Improve. Essa palavra em inglês, que significa melhorar, aperfeiçoar, modernizar, foi o tema do evento, que reuniu dois encontros tradicionalmente promovidos pela Zurich Seguros para clientes, corretores e parceiros de negócios no dia 14 agosto. “Vamos discutir o Brasil que queremos para o futuro”, disse Edson Franco, CEO da Zurich no país, aos 180 convidados presentes, ao lado de Gláucia Smithson, diretora executiva de seguros empresariais, vida, corporativo e previdência e da Zurich Re, que coordenou a organização do evento.
Em um formato dinâmico e moderno, com palco no meio e que se transformou em três para a apresentação das palestras simultâneas, o evento enfatizou temas que podem definir o rumo do país e de todos que aqui vivem: eleições, reforma da previdência e riscos corporativos. “A nossa proposta era promover um evento transformador e esse propósito foi alcançado com sucesso em um dia extremamente produtivo e rico em conteúdo e conhecimento. Temos que mudar o nosso olhar em relação aos desafios diários, sempre buscando novas formas de evoluir, inovar e solucionar. E foi com esse pensamento que levamos o IMPROVE ao mercado segurador”, disse Glaucia aos presentes, passando a palavra para o primeiro palestrante do dia.
O economista Mailson da Nobrega abriu o debate. “Qualquer candidato que ganhar as eleições terá de fazer a reforma da previdência”, afirmou ele. Essa foi praticamente a única afirmação categórica feita pelo sócio da consultoria Tendência. Ele apresentou pesquisas e dados para que os ouvintes pudessem tirar suas próprias conclusões sobre quem será escolhido pelo povo para ocupar o cargo de presidente do Brasil nas eleições em outubro e novembro, se houver segundo turno.

Segundo Mailson, grandes ciclos de mudanças no país ocorreram com a conjugação de ideias do que fazer, apoio para essas ideias e liderança para mobilizar o Congresso para aprovar as reformas. “Temos dois exemplos de presidentes que fizeram a lição de casa e proporcionaram crescimento da economia. Castello Branco criou o Banco Central e fez a reforma tarifária e administrativa para citar apenas dois pontos. O segundo período de crescimento veio com Fernando Henrique Cardoso, com as privatizações e a lei de responsabilidade fiscal entre outras tantas ações”, afirmou.
Segundo ele, o país passa por um momento semelhante ao do período dos dois presidentes citados, eleitos em momentos em que era fundamental ter jogo de cintura para aprovar reformas nem sempre populares. “O novo presidente terá de fazer as reformas da previdência, tributária, e do Estado. Em infraestrutura já está tudo pronto. Temos bons projetos, apetite dos investidores. O que precisamos é de um líder com inteligência emocional que saiba negociar com os parlamentares que formam o Congresso Nacional, que na minha opinião terá uma renovação próxima de zero”, disse.
Na opinião de Maílson, o candidato Geraldo Alckmin tem a maior chance entre os concorrentes por ter o maior tempo para campanha eleitoral em tevê. São quase 6 minutos, o que lhe dá grande vantagem de convencer a população brasileira, que ainda tem os meios tradicionais para decidir seus votos, comentou ele citando pesquisas, como da CNI/Ibope. “Apenas 5% dos entrevistados disseram usar as mídias sociais para obter informações dos candidatos”, citou. “E 30% escolhem o candidato na última semana”.
Ou seja, o nome do futuro presidente do Brasil é uma grande incógnita ainda, fazendo com que a economia fica estagnada diante da insegurança política. Mas a urgência da reforma da Previdência Social soa como um mantra no programa apresentado pelos pré-candidatos, com exceção do Partido dos Trabalhadores, que acredita não ser um problema urgente por se tratar apenas de realocação de recursos e não de cortes de gastos.
Segundo dados apresentados por Edson Franco, a urgência da reforma da Previdência vem de dados bons da transição demográfica, como o aumento da expectativa de vida, de 76,4 anos em 1960 para 85,2 anos em 2060, bem como pela queda na taxa da mortalidade. Mas esses dados têm um impacto econômico negativo. Em 1960, o Brasil tinha 5% da população com pessoas acima de 60 anos. A perspectiva é de que em 2060 esse percentual salte para 32%. Isso significa dizer que oito pessoas terão de trabalhar para garantir a aposentadoria de um inativo. Em 2060, serão dois ativos para cada inativo, considerando-se também a queda da taxa de fecundidade do Brasil que já está no mesmo nível de países europeus: abaixo de 2%.
Ele enfatizou que as contas atuais e as futuras ponderadas com tais estatísticas tornam o desafio dos próximos presidentes muito mais desafiador, uma vez que o Brasil é hoje um país jovem mas com gastos elevados. O déficit total da previdência social foi de R$ 268 bilhões em 2017. ”Gastamos muito com seguridade social antes de envelhecer. Acreditamos que a reforma deve ser feita antes que o Brasil sofra como outros países que protelaram as mudanças necessárias. Em Portugal, por exemplo, foram feitos cortes nos benefícios para tentar equilibrar as contas do governo”.

Para Franco, uma reforma é urgente e necessária, considerando o aumento da idade mínima, limitação de acumulação de benefícios e unificação das regras de aposentadoria para servidores públicos. Ele afirma que a reforma paramétrica, apesar de ser o primeiro passo para corrigir o caminho de solução, não é suficiente. “Precisamos de uma reforma estrutural para corrigir o modelo de repartição. O único modelo que funciona é ter uma base mínima para assegurar que os mais pobres vivam acima da linha da miséria, mas também tem de ter um pilar individual”.
Ele sugere um modelo que contemple quatro pilares e que não se assemelha ao modelo chileno, ressalta. Uma renda básica universal, menor do que o salário mínimo atual por pessoa. O segundo pilar seria similar ao INSS, para complementar a renda básica. O terceiro pilar consideraria uma renda calculada entre contribuição e benefício e o quarto pilar seria basicamente o que se tem hoje com a previdência complementar.
“É preciso que o tema seja debatido com simplicidade e transparência. Um debate apartidário, pois não é uma gestão de governo e sim de Estado”, afirmou ele, que também preside a Federação Nacional das Empresas de Previdência Aberta (FenaPrevi), que prepara um estudo completo com o professor Hélio Zylberstajn para entregar ao novo presidente no início de 2019.
Depois de abordar riscos políticos e impactos econômicos, a programação do evento partiu para discussões mais específicas, sobre como transformar riscos em oportunidades, tendo como pano de fundo as consequências da revolução tecnológica, como a automatização das fábricas, os ataques cibernéticos e a necessidade de proteção para destravar os investimentos em infraestrutura.
A palestra Fábricas Inteligentes, novos riscos e soluções inovadoras, proferia pelo engenheiro de riscos Thiago Santana, fez um alertou aos convidados da Zurich sobre as mudanças nos riscos que a tecnologia traz, bem como para os novos riscos que precisam ser avaliados pelos gestores. “Ao mesmo tempo em que robôs trazem mais assertividade e redução de custos aos processos, eles tornam o risco mais complexo”, afirmou.
Como exemplo, Santana citou a interdependência da linha de produção enxuta de canais de suprimentos diversos para alimentar fábricas sem estoques, bem como a vulnerabilidade e potencial de grandes impactos na interrupção de negócios. “Tudo isso sugere um cenário de risco de baixa probabilidade, porém de alta severidade. Certamente a demanda por proteção de dados, possivelmente armazenados em nuvem, será maior. Também demandará maior gestão para determinar a responsabilidade de perdas ocorridas, uma vez que é grande o cruzamento de prestadores de serviços na automatização de uma fábrica, com diversas apólices e seguradoras”.
Coube ao espanhol Roberto Hernandez, responsável pela área de gerenciamento de pagamentos de indenizações (sinistro), falar sobre riscos emergentes dos seguros de linhas financeiras, como seguro garantia, responsabilidade civil de executivos, mais conhecido como D&O (Directors & Officers) e seguro cibernéticos. “Tivemos sinistros interessantes nos últimos anos no Brasil, que nos ajudaram a entender melhor o produto”.
Até então, os riscos tradicionais contemplavam a fraude contável, a manipulação do mercado, a responsabilidade do corpo diretivo, a aplicação de multas, subsidiárias versus controladas e os acordos de leniência. Já os riscos emergentes precisam levar em conta a nova lei de proteção de dados, praticas trabalhistas indevidas, criptomoedas, adiantamento de custos de defesa, delação premiada entre outros.
Segundo ele, a nova lei de proteção de dados é benéfica, além de ser uma exigência da OCDE, organização que ajuda países como o Brasil a conseguir empréstimos subsidiados para projetos de infraestrutura, vitais para sustentar o crescimento do Brasil no longo prazo. “Mas ela traz desafios às corporações, que tem uma responsabilidade objetiva do dano, obrigação legal de notificar terceiros prejudicados por um vazamento de dados, levantamento dos danos causados entre tantos outras ações”, disse ele aos gestores de riscos corporativos, que já tem esse tema como prioritário no dia a dia profissional.
Sergio Luiz Hilgert, da corretora EuroAmerica, comentou que um dos problemas do D&O é a subscrição de riscos. “É preciso fazer a lição de casa e entender bem quais são os riscos, as coberturas e as exclusões, pois de nada adianta pagar um valor pequeno pelo seguro que vai resultar em discussões infindáveis em caso de ser preciso acionar a apólice”. Já o fundador da Clamapi Seguro de Riscos Cibernéticos, Claudio Macedo Pinto, a discussão sobre ataques cibernéticos deve avançar a medida em que os “estragos são feitos”. Segundo ele, vários clientes que visita protelam a compra da apólice de seguro. “Mas quando tem um ataque voltam a ligar para entender melhor o risco e o produto. E isso ajuda a aumentar a consciência empresarial sobre riscos e o que o mercado segurador tem a oferecer”.

Para encerrar o evento, o jornalista Arnaldo Jabor fez a plateia rir de suas considerações sobre o cenário de corrupção do Brasil desde a proclamação da República até os dias atuais. “Temos a percepção de que pessoas honestas são pobres e os ricos são corruptos. Mas depois da Lava Jato, as ideias não correspondem mais aos fatos. Estamos vivendo uma mutação, que nos fará diferente e não sabemos como, o que torna o dia a dia muito interessante. Não somos mais o país do futuro e sim do presente. Tenho a impressão que talvez haja campo para a modernização prevalecer, pois a globalização nos tornou mais transparentes – o Google sabe mais de mim do que eu mesmo – e vulneráveis ao que acontece em outros países, como na Turquia, por exemplo. E tudo isso tem sido um boa experiência, que certamente nos levará a ser um país mais democrático”, finalizou.


















