação em um data center pode não apenas provocar danos materiais e gerar uma reclamação de seguro, mas também resultar em multas contratuais, descumprimento de acordos de nível de serviço, perda de clientes e danos à reputação.
“É um setor que não pode parar. Às vezes, o evento nem chega a provocar uma reclamação de seguro, mas gera multa, perda de confiabilidade ou dificuldade de entrega ao cliente. Nosso trabalho é ajudá-lo a evitar esse tipo de interrupção e, caso aconteça, reagir rapidamente”, afirma.
A análise de risco considera desde a escolha do terreno e a construção até os sistemas de energia, refrigeração, detecção e combate a incêndio, além dos procedimentos operacionais e dos planos de continuidade de negócios.
Transformadores podem levar três anos para serem repostos
A preocupação com a continuidade das operações aparece em um novo relatório global da FM sobre os riscos associados à geração de energia. O estudo “Understanding Power Generation: Loss Trends and Predictive Analytics” aponta que a demanda mundial por eletricidade deverá crescer 3,6% ao ano entre 2026 e 2030.
A capacidade de resposta das empresas, entretanto, enfrenta gargalos importantes. O prazo para a fabricação e a entrega de grandes transformadores de energia pode chegar a dois ou três anos. No caso de turbinas a gás, a substituição pode levar entre três e sete anos.
Mesmo componentes menores apresentam dificuldades de reposição. Buchas condensivas acima de 62 quilovolts, utilizadas em transformadores e outros equipamentos de alta tensão, já podem levar mais de um ano para serem obtidas.
“A geração de energia é uma atividade estratégica para a economia, para a infraestrutura crítica e para a continuidade de diversos setores produtivos”, afirma Mazzi.
“Quando ocorre uma perda relevante nesse segmento, os impactos podem ir muito além da planta afetada, alcançando cadeias de produção, disponibilidade de energia e comunidades. Em um cenário de aumento da demanda e maior complexidade operacional, antecipar vulnerabilidades e gerenciar riscos de forma proativa é essencial para proteger ativos críticos e fortalecer a resiliência do setor”, acrescenta.
Os dados reunidos pela FM mostram que avarias mecânicas e elétricas representam mais de 70% dos sinistros analisados em instalações de geração de energia e mais de 80% do impacto financeiro anual. As turbinas a gás aparecem como a maior fonte isolada de danos materiais no setor.
Turbinas e transformadores também estão entre os principais responsáveis por perdas decorrentes da interrupção dos negócios, sobretudo por causa dos longos prazos de reparo ou reposição.
Entre 2016 e 2025, os clientes da FM no segmento de geração de energia acumularam US$ 4,6 bilhões em perdas brutas. Desse total, US$ 2,6 bilhões corresponderam a danos materiais e US$ 2 bilhões a lucros cessantes.
A quebra de maquinário respondeu por 44% das perdas, seguida pelas falhas elétricas, com 28%. Somente entre 2021 e 2025, foram registrados 427 sinistros, que somaram aproximadamente US$ 3,7 bilhões.
Prevenção começa nos detalhes
Fundada como uma seguradora mútua, a FM trabalha sob o princípio de que a maior parte das perdas patrimoniais pode ser evitada. Sua metodologia combina cobertura financeira, pesquisa científica, análise de dados e visitas recorrentes de engenheiros às instalações seguradas.
Mazzi, que iniciou sua carreira como engenheiro de campo, afirma que tecnologias como inteligência artificial, drones e análises remotas ampliam a capacidade de avaliação, mas ainda não substituem a observação presencial realizada por profissionais especializados.
“A inteligência artificial ajuda a relacionar dados, conectar observações aos resultados e fazer algumas análises remotas. Mas, quando o engenheiro entra em uma fábrica, ele olha a condição de uma mangueira, a pressão de uma unidade hidráulica, o desgaste de um componente, a existência de proteção ou a forma como o equipamento está sendo operado. É o detalhe que faz a diferença”, diz.
Segundo ele, muitos sinistros de grande porte começam com falhas aparentemente pequenas: uma peça que não foi substituída, uma recomendação que não foi implementada, materiais armazenados próximos demais dos sprinklers ou funcionários sem treinamento adequado.
Entre as vulnerabilidades identificadas no estudo sobre geração de energia estão incêndios provocados por falhas elétricas ou mecânicas, trabalhos a quente, como corte e solda, sobrecarga de transformadores e painéis elétricos e falhas em sistemas de resfriamento.
O risco ganha importância em operações de alta densidade, como os data centers, que apresentam cargas concentradas e perfis de consumo mais voláteis.
Globalmente, a FM realiza mais de 1.900 visitas anuais de engenharia em plantas de geração de energia. As avaliações resultam em recomendações relacionadas a inspeção, testes, monitoramento, manutenção, organização das instalações, planos de contingência e treinamento para cenários como perda de lubrificação, sobrevelocidade e falhas de controle.
De acordo com a companhia, mais de um quarto das perdas de seus clientes, aproximadamente 27%, tem origem em apenas 2% das localidades previamente classificadas como mais propensas a sofrer um sinistro.
A partir de uma base global de 60 mil locais visitados, a FM afirma conseguir identificar as mil unidades com maior predisposição a perdas superiores a US$ 3 milhões. “A prevenção se torna mais efetiva quando combina dados, engenharia e conhecimento de campo para antecipar vulnerabilidades antes que elas se transformem em sinistros relevantes”, diz Mazzi. “Esse trabalho permite que as empresas reduzam a exposição a perdas severas, protejam a continuidade de suas operações e tenham mais previsibilidade para sustentar sua confiabilidade e seus resultados no longo prazo”, complementa.
Por ser uma companhia mútua, na qual os próprios segurados são membros, a FM devolve parte de seus resultados por meio de créditos aplicados na renovação das apólices. O Membership Credit aumenta conforme o tempo de relacionamento do cliente com a seguradora. Há ainda o Resilience Credit, criado para estimular investimentos em medidas de proteção contra eventos climáticos e outras exposições relevantes.
Na prática, os valores são abatidos do prêmio da renovação. A FM recomenda que os recursos sejam reinvestidos na melhoria das instalações. “Quando o cliente investe em prevenção, ele tem menos sinistros. Com menos sinistros, o resultado da FM melhora e conseguimos aprovar novos créditos. Isso gera mais recursos para novos investimentos e cria um ciclo positivo”, explica Mazzi.
A estrutura ajuda a explicar a permanência de clientes por períodos prolongados. Além da cobertura do seguro, a companhia procura contribuir para a definição das prioridades de investimento, indicando as medidas com maior capacidade de reduzir a probabilidade e a severidade das perdas.
Planos incluem empresas de menor porte
A FM iniciará a operação direta concentrada nos grandes riscos, mas já estuda trazer ao Brasil produtos destinados a empresas de menor porte. Nos Estados Unidos, o grupo opera soluções específicas para companhias industriais médias e para riscos como hotéis, shoppings, redes de lojas e outras operações comerciais. A expansão dessas ofertas para o Brasil deverá ocorrer gradualmente e em parceria com os corretores.
“A seguradora nos dará mais possibilidades de trabalhar com os corretores e desenvolver novos negócios. Não queremos nos restringir aos maiores players. Onde houver um cliente relevante e compatível com a nossa proposta, trabalharemos com o corretor responsável”, afirma.
Em 2024, o grupo simplificou sua marca mundial, abandonando o nome FM Global e adotando apenas FM. A alteração não modificou sua estrutura societária nem seu modelo mútuo, mas reuniu sob uma única identidade suas diferentes operações.
No Brasil, a transformação mais profunda ainda está em andamento. Quando começar a emitir diretamente, a FM deixará de aparecer apenas nos bastidores dos programas internacionais e assumirá uma posição mais visível na disputa por grandes riscos patrimoniais. Os primeiros contratos com data centers indicam qual deverá ser um dos principais campos dessa expansão: operações nas quais uma falha aparentemente pequena pode interromper serviços críticos e produzir prejuízos muito superiores ao dano físico inicial.























Excelente notícia para o Brasil. A FM sempre representou “modernidade” em termos de condições contratuais para os grandes riscos de propriedades, apesar das limitações que a regulamentação infralegal determinava para as seguradoras locais, anterior à Resolução CNSP n.º 407/21 e Circular Susep n.º 621/21. Concorrência de primeira linha para novos riscos.