Seguro que substitui o fiador deve sofrer com inadimplência de aluguéis pelo Covid-19

Até 2019, o produto era vendido como o salvador da patria dos locatários e locadores

Enquanto os executivos da Europa e dos Estados Unidos perdem o sono com discussões judiciais sobre lucro cessantes, o assunto desta semana no Brasil é o seguro fiança locatícia. Apesar das imensas diferenças entre produtos, valores e países, a dúvida é a mesma: as seguradoras vão pagar?

A Superintendência de Seguros Privados (Susep) não se preocupa com lucro cessante, pois pouco se vende aqui no Brasil. Em 2019, as vendas somaram R$ 314 milhões, com R$ 226 milhões retidos em pedidos de indenizações. Poucas companhias atuam neste segmento, como Mapfre, AXA XL, Sompo, Tokio Marine, Porto Seguros e AIG. As seguradoras afirmam que o empresariado brasileiro não tem cultura de comprar cobertura que indeniza a empresa o lucro perdido diante de uma perda coberta pela apólice principal, geralmente por acidentes como incêndio, raio ou explosão. Já os empresários afirmam que o custo desta cobertura é elevado.

Nos Estados Unidos e países da Europa, a cultura de seguros com lucro cessante chega a casa do bilhão de dólares. Tanto que virou o epicentro das entrevistas sobre seguros. A discussão ganhou até um tom de “se obrigarem a pagar por coberturas excluídas no contrato o setor corre um risco sistêmico de insolvência”, afirmou o CEO da Chubb, Evan Greenberg, em recente entrevista para tevês americanas. Já há registro de centenas de processos jurídicos de clientes exigindo o pagamento de lucros cessantes, ou business interruption, nome como é conhecido lá fora.

No Brasil, dois produtos já tiveram soluções simples. O seguro de vida, mesmo com cláusula de exclusão de pandemia, está sendo pago porque assim decidiram primeiro as seguradoras e depois os órgãos reguladores, como Susep, Procons e Senacon. A decisão das seguradoras foi embalada pela compaixão e também tecnicamente. Como as pessoas estão sendo enterradas às pressas, sem o resultado do exame, em qualquer pais do mundo, dificilmente se conseguirá provar a causa da morte. E mesmo que tenha a comprovação de Covid-19, o custo da judicialização e da crise reputacional não compensaria.

Em saúde, o tema tem sido tratado pela Agência Nacional de Saúde (ANS). Também neste caso está tudo caminhando. Uma onda que já começou fora do Brasil é a solicitação do reembolso do seguro de carro, uma vez que as pessoas não estão usando neste período de quarentena e, portanto, o risco não existe. Assim como as seguradoras aumentam o preço quando o risco sobe, os clientes acreditam que a premissa reversa tem de valer para eles. Aqui o debate ainda é superficial.

Já o seguro fiança locatícia e também os títulos de capitalização até fevereiro vendidos como o salvador da pátria das imobiliárias e dos locatários sem fiador estão tirando o sono de alguns poucos executivos. Em 2019, foram vendidos R$ 510 milhões e provisionados para possíveis indenizações R$ 123 milhões em seguro fiança locatícia. Salvo algum engano nos dados da Susep, a Porto Seguro é a grande líder, com R$ 411 milhões em vendas, seguida pela Pottencial Seguros, com R$ 28,4 milhões.

Ninguém quer falar do assunto. Isso porque a inadimplência dos aluguéis cresce a cada dia. E junto com ele, as medidas provisórias em debate no Congresso que visam proteger os inquilinos ganham força. Em live realizada pela CNseg, a confederação das seguradoras, o presidente da Federação Nacional de Títulos de Capitalização (FenaCap), cantou a bola: “Este produto pode vir a ser um problema. Vamos ver como fica”, comentou.  

O setor de Títulos de Capitalização cresceu 13,8% em 2019, acumulando uma receita global de R$ 23,9 bilhões. Os títulos de capitalização da modalidade tradicional continuam sendo o carro-chefe do setor, o garantia de crédito, que substitui a figura do fiador nas transações de aluguel de imóveis foi um dos destaques do ano. Junto com filantropia premiavel, passaram a responder por 12% da arrecadação. No títulos de capitalização, a seguradora, em tese, perde apenas a rentabilidade que teria com o dinheiro aplicado no titulo pelo locatário, que é do locador em caso de problemas do não pagamento do aluguel.

O blog Sonho Seguro procurou o advogado Cássio Amaral, especializado em seguros e sócio do escritório Mattos Filho, e perguntou: isso pode explodir? “Sim, pode”, respondeu. “A maioria não tem cláusula de pandemia. As seguradoras possuem cláusulas que contemplam até exclusão por caso fortuito e força maior. A pandemia é uma força maior, mas será difícil aplicar tal exclusão, tendo em vista que a fiança locatícia é um contrato acessório ao contrato de locação. O que acontece no contrato de locação deve ser respeitado pela fiança”, explicou.

O projeto 1179/2020 está na Câmara e deve ser aprovado em breve.  Ele cria um regime jurídico especial durante o período de calamidade pública (PL 1179/2020). A proposta muda temporariamente regras sobre contratos, direito de família e relações de consumo. Os deputados avaliam agora as propostas de mudança do texto principal. O texto impede, até 30 de outubro de 2020, a concessão de liminares para despejo de inquilinos por atraso no pagamento de aluguel. A suspensão abrange tanto imóveis comerciais quanto os residenciais e atinge todas as ações ajuizadas a partir de 20 de março, data em que foi publicado o decreto que reconheceu o estado de calamidade pública no país.

Boa parte dos contratos de seguro fiança locatícia e também o titulo de capitalização garantia de crédito tem prazo de carência para serem requeridos pelo beneficiário da apólice. Geralmente três meses. A briga jurídica entre locatários e inquilino pode se arrastar. Mas o apelo de venda do seguro é que o produto cobre as perdas enquanto o jurídico resolve quem é que tem razão. Sendo assim, temos aqui mais um desafio para os executivos do mercado de seguros se debruçarem.

A Susep informou que já solicitou às seguradoras dados específicos sobre sinistros relacionados à pandemia de Covid-19, que serão enviados periodicamente enquanto perdurar o estado de calamidade pública. Os primeiros dados começaram a ser recebidos no início de maio e possibilitarão o acompanhamento do nível de cobertura do setor. “A Susep mantém a sua atividade de acompanhamento do mercado supervisionado. Esta atuação permite à autarquia a adoção de novas medidas que julgar necessárias para assegurar a estabilidade do setor e um adequado atendimento aos consumidores”, informou.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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