Terremoto na Venezuela deve gerar perdas bilionárias, mas seguros cobrirão apenas pequena parcela dos danos

Estudos apontam que a baixa penetração do seguro e a ausência de coberturas obrigatórias ampliarão a lacuna de proteção; maior parte dos sinistros deverá estar concentrada em ativos comerciais

A sequência de terremotos que atingiu a Venezuela em 24 de junho deverá provocar perdas econômicas de dezenas de bilhões de dólares, mas apenas uma pequena parte desse valor será absorvida pelo mercado segurador. A avaliação é compartilhada por dois dos principais grupos globais de corretagem e resseguros, Gallagher Re e Aon, que atribuem essa diferença à baixa penetração do seguro no país e à limitada proteção patrimonial da população.

Segundo a Gallagher Re, o principal terremoto, de magnitude 7,5, foi precedido apenas 39 segundos antes por outro abalo de magnitude 7,2, formando uma rara sequência sísmica que provocou colapso de edifícios, interrupções no fornecimento de energia, danos a rodovias, portos e ao Aeroporto Internacional Simón Bolívar. A corretora destaca que a maior parte das perdas seguradas deverá estar concentrada em empresas, já que o seguro residencial tem participação extremamente reduzida na Venezuela.

A Aon reforça essa avaliação em seu Weekly Cat Report. Segundo a corretora, as perdas da indústria de seguros representarão apenas uma fração dos prejuízos econômicos totais, devido à baixa penetração do seguro, à inexistência de programas obrigatórios de cobertura e também à ausência de eventos sísmicos de magnitude semelhante na memória recente do mercado, o que amplia a incerteza sobre a exposição das seguradoras.

O relatório da Aon explica que os terremotos constituíram uma chamada “sequência dupla” (doublet sequence), fenômeno em que dois grandes abalos de magnitudes semelhantes ocorrem praticamente no mesmo local e em curto intervalo de tempo. O evento está associado à interação entre as placas Sul-Americana e do Caribe, em uma região marcada por importantes falhas geológicas, como os sistemas Boconó, Oca-Ancón e Bucaramanga-Santa Marta, responsáveis por terremotos históricos no norte da Venezuela.

Embora o norte venezuelano possua histórico de atividade sísmica, a região situada em um raio de aproximadamente 250 quilômetros dos epicentros registrou apenas sete terremotos de magnitude superior a 6,0 no último século. Para a Aon, o episódio de 24 de junho poderá se tornar o mais letal do país desde o terremoto de 1812, que matou cerca de 26 mil pessoas.

Os números da tragédia ainda continuam sendo atualizados. Enquanto a Gallagher Re informou inicialmente 589 mortes e mais de 4.300 feridos, a Aon ressalta que estimativas do sistema PAGER, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), indicam que o total de vítimas fatais pode chegar à casa dos milhares ou até dezenas de milhares. Organizações de monitoramento também estimam entre 11 mil e 46 mil pessoas desaparecidas.

Em relação aos impactos econômicos, os dois estudos convergem. A Gallagher Re cita estimativa do USGS segundo a qual existe 77% de probabilidade de que apenas o terremoto principal tenha provocado perdas superiores a US$ 10 bilhões. Considerando que o Banco Mundial estimou o Produto Interno Bruto (PIB) venezuelano em cerca de US$ 120 bilhões em 2024, os prejuízos poderão representar uma parcela significativa da economia nacional.

Apesar da magnitude da catástrofe, tanto Gallagher Re quanto Aon avaliam que o evento dificilmente produzirá impactos relevantes para o mercado global de resseguros. Os efeitos deverão ficar concentrados em seguradoras e resseguradoras com operações na América Latina, sobretudo nas carteiras corporativas, uma vez que a maior parte dos imóveis residenciais afetados não possui cobertura securitária.

Na avaliação das duas corretoras, o desastre também evidencia um dos principais desafios discutidos atualmente pelo setor segurador mundial: a redução da lacuna de proteção (protection gap). Em países com baixa disseminação do seguro, eventos naturais extremos acabam sendo financiados majoritariamente pelos governos, por organismos internacionais e pelas próprias famílias afetadas, tornando a reconstrução mais lenta e aumentando os impactos sociais e econômicos de longo prazo.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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