ARTIGO: Em ano de Copa, a história do seguro para atletas que não vingou no Brasil

Escrito por Marcelo Gama, diretor técnico de Non Marine da JLT Resseguros. O executivo se dedica ao mercado segurador há 20 anos

 

No fim dos anos 1990 com as expectativas para, finalmente, acontecer a tão sonhada abertura do mercado ressegurador brasileiro, havia uma notável movimentação de interessados internacionais em ocupar um espaço no novo mercado que se imaginava atingir um volume de prêmio de US$ 3 bilhões.

Uma verdadeira ponte aérea entre Europa e Brasil se formou, com resseguradores viajando para aprofundarem os conhecimentos sobre o nosso mercado. Grandes companhias demonstraram interesse de se estabelecer como “ressegurador local”, para usufruir do Direito de Recusa (“First Refusal Right”) que, naquele primeiro momento, seria de 60% de cada oferta.

Nesse cenário, embarquei rumo a Londres e fui procurar um broker inglês que ainda não tivesse uma representação por aqui. Naquele magnífico mercado, me deparei com algumas soluções de seguro que nunca tinha visto, tais como stock throughput, environmental impairment liability, port operators, solvency margin surplus relief, motorway PD & BI, dread disease, decennial insurance, entre outros.

Um deles me despertou grande interesse: o sports PA (personal accident) – o seguro para atletas. As alternativas de coberturas são muito interessantes, podendo proteger não só o atleta, em caso de invalidez prematura, como sua família, o clube ou o empresário, em caso de morte. Nos apressamos e traduzimos os termos e condições do seguro e promovemos palestras no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre.

Em 2001, chegamos a implantar uma facility através do IRB que retrocedia 100% para um consórcio de sindicatos do Lloyd’s of London, liderado pelo Mum (Syndicate nº 9264), e que foi renovada por quatro anos seguidos, porém sem qualquer risco declarado. Todavia, existia um notável interesse das federações paulista e carioca em oferecer essa cobertura aos clubes.

Um underwriter britânico esteve no Rio onde visitamos alguns clubes e, depois, a Federação Paulista. Um fato interessante ocorreu na ida ao Fluminense, quando fomos levados à sala de troféus onde tem uma foto mostrando a visita dos nobres ingleses Edward e George (que depois tornou-se George VI, rei da Inglaterra) e que são presidente e vice-presidente de honra do tricolor carioca.

Depois de muitas tentativas, divulgação para a imprensa e uma entrevista na TV, foram apresentadas cotações para vários atletas individualmente e para os clubes coletivamente. Algumas rodadas de negociações depois, a Susep (Superintendência

de Seguros Privados) exigiu que a seguradora apresentasse a sua experiência histórica e atuarial sobre o seguro que estava tentando a aprovação para comercializar no país, o que logicamente não foi possível e emperrou todo o processo. Logo, o consórcio do Lloyd’s declinou de continuar dando suporte à facility e o sonho acabou!

Este tipo de seguro é extremamente difundido nos países europeus e norte-americanos. O futebol moderno envolve cifras multimilionárias e, alguns super jogadores manipulam valores praticamente inseguráveis que, às vezes, impõe a adoção de limites que podem ser considerados insatisfatórios.

Recentemente um importante jogador de um time brasileiro, foi diagnosticado com uma doença grave que vai afastá-lo dos campos por longo período. O clube, além de suportar as elevadas despesas com o tratamento, vai continuar pagando o salário. O seguro cobriria essas despesas, até o limite do valor. Isso sem falar das rotineiras contusões cujos os gastos de recuperação podem ser cobertas por uma apólice.

Há uma atraente lacuna a ser explorada. Um novo esforço coletivo poderia ser realizado para trazer para cá essa importante proteção. É primordial desenvolver uma estratégia para a preparação das notas técnicas e atuariais, em conjunto com uma ou mais companhias interessadas, e obter finalmente a aprovação da Susep.

 

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

1 COMENTÁRIO

  1. Tenho a honra de conhecer Marcelo Gama há mais de 40 anos como um dos mais gabaritados técnicos de seguros do Brasil,portanto agradeço a respectiva correção.Em resseguros talvez 20 mas em Seguro há mais de 50 por certo.Parabens Marcelo.Vai chegar aos 100 batalhando por um mercado de Resseguros no Brasil à semelhança do de Londres.

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