ARTIGO: Medo do futuro nos impede de avançarmos mais depressa

Por Nuno David, diretor de Marketing da Mongeral Aegon

Estive no Singularity University Global Summit 2018 e gostaria de fazer algumas considerações:

1) IA e Bockchain se propagando por todo o tipo de processo e operação. O que era uma tendência há apenas quatro anos, já se concretizou numa realidade transversal a todo o tipo de segmento e indústria. Muitos exemplos de sucesso foram apresentados e muitos mais estão em implantação em todo o mundo;

2) A “nova saúde” está rapidamente assumindo o papel de disruptora da “antiga saúde”. A genética, a biomedicina, a medicina laboratorial (preventiva) está se configurando como a complementação (inicialmente) e, eventualmente, a substituição (a médio prazo) da “saúde tradicional” (essencialmente reativa). Este desenvolvimento vai fazer a disrupção progressiva da indústria tradicional da saúde (num prazo não maior do que dez anos – “amanhã”, para qualquer gestor minimamente responsável…) e resta saber como os operadores de mercado vão reagir a este movimento de desmonetização de um dos maiores mercados de seguro do mundo. C.R.I.S.P.R. 2.0 está chegando e a edição genética se apresenta ao mesmo tempo como uma oportunidade extraordinária e um enorme desafio ético e de negócio. Fazer de conta que isso não está acontecendo pode ser compreendido apenas num contexto de medo e de rejeição do óbvio…

3) O futuro do trabalho e o futuro do aprendizado foram questões transversais ao longo dos três dias. Mais do que aprender coisas novas, o atual nível de disrupção nos está obrigando a “aprender a desaprender”. Não se trata apenas de aprender coisas novas, mas de realmente “jogar fora” coisas que aprendemos no passado e que simplesmente já não se aplicam na nossa realidade atual e futura. Isso é algo inédito para a história do ensino, em que o aprendizado dos conceitos deixa (em parte) de ser incremental para passar a ser substitutivo.

Outros temas estiveram também muito presentes ao longo dos três dias:
O Facebook foi muito criticado, por muita gente. A incapacidade de conseguir atuar de forma construtiva e positiva na vida das pessoas e de se remeter na maior parte do tempo ao papel de “imprensa cor de rosa” da internet foi consecutivamente discutido. O efeito que teve nos conflitos éticos de Myanmar e a maneira como a instituição não conseguiu, até hoje, responder a isso de forma satisfatória, foram igualmente muito criticados.

A lei europeia de proteção de dados pessoais implementada recentemente pela União Europeia foi também protagonista em muitas apresentações. Ficou claro que a União Europeia tomou a dianteira e se transformou na referência de uma potencial revolução na forma como as grandes plataformas de dados (Facebook, Google, etc) poderão tratar os dados dos indivíduos. São os Estados tentando retomar um poder (para o bem e para o mal…) que já foi de sua total propriedade e que agora tentam voltar a controlar (ou, no mínimo, a co-controlar). Nota para a China que, devido ao regime vigente e à compreensão prematura que teve do poder destas novas tecnologias, se antecipou e já moldou uma arquitetura em que é o Estado a garantir o controle e manipulação dos dados. Assustador…

A tecnologia sendo apresentada essencialmente como um “enabler” (um “possibilitador”, numa tradução para lá de livre…) de novos modelos operacionais e de negócio e não como um fim em si mesma. A ênfase movida para a criatividade, algo que nenhuma máquina (ainda…?) consegue fazer tão bem como os humanos…

As moedas virtuais estão se assumindo cada vez mais como um futuro garantidor das liberdades democráticas. As garantias que podem oferecer de descentralização do poder e do controle económico e financeiro do mundo, podem ser um dos principais instrumentos de liberdade futura. Mas esta é com certeza uma das maiores lutas que as tecnologias disruptivas terão que fazer nos próximos anos: esta tese enfrenta o maior lobby do mundo: o mundo financeiro…

Após três presenças na SU, não tens mais aquele efeito de “murro no estômago” que a primeira vez proporciona, nem o efeito de credibilização que a segunda presença oferece (quando vês muitas coisas que tinham sido apresentadas como tendência, se concretizarem como realidade efetiva e implementada). Compreendido isso, a SU se afirma como o mais poderoso e democrático (tudo e o oposto de tudo é discutido ao longo destes três dias) thinktank (prático, concreto, tangível) mundial de inovação em tecnologias disruptivas e exponenciais.

Ainda assim, alguns momentos únicos seguem te sendo proporcionados, como quando vês uma palestra que faz a apresentação mundial de uma vacina para curar o Alzheimer e entendes que estás assistindo a um momento especial da história da medicina ou quando assistes a uma palestra antológica do David Roberts explicando que a principal causa para que não avancemos mais depressa é…: o medo que temos do futuro.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Ouça nosso podcast

ARTIGOS RELACIONADOS