Seguros e vinícolas: a gestão de risco por trás dos grandes vinhos 

Planejamento e gestão de riscos caminham lado a lado na construção de um patrimônio que atravessa gerações, protegendo a produção dos impactos do clima, da armazenagem, do transporte e de outros imprevistos do negócio

LISBOA – Muitos visitam vinícolas para degustar vinhos, apreciar a gastronomia e contemplar paisagens. No meu caso, a experiência costuma ser um pouco diferente. Gosto de ouvir histórias de empreendedores, aprender com enólogos e observar como a gestão de riscos está presente, ainda que de forma silenciosa, na trajetória de qualquer negócio de sucesso.

Foi exatamente essa reflexão que surgiu durante uma visita à Fundação Eugénio de Almeida, em Évora, no coração do Alentejo português. Conhecida pelos vinhos da marca Cartuxa, a instituição construiu ao longo de décadas uma reputação que ultrapassa a produção de vinhos e se tornou um símbolo de tradição, qualidade e visão de longo prazo.

A Cartuxa tem em sua posse duas propriedades que são parte da vasta e rica história da região do Alentejo: a Adega Cartuxa Quinta de Valbom e a Adega Cartuxa Monte de Pinheiros. A primeira é um dos centros de estágio dos vinhos produzidos pela Fundação Eugénio de Almeida, vinhos esses que começaram a ser produzidos em 1978 sob a marca Cartuxa, utilizando as vinhas que originalmente pertenciam aos Monges Cartuxos. 

Já a segunda adega, na Herdade de Pinheiros, possui a mais avançada tecnologia e permite receber a totalidade da uva produzida nas vinhas. Todo ano, cerca de seis milhões de garrafas saem de sua linha de engarrafamento totalmente automatizada, distribuídas por vinhos brancos, rosés e tintos das marcas Vinea Cartuxa, EA, Foral de Évora, Cartuxa, Scala Coeli e Pêra-Manca.

Ao caminhar pelas adegas, observar barricas onde os vinhos repousam por anos e conhecer os processos que transformam a uva em alguns dos rótulos mais respeitados de Portugal, fica evidente que cada garrafa representa muito mais do que uma bebida. Ela concentra investimentos de longo prazo, conhecimento técnico, trabalho humano e uma série de riscos que precisam ser administrados diariamente.

A natureza do negócio vitivinícola é, por definição, uma atividade exposta a incertezas. O clima pode comprometer uma safra inteira. Uma geada fora de época, uma onda de calor extremo, incêndios florestais ou chuvas excessivas podem afetar a qualidade das uvas e reduzir a produção. Depois da colheita, surgem novos desafios: armazenamento adequado, controle de temperatura, conservação das barricas, riscos de contaminação, transporte das garrafas e proteção das instalações.

Há ainda a responsabilidade perante visitantes, fornecedores, distribuidores e clientes. Em regiões onde o enoturismo cresce ano após ano, as vinícolas também administram riscos relacionados à circulação de pessoas, degustações, eventos corporativos, casamentos e atividades de hospitalidade.

É nesse ponto que a gestão de riscos deixa de ser apenas um conceito corporativo e passa a integrar a estratégia do negócio. Nenhum empreendedor investe décadas na construção de uma marca para deixar seu patrimônio vulnerável a um evento inesperado. O seguro, nesse contexto, não é apenas um mecanismo de indenização. É uma ferramenta de continuidade operacional e de preservação de valor.

Para Ariel Couto, presidente da operação brasileira do grupo MDS, maior corretora de seguros de Portugal, a proteção acompanha toda a jornada do vinho. “E para que tudo corra bem, de forma tranquila, há seguros para cada fase do processo: desde a plantação das videiras até a comercialização das garrafas, passando por toda a cadeia de produção, armazenagem e transporte do vinho. Com a consultoria de um bom corretor, que atue no segmento, nenhum imprevisto destruirá esse legado”, afirma.

A história da Cartuxa ajuda a ilustrar essa visão. A marca tornou-se uma referência internacional não apenas pela qualidade dos seus vinhos, mas pela capacidade de manter um projeto sustentável ao longo do tempo. E sustentabilidade, quando observada sob a ótica empresarial, significa também proteger ativos, pessoas, receitas e a própria reputação.

Durante a visita, não pude deixar de pensar que o maior risco para uma vinícola nem sempre está dentro da adega. Está do lado de fora. O clima, cada vez mais imprevisível, já afeta diretamente a produção europeia de vinhos. Em Portugal, a safra de 2025 registrou uma das maiores quedas da última década, impactada por condições climáticas adversas e doenças que afetaram os vinhedos.

O tema ganhou ainda mais relevância após as tempestades que atingiram Portugal nos últimos anos. Ventos extremos, chuvas intensas e danos à infraestrutura reforçaram uma preocupação comum entre empresários de diversos setores: como proteger um patrimônio construído ao longo de gerações diante de eventos cada vez mais severos e menos previsíveis.

Os desafios não são exclusivos da Europa. Um dos exemplos mais emblemáticos vem da Califórnia, nos Estados Unidos. Nos últimos anos, diversas vinícolas do Napa Valley sofreram prejuízos milionários por causa de um fenômeno conhecido como smoke taint. Em muitos casos, os vinhedos sequer foram atingidos pelas chamas dos incêndios florestais. Ainda assim, a fumaça contaminou as uvas, alterando o aroma e o sabor do vinho. Safras inteiras precisaram ser descartadas, demonstrando que mesmo negócios consolidados estão expostos a riscos inesperados.

Além da tradição e da excelência reconhecidas internacionalmente, a Cartuxa mantém uma relação cada vez mais próxima com o consumidor brasileiro. Segundo Humberto Fernandes, responsável pela comunicação da Cartuxa, o Brasil ocupa posição estratégica para a marca. “O Brasil é o maior mercado de exportação da Adega Cartuxa. Uma das particularidades da abordagem que é feita pela Cartuxa ao mercado brasileiro traduz-se no facto dos vinhos da Cartuxa estarem presentes em todos os estados brasileiros em cerca de 6 mil pontos de venda. Isso veio consolidar uma relação de proximidade da marca com o consumidor brasileiro cada vez maior”, destaca.

Segundo ele, essa aposta vem sendo construída há vários anos. “O mercado brasileiro representa para a Cartuxa uma aposta estratégica que foi iniciada há alguns anos. Em 2023, a Adega Cartuxa foi o maior exportador europeu de vinhos, em valor, para o Brasil e desde então continua sempre nos primeiros lugares do ranking. O mercado brasileiro representa cerca de um terço da faturação global anual da Adega Cartuxa”, afirma.

Existem entre 800 e 1.100 vinícolas no Brasil. A estimativa varia de acordo com o critério de catalogação, abrangendo desde grandes empresas a pequenos produtores rurais e cooperativas. Geograficamente, a maior concentração continua na Serra Gaúcha, mas o cultivo tem se expandido fortemente para outras áreas do país, como o polo do Vale do Rio São Francisco, na Bahia e Pernambuco, e o planalto catarinense, alem de estados como São Paulo, Minas Gerais e Goiás vêm despontando na produção de vinhos de inverno. 

Isso faz despontar nos setor de seguros corretoras especialistas no tema, como a MDS, a REP Seguros, a Alper Seguros entre outras. Segundo alguns corretores especializados, a gestão de riscos de vinícolas, ainda mais as que mais recentes que ainda nem atingiram o break even, tem relevância estratégica. Uma interrupção na produção, um evento climático severo, um incêndio, um problema de armazenagem ou uma falha logística podem impactar não apenas uma safra, mas uma operação internacional construída ao longo de décadas e presente em milhares de pontos de venda.

Ao ouvir as explicações dos especialistas da Cartuxa sobre o cuidado com cada etapa da produção, fica evidente que a gestão de riscos é muito parecida com a elaboração de um grande vinho. Ambas exigem paciência, planejamento, conhecimento técnico e visão de longo prazo. Nenhuma delas produz resultados imediatos, mas ambas são fundamentais para garantir a longevidade.

Talvez por isso a visita tenha deixado uma impressão que vai muito além da degustação. O vinho ensina paciência. O empreendedorismo ensina coragem. E a gestão de riscos ensina que nenhum patrimônio atravessa gerações sem proteção adequada. O sucesso empresarial não é construído apenas com visão, talento e trabalho. Ele também depende da capacidade de proteger aquilo que foi conquistado. Porque, no fim das contas, os riscos sempre existirão. A diferença está na forma como cada empreendedor escolhe se preparar para eles.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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