por Marcelo Blay, CEO da Minuto Seguros, único brasileiro da fazer palestra no evento InsurTech Connect (ITC), em Las Vegas, em outubro
Um mês se passou desde que voltei da maior convenção de seguros e tecnologia do mundo, InsurTech Connect (ITC). Foi uma experiência enriquecedora compor um painel de debates onde comparamos os mercados brasileiro, indiano e americano, além de ter sido uma grande honra ser o primeiro brasileiro a participar como palestrante. Entretanto, foram as informações colhidas em mais de 20 palestras e inúmeros encontros profissionais durante a convenção que me indicaram quatro reflexões sobre o futuro e o impacto das insurtechs no mercado de seguros. São elas:
1) Insurtechs entraram de vez no radar de grandes investidores
O surgimento dos primeiros “unicórnios” no mercado de seguros foi destaque logo na apresentação de abertura da ITC. “Unicórnio” é o jargão usado no Vale do Silício para nomear as empresas de tecnologia que atingem um valor de mercado acima de US$ 1 bilhão. Entrar neste radar não é pouca coisa. Trata-se de um indicativo claro de que gente muito grande e capitalizada descobriu que um dos melhores atalhos para atingir o estágio de transformação digital é através de aquisições e parcerias com as insurtechs.
O curioso, entretanto, é que estes grandes investidores têm se revelado velhos conhecidos: são as próprias seguradoras existentes e estabelecidas, as resseguradoras, os fundos de pensão, os fundos soberanos e fundos de private equity. Mesmo assim, é para ficar de olho.
2) As insurtechs deixaram de ser percebidas como ameaça
Passou o medo de 3 anos atrás. Foi um alento notar que as insurtechs são cada vez mais percebidas como catalisadoras da transformação da indústria de seguros.
Um exemplo disso foi apresentado pela States Title, uma insurtech de apenas 24 funcionários que adquiriu North American Title Insurance Company (NATIC), uma companhia de seguros estabelecida. A aquisição ocorreu após a NATIC concluir que não tinha as habilidades necessárias para fazer uma transformação digital capaz de potencializar seus resultados. Detalhe: a NATIC tem 14 mil funcionários.
Outro caso interessante foi mostrado pela Travelers. A seguradora tinha o objetivo de reduzir a percepção do tempo de liberação de pagamento de sinistro de colisão parcial. Na percepção das seguradoras, o processo levava 10 dias; na dos segurados, 30 dias! Para rever seus processos e desenvolver novas soluções mais transparentes para os clientes, investiram em tecnologia. O resultado: a percepção do prazo caiu pra zero.
Que bom que exemplos reais como estes, de empresas que alcançaram grande sucesso ao apostar em tecnologia e insurtechspara buscar inovação em seus modelos de negócios, foram muito comuns nesta ITC. Dá segurança de que estamos num caminho certo e inevitável.
3) A disrupção no mercado de seguros ainda não aconteceu
Uma das provocações que achei mais interessantes na ITC 2019 foi feita por Glenn Shapiro, da Allstate. Em sua excelente apresentação ele ilustrou que mesmo com a aplicação de tecnologia de ponta, grandes mudanças não são impossíveis – mas estão longe de serem fáceis. Há alguns obstáculos apontados por ele, como a grande necessidade de capital para atender os preceitos atuariais, a natureza dos riscos que cobrimos com nossas ofertas, a complexidade inerente à indústria (subscrição de riscos, sinistros, serviços acoplados às apólices, fraudes, etc.) e as exigências regulatórias.
A estes pontos acrescento que, apesar da expectativa do mercado, aspectos atemporais do seguro como a integridade, a transparência e a confiança não sofrerão mudanças na transição do ambiente analógico para o digital. Por isso, ainda resta a dúvida: como será a grande disrupção no mercado de seguros?
4) Google e Microsoft podem concorrer com seguradoras – ou não!
Os ataques cibernéticos são um dos riscos mais característicos do século XXI e o sinistro de maior preocupação na convenção. A expectativa das empresas em relação a ciberataques não é apenas receber o dinheiro da indenização, mas ter alguém que ajude-as a recolocar a empresa em funcionamento de novo, bem como traga sugestões de como fazer para que o problema não volte a acontecer. Foi uma surpresa ouvir as gigantes da tecnologia Google e Microsoft, que poderiam atuar diretamente neste mercado, negar que isto esteja em seus planos.
Igualmente curioso foi ouvir na palestra seguinte, de Richie Whitt, CEO da Markel Insurance Company, uma grande seguradora americana: “Não acreditem no que eles (Microsoft e Google) acabaram de falar…”. Fiquei com a pulga atrás da orelha.
E o Brasil?
Refletindo sobre estas constatações que trouxe da ITC, pude concluir que o potencial de crescimento para o mercado de seguros no Brasil é maior que eu imaginava. Ainda que nosso mercado esteja em um estágio de desenvolvimento diferente do resto do mundo, está claro que as insurtechs podem ser importantes agentes da transformação necessária para que consigamos capturar inúmeras oportunidades.



















Acompanhar o relatório anual do Marcelo se tornou um hábito compensador.
Além de resumir o evento seus comentários são preciosos.
Obrigado Marcelo por mais este relato.
Abs Moshe