Valor Econômico traz um retrato amplo de como o setor de seguros entra em 2026

O mercado segurador brasileiro entra em 2026 diante de uma transição relevante. Depois de um ciclo em que parte do crescimento esteve concentrada em segmentos específicos, o setor passa a se mover por uma combinação mais complexa de fatores: expansão dos ramos de risco, intensificação do uso de tecnologia, ganho de eficiência operacional, adaptação regulatória e desenvolvimento de produtos mais aderentes à realidade financeira de famílias e empresas. Em um ambiente ainda marcado por juros elevados, orçamento apertado e competição crescente pela renda do consumidor, o avanço tende a depender menos de impulso homogêneo e mais da capacidade de precificar melhor, distribuir com mais inteligência e ampliar a cultura de proteção em um mercado ainda subpenetrado.

As reportagens deste especial mostram que essa expansão será desigual. Há linhas com tração mais clara, como vida, prestamista, automóvel, habitacional, saúde, garantia e riscos financeiros, beneficiadas pela maior consciência sobre proteção, pela expansão do crédito e pela busca por soluções mais conectadas ao cotidiano do cliente. Em paralelo, segmentos como previdência aberta, seguro rural, riscos de engenharia e parte das coberturas empresariais continuam condicionados a ajustes tributários, aperfeiçoamentos regulatórios, subsídios ou redesenho de oferta para reagir de forma mais consistente. O retrato é o de um setor que cresce, mas de forma seletiva.

No centro desse movimento está a transformação do próprio papel do seguro na economia. Mais do que instrumento clássico de recomposição patrimonial, ele passa a ocupar espaço crescente na preservação de renda, na reconstrução após perdas, na adaptação às mudanças climáticas, na sustentação do crédito, no planejamento financeiro das famílias e na resiliência das cadeias produtivas. O avanço da inteligência artificial, a consolidação de novos marcos regulatórios, a integração de cooperativas e associações ao ambiente supervisionado, o debate sobre seguro catástrofe, a evolução do open insurance, a reinvenção da corretagem, a sofisticação do resseguro e a criação de produtos mais flexíveis ajudam a redesenhar esse mapa.

O conjunto das matérias revela, assim, um setor mais tecnológico, mais analítico e mais competitivo, mas ainda diante de desafios antigos. Em um país com baixa penetração em frentes essenciais — da proteção patrimonial no campo ao seguro de vida, da cobertura contra eventos extremos à difusão dos microsseguros —, o espaço para crescer continua expressivo. O desafio de 2026 não é apenas expandir arrecadação, mas transformar potencial em escala, com produtos mais simples, distribuição mais eficiente, maior segurança jurídica e capacidade de responder a uma sociedade mais exposta a riscos financeiros, climáticos, digitais e sociais.

CENÁRIO 2026

A dinâmica do setor de seguros em 2026 tem sido ditada pela convergência de vetores que combinam expansão dos ramos de risco, uso mais intensivo de tecnologia, ganho de eficiência operacional, adaptação regulatória e busca por produtos mais aderentes ao bolso e à necessidade do consumidor. Depois de um 2025 em que a arrecadação consolidada foi afetada pela fragilidade da previdência aberta, especialmente do VGBL, o setor chega a este ano com a convicção de que o crescimento tende a vir menos de um impulso homogêneo e mais da capacidade de executar melhor, precificar com mais precisão, distribuir com mais inteligência e ampliar a cultura de proteção em um mercado ainda subpenetrado.

CRESCIMENTO 

O mercado segurador brasileiro entra em 2026 com crescimento mais moderado e cada vez mais concentrado nos segmentos em que a demanda já se mostra recorrente e menos dependente de incentivos externos. Depois de encerrar 2025 com expansão de 1,8% no conceito mais amplo da CNseg – que inclui seguros, previdência aberta, capitalização e saúde suplementar -, o setor começou o ano em ritmo mais fraco do que o previsto anteriormente, levando a entidade a revisar sua estimativa de arrecadação para R$ 808 bilhões, uma alta nominal de 5,7%.

PREVIDÊNCIA

A previdência privada alcançou no ano passado R$ 1,8 trilhão em ativos e 11,2 milhões de contribuintes no Brasil, conforme a Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi) e a Superintendência de Seguros Privados (Susep). As cifras, consideradas robustas, poderiam ser mais altas.

SAÚDE

As operadoras de planos de saúde registraram lucro líquido de R$ 23,8 bilhões em 2025, alta de 120,7% em relação a 2024. No segmento de seguro saúde – o menor do mercado, com sete empresas, mas que representam 14% dos beneficiários do setor -, o resultado foi de R$ 7,8 bilhões, avanço de 68,2%, segundo a ANS. 

BANCOS

Os grandes bancos brasileiros há muito identificaram a capacidade de o setor de seguros alavancar seus resultados operacionais e financeiros. A partir de seus balcões, a via primária de atração de clientes, tais instituições investiram em tecnologia e em inovação de produtos e serviços e, atualmente, despontam entre os mais competitivos figurantes dos rankings elaborados pela Susep.

CORRETORES

O mercado de corretagem de seguros, com mais de 150 mil empresas cadastradas na Susep, passa por uma reorganização no país, movimento marcado por consolidação de grandes grupos, avanço da tecnologia e mudança do papel do corretor, cada vez menos associado à simples intermediação de apólices e mais ligado à consultoria de riscos, benefícios e proteção patrimonial. Em um ambiente mais competitivo, escala, especialização e capacidade de integrar serviços se tornaram diferenciais centrais para crescer.

EVENTOS CLIMÁTICOS

Eventos climáticos extremos já provocaram perdas de R$ 184 bilhões no Brasil entre 2022 e 2024, o equivalente a cerca de R$ 60 bilhões ao ano, segundo a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). Esse cenário vem pressionando o setor de seguros, com impactos sobre preços, cobertura e aceitação de risco, além do custo e da capacidade do resseguros. 

INSURTECHS

Consolidação e recomposição estratégica ditam o tom das insurtechs neste ano, unindo avanços tecnológicos a ganhos operacionais e financeiros. São mais de 500 startups de seguros ativas na América Latina. Cerca de 200 estão no Brasil, de acordo com hubs de inovação. O setor vem de um crescimento de 7% na região em 2025, segundo a Digital Insurance Latam. 

MICROSSEGUROS

As soluções voltadas ao público de alta vulnerabilidade ganham força no segmento de microsseguros. Trata-se de um mercado com potencial demanda. A população de favelas no Brasil, segundo o Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aumentou 43,5% entre 2010 e 2022.

PME

As apólices cibernéticas também contribuem para fortalecer a segurança digital das micro e pequenas empresas (MPEs), por servirem como instrumentos complementares de reforço da governança. Esse segmento é bastante vulnerável, aponta a pesquisa “Maturidade em Privacidade nos Pequenos Negócios”, do Sebrae, realizada em 2024 com 415 empreendedores de de serviços, comércio e indústria.

SEGURO DE VIDA

O investimento do mercado segurador em coberturas moduladas, mais atrativas e aderentes às necessidades dos diferentes públicos-alvo, tem dado certo quando o assunto é seguro de vida. O produto, destaque entre seguros de pessoas, chama a atenção pela crescente e criativa inclusão de coberturas em vida.

UNIVERSAL LIFE

Os tributos costumam assustar os detentores de planos de previdência privada no momento de pôr suas mãos no saldo acumulado para a aposentadoria, em especial os optantes pelo PGBL, obrigados a desembolsar o Imposto de Renda sobre todo o capital. Superada essa fase, eles terão de decidir como receber a renda.

CAPITALIZAÇÃO

Os títulos de capitalização ocupam uma nova posição no mercado. Aos poucos, eles se firmam como instrumento aceito em licitações públicas e contratos administrativos. Esse processo ganhou impulso com uma mudança na legislação, que em 2023 alterou a Lei de Licitações e incluiu expressamente o título de capitalização entre as modalidades de garantia possíveis. 

PORTFOLIO 

O seguro de automóveis segue o principal produto do segmento de danos e responsabilidades no Brasil. Responde por 42,6% da arrecadação total do setor. Em 2025, o ramo movimentou R$ 61,6 bilhões, alta de 6,8% frente a 2024. Trata-se de um desempenho que, historicamente, supera a inflação.

AUTO 

A inteligência artificial (IA) e novas tecnologias estão revolucionando o seguro auto, um mercado que cresceu 5,9% de janeiro a maio de 2025, arrecadando R$ 24 bilhões e pagando R$ 14,4 bilhões em indenizações. A inovação está por trás do desempenho das seguradoras líderes do setor, Porto Seguro, Tokio Marine, Allianz, Bradesco, Yelum e Hdi, contribuindo para um crescimento da arrecadação anual na casa dos dois dígitos.

RESSEGURO

As cessões de resseguro no Brasil cresceram 68,8% entre 2021 e 2025. Passaram de R$ 17,3 bilhões para R$ 29,2 bilhões, acompanhando o avanço do mercado de seguros e a entrada de grupos internacionais. O setor reúne hoje 15 resseguradoras locais, 25 admitidas e 92 eventuais licenciadas.

FRAUDES

O uso de inteligência artificial (IA) para criação de imagens e vídeos tem impulsionado um aumento global nas fraudes digitais, com impacto direto no setor de seguros. O ramo de automóveis é o mais atingido, principalmente por tentativas de manipulação de imagens e vídeos de veículos danificados.

AGRO

Apesar de ser o motor do crescimento da economia brasileira nos últimos anos, o agronegócio está cada vez mais desprotegido. No ano passado, a área plantada coberta pelo seguro rural, o principal mecanismo de proteção ao produtor, foi de apenas 3,2 milhões de hectares.

PARAMÉTRICO

O seguro paramétrico, modalidade na qual a indenização é paga com base na intensidade de um evento pré-definido e não na avaliação de prejuízos reais, avança no Brasil sem consenso sobre seu estágio de maturidade e ainda focado no mercado agrícola.

RISCOS CIBERNÉTICOS

O mercado de seguro cibernético no Brasil passa por uma rápida evolução, em resposta ao cenário de ameaças digitais cada vez mais complexas e frequentes. Reembolsar prejuízos financeiros é apenas uma das funções das apólices.

SEGURO GARANTIA

A contratação de seguro garantia, modelo de proteção para assegurar que obrigações contratuais sejam cumpridas, tem avançado de forma expressiva. Em 2025, o setor cresceu 23,8% em termos nominais. Alcançou R$ 6,29 bilhões em prêmios, segundo a Susep. 

CLÁUSULA DE RETOMADA

Prevista no seguro garantia, a cláusula de retomada – mecanismo criado na Nova Lei de Licitações que obriga a seguradora a concluir as obras de uma concessão pública em caso de abandono ou inadimplência da concessionária – tem gerado dúvidas no mercado, mas não a ponto de impedir as expectativas em relação à modalidade, voltada para assegurar o cumprimento de obrigações contratuais. Como há poucos editais de obras públicas desse porte no país, a experiência das seguradoras nesse setor ainda é tímida.

JUDICIÁRIO

As reclamações à Justiça deixaram de ser apenas uma variável e passaram a interferir diretamente nas provisões, planejamentos, reajustes e estratégias das seguradoras. Esse cenário avança ano a ano e é uma das conclusões da 3ª edição da Agenda Jurídica do Mercado Segurador 2026, da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg).

CARBONO

Os seguros para projetos de créditos de carbono, especialmente ligados à conservação e restauração de florestas, começam a ser oferecidos no mercado brasileiro. Embora sejam produtos de nicho e muito especializados, esse setor tem potencial para crescer, à medida que o mercado voluntário global de créditos de carbono também se expande.

EVENTOS

A demanda por seguros para eventos – especialmente esportivos – cresce no Brasil, impulsionada pela popularização de corridas de rua, caminhadas e provas de ciclismo. O avanço acompanha a expansão da indústria de eventos, mas a penetração ainda é baixa.

MULHERES

A demanda por seguros mais aderentes à rotina das mulheres começa a ganhar escala no Brasil, impulsionada por mudanças no comportamento de consumo e pelo maior protagonismo feminino na gestão financeira das famílias. Entre 2024 e 2025, a contratação de seguros por mulheres cresceu 21%, segundo a Lojacorr. 

LIGA DESLIGA

Historicamente estruturado sobre contratos de longo prazo e coberturas amplas, o mercado de seguros começa a rever sua lógica diante de um consumidor que demanda mais controle sobre o que contrata e, principalmente, sobre quanto paga. Nesse contexto, ganha força o seguro intermitente, ou “liga-desliga”, regulamentado pela Susep em 2019 e que funciona como um serviço “per-pay-use”. Diferentemente do formato tradicional, que dilui o risco ao longo de um período fixo, geralmente anual, essa modalidade tem como foco a precificação individual apenas no período em que há, de fato, exposição ao risco.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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