De um dia para o outro, a AIG deixou de ser sinônimo de sono tranqüilo para ser um pesadelo real para milhões de pessoas envolvidas com seguros no mundo. Em setembro de 2008, quando o governo dos Estados Unidos acabara de virar as costas para o Lehman Brothers,
deixando o quinto maior banco de investimento do pais ir a falência, soube que teria outro imbróglio para resolver: a AIG. A pressão para socorrer a AIG veio de várias partes do mundo, uma vez que ela era a garantidora de milhões de contratos. Ou socorre ou o sistema financeiro mundial estará em risco. Esse foi o recado dos assessores a Ben Bernanke, presidente do FED, banco central dos EUA, no auge da crise financeira. Aparentemente, foi um choque para ele, que três meses antes afirmava categoricamente que o sistema bancário americano estava ”bem capitalizado”. A saída foi injetar mais de US$ 180 bilhões no grupo.
Quatro anos depois de ser socorrida, a AIG divulgou lucro de US$ 1,9 bilhão no terceiro trimestre de 2012, em seu primeiro balanço após o Tesouro dos EUA deixar de ser o sócio majoritário da companhia. Uma forte reversão do prejuízo de US$ 4 bilhões (US$ 2,10 por ação) apurado no mesmo período do ano anterior. Isso mostra que tão rapidamente como chegou ao fundo do poço, a AIG se repagina e em breve deve voltar ao posto de liderança que ocupou por tantos anos. Pelo menos na America Latina, região na qual nunca deixou de apostar. Em 2011, o grupo apareceu lá no fim do ranking das 20 maiores seguradoras da America Latina, elaborado pela Fundación Mapfre. “Ela sobe rápido”, aposta um ressegurador, que está entre os principais parceiros de negócios da AIG no mundo e que foi até o coquetel de apresentação de Jaime Calvo, novo CEO de operação de seguros da AIG no Brasil. Ele assumiu o lugar deixado pelo carismático Guillermo Leon, que passou a conduzir a operação local de resseguros.
Sobre Jaime Calvo pouco posso contar além do que leio e ouço. Não pude conversar com ele no evento por determinação da área de comunicação, que garantiu entrevistas exclusivas para a revista Exame e Valor Econômico. Sobre ele o leitor poderá ter mais informações nas matérias que serão publicadas pelas jornalistas Carolina Oms, do Valor Econômico, e Malu Fernandes, da Exame.
Ambas estiveram com Calvo e com o chefe Peter Eastwood, presidente executivo da AIG para as Américas, pouco antes do início do evento que reuniu mais de 200 convidados. Enquanto isso, eu circulava entre clientes, corretores de seguros e de resseguros, bem como resseguradoras, advogados, consultores, engenheiros, executivos do mercado financeiro envolvidos em financiamentos estruturados e outros jornalistas especializados.
“Já o conheceu? Ele é bom para enfrentar a concorrência no Brasil, que tem até mesmo o governo como player?”, indaguei um de seus convidados que atua na área de resseguro. “Não sei sequer se é calvo”, brincou. Sabemos que ele é mexicano e estava atuando na Argentina. “Deve estar feliz da vida de ter vindo para o Brasil, pois trabalhar no mercado portenho está uma coisa de louco com as mudanças promovidas pela presidente Cristina Kirchner”, disse um outro convidado da área jurídica.
Realmente a situação na Argentina preocupa os brasileiros, que temem que a moda pegue no Brasil. Vale lembrar que apresidente Dilma Rousseff está com Cristina. A presidente da Argentina determinou, em cadeia nacional de rádio e televisão em outubro último, que as seguradoras terão que destinar uma porcentagem de seus recursos para “investimentos produtivos e de infraestrutura”. De acordo com Cristina, os fundos provenientes de seguros contra acidentes de trabalho terão que aplicar até 10% de seu total desta maneira. Os fundos de seguros gerais e de resseguros aplicarão até 20% de seu total. Já a porcentagem do total gerado pela venda de seguros de vida ficará em 30%. Segundo Cristina, em um ano a alocação para investimentos deverá atingir 7 bilhões de pesos argentinos, o equivalente a US$ 1,5 bilhão.
Exatamente neste momento Calvo deixa o país vizinho e chega ao Brasil, o país da moda para a indústria mundial de seguros. O mercado de seguros cresce ano a ano, independentemente da estagnação do PIB. As reservas se aproximam de R$ 400 bilhões e o governo agora prioriza o setor. A indústria passou a ser mais fiscalizada e o órgão regulador sofre menos influência privada e estatal, o que torna a concorrência mais leal. Nada daquele tempo em que o grupo perdeu algumas centenas de dólares ao apostar na área de automóvel no varejo no Brasil, com a seguradora American Home. A idéia de vender seguro de carro online e por telefone era tão boa que a empresa naufragou diante da força dos concorrentes e dos corretores, temerosos com tantas novidades que o grupo trazia para os consumidores locais.
Hoje é mais difícil conseguir tirar um concorrente do mercado. Tanto pela regulamentação como pelo voraz apetite dos estrangeiros pelo Brasil, uma vez que precisam recuperar a baixa rentabilidade mundial gerada pela recessão e perdas com catástrofes em países europeus, nos Estados Unidos e no Japão. “O Brasil é um dos principias mercados para o meu grupo”, afirma um importante ressegurador. Também não precisa mais afundar concorrentes. O Brasil cresceu tanto que há lugar para todos. Até mesmo para o governo, que prepara a estréia da “Segurobrás” para 2013.
São milhões de oportunidades de negócios, desde apólices simplificadas para o menor renda até sofisticados clausulados para garantir os riscos do pré-sal. A AIG está interessada em todos eles. Dentro deste escopo de negócios, todos trazem consigo boa chance de uma rentabilidade que chega a ser mais do que o dobro da obtida nos outros 90 países do mundo em que a AIG atua, nos quais tem uma rede de 62 mil funcionários para atender mais de 88 milhões de clientes. Em 2011, por exemplo, o ROE médio das seguradoras de seguros gerais nos Estados Unidos ficou por volta de 8%. No Brasil, acima de 20%.
Alem de ter a sorte de chegar num momento tão favorável ao Brasil, o mexicano Calvo ainda conta com o privilégio de trabalhar numa seguradora que tem uma marca imbatível. Mesmo tendo sido socorrida pelo governo americano, manteve seus clientes fieis a marca. Prova disso foi ter mudado o nome para Chartis, achando que teria problemas para se reerguer, e agora investir mais alguns milhões para relançar a marca AIG.
Realmente é um fenômeno a atuação da AIG. Há na internet centenas de teses de pós graduação a doutorado estudando o caso AIG, do pré-crise ao pós crise. No Brasil, ela era sócia do Unibanco. Uma parceria de sucesso. Uma das mais brilhantes, diziam os analistas. Durou 11 anos. Semana depois da AIG quase ir a bancarrota e ameaçar o sistema financeiro mundial, o banco Itaú comprou o Unibanco. Ou melhor. Foi uma fusão. O anúncio foi feito em 2 de novembro. Vinte e quatro dias depois, a parceira tão bem sucedida entre Unibanco e AIG foi desfeita.
Na época, Hamilton da Silva, presidente da AIG América Latina, afirmou que “a AIG espera continuar sendo uma fornecedora competitiva de serviços e produtos de seguros, tanto no Brasil como na América Latina.” E realmente conseguiu. Prova foi ter reunido pesos pesados da indústria de seguros, inclusive poderosos clientes, na festa em São Paulo. “Muitos acionistas queriam substituir a AIG nos contratos, mas a mantivemos e provamos agora que estávamos certos em acreditar que ela se manteria no mercado”, disse um cliente. Eastwood, chefe de Calvo, disse para a jornalista Carolina Oms, do Valor: “Estamos começando um novo capítulo no Brasil. Ter vendido a joint venture que tínhamos com o Unibanco foi um infortúnio. O país é muito importante para nós”.
Mas o que faz a AIG ser um objeto de desejo para clientes, corretores, seguradoras e atrair tantos talentos? A resposta é uma unanimidade. Quem trabalha com ela afirma que tem bons subscritores de risco, o que traz um conforto e tanto para os resseguradores. Afinal, um risco bem vistoriado traz mais chances de ganho e minimiza discussões futures sobre o que está ou não coberto no contrato.
A agilidade é outro atributo do grupo, segundo seus parceiros. “Enquanto uma concorrente dela está preenchendo o formulário para mandar para a matriz, a AIG já fez um conference call com os especialistas do risco em questão, e já retornou, por SMS, as bases do contrato para o cliente analisar”, conta outro convidado.
A inovação também está entre as virtudes dessa candidata a se tornar gigante novamente. “Eu não só peço coberturas diferenciadas e ela aceita, como os próprios executivos me sugerem garantias que sequer tínhamos pensado”, afirma um executivo que tem vários negócios com o grupo em todo o mundo. Foi a AIG, por exemplo, que trouxe para o Brasil o seguro ambiental e também o Directors & Officers (D&O).
Por essas e outras o grupo é tão querido no mercado de seguros e de resseguros mundial. Tem em carteira muitos contratos e boa parte deles vitais para a liberação de milionários valores por parte dos investidores de financiamentos estruturados. Ter a AIG em um contrato é sinal de que o risco foi analisado e é de boa qualidade, comentam subscritores do Lloyd`s of London, maior mercado de seguros do mundo. Os corretores procuram primeiro ofertar o risco a AIG. Se ela aceita, muitos outros seguem, facilitando a vida do corretor na conclusão da captação de capital para a cobertura do risco.
Mas ser tão querida também traz problemas. O Conselho de Supervisão de Estabilização Financeira (FSOC, na sigla em inglês) estuda considerar a empresa como uma instituição financeira sistemicamente importante, pela lei Dodd-Frank. Isso quer dizer que o grupo será severamente fiscalizado, pois o FSOC considera o nível de alavancagem da empresa, sua exposição extrapatrimonial e a importância da companhia como fonte de liquidez no sistema financeiro dos EUA, além de outros fatores, noticiaram as agências de notícias no mês passado.
Calvo vai enfrentar concorrentes de peso no Brasil. Inclusive Maurice “Hank” Greenberg, ex-presidente da AIG e que era a maior acionista da AIG na época do resgate. Ele sempre esteve de olho no Brasil e agora está de corpo presente. A Starr, da qual é o principal acionista, recebeu autorização da Susep para montar uma subsidiaria no Brasil.
Até nisso Calvo teve sorte. Chegou ao Brasil num momento em que o concorrente é também parceiro, diante da quantidade de riscos vultosos no país, o que faz com que as seguradoras se unirem em co-seguro para dar conta da necessidade de cobertura que o cliente necessita. Do Itaú, por exemplo, que tem a maior operação de seguros de grandes riscos, a AIG continua sendo a fiel parceira de negócios.
Além de atuar em grandes riscos, a AIG partiu para o varejo. Em recente entrevista ao Valor, Calvo informou que a meta do grupo é encerrar 2012 com US$ 300 milhões em receitas, saltando para US$ 1,3 bilhão em cinco anos. Se depender da admiração dos parceiros de negócios e manutenção das virtudes citadas, a cifra chega a ser prá lá de modesta para todos os projetos em andamento no Brasil, que vão do estádio do Corinthians até o seguro de carro online, projeto que retorna 20 anos depois com grandes chances de sucesso.
Bem-vindo a um mercado deslumbrante! Muito mais interessante do que tudo que já viu na Argentina!


















grata pelos alertas. todos corregidos! abs
Bom artigo, mas com erros de atenção.
Não é “Guilherme” Leon, mas “Guillermo”.
América Latina não é país, e não são centenas de contratos, mas centenas de milhões de contratos.
De resto, muito elucidativo.
Denise, parabens pela coluna. Brilhante como sempre.
Aos amigos da AIG, Boa sorte e um grande abraço!
Naga
Muito interessante esta matéria! sobre a trajetória da AIG e a volta da marca antiga.