Inovar e combater cooperativas dominaram os discursos na abertura do 20º Congresso Fenacor

Um verdadeiro clima da caça as bruxas marcou a abertura do 20º Congresso Brasileiro de Corretores de Seguros, que acontece em Goiânia entre 12 e 14 de outubro. Lucas Vergílio, corretor e deputado federal, pediu o apoio de todos na luta contra o que o segmento chama de aventureiros, referindo-se às cooperativas que vendem proteção veicular e que começam a ofertar outros produtos do segmento patrimonial. “Convoco todos para a audiência pública do PL 3139/2015, no próximo dia 24 de outubro. Esse projeto visa banir do mercado esses aventureiros”.

O ministro do Planejamento, Dyogo Henrique de Oliveira, Armando Vergilio, presidente da Fenacor, Joaquim Mendanha, superintendente da Superintendência de Seguros Privados (Susep), e Marcio Coriolano, presidente da Confederação das Seguradoras (CNseg), se referiram às cooperativas que têm conquistado cada dia mais clientes que buscam proteção por um preço mais acessível, no mesmo tom. Oliveira, do Planejamento, disse que o setor pode contar com o apoio do governo para regulamentar as cooperativas de proteção veicular. Segundo ele, é um produto que não cumpre requisitos regulatórios e por isso o projeto liderado pelo deputado Lucas Vergílio terá o apoio do governo para que tenha um trâmite rápido.

“Um órgão supervisor forte preza pela eficiência do setor, atuando como agente de fomento e de combate ao mercado marginal”, pontua o titular da Susep, que criou grupo de trabalho sobre o mercado marginal que será constituído pela autarquia até o dia 30 de outubro. O grupo será formado por representantes do Governo, por meio da própria Susep e da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda; de entidades e instituições representativas do setor de seguros, como a CNseg, a Fenacor e a Escola Nacional de Seguros; e da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). No âmbito da Procuradoria Federal junto à Susep, há cerca de 180 ações civis públicas, nas quais a Susep é a autora principal, mas há também outras ações movidas pelo Ministério Público Federal (MPF).

Apesar do apoio de todos ao combate da venda de proteção veicular, que parece um seguro mas não é, todos reconhecem que as associações acabam vendendo proteção para riscos que as seguradoras rejeitam ou cobram um preço elevado, como carros com mais de 5 anos de uso. Também vale lembrar que as seguradoras não estão aceitando fazer seguro de veículos de várias regiões do Rio de Janeiro e praticamente nenhuma mais atua com seguro transporte no Estado, o que abre ainda mais espaço para as cooperativas.

Um comentário muito repetido entre os profissionais do setor é que a falta de ousadia das seguradoras em criar produtos inovadores fez com que esse mercado paralelo crescesse na última década. “Eles criaram o ‘Frankstein’ e agora querem matá-lo. Só que ele está enorme e com tentáculos em vários nichos e Estados”, disse um dos corretores mais influentes do setor. “Logo, do jeito que os corretores estão sofrendo com o corte no seguro feito por seus clientes com orçamento apertado, bem como pela negativa das seguradoras para várias propostas, os próprios corretores vão acabar se rendendo aos produtos mais baratos das cooperativas”.

Vergilio cobrou das seguradoras soluções arrojadas e modernas. “A falta de produtos trouxe a explosão das empresas de cooperativas do mercado marginal de proteção veicular. Para agravar ainda mais, a tecnologia permitiu novos competidores que não são seguradoras avançar em outros nichos, como ramos elementares. Temos de refletir sobre esses pontos.

Uma das formas de combater as cooperativas seria melhorar a regulamentação do seguro popular de automóvel e assim atrair mais concorrentes para esse nicho que conta com menos de meia dúzia de seguradoras. “Em 20 dias vamos apresentar a solução do auto popular para que mais concorrentes possam ofertar o produto. Tenho certeza que ele será uma ferramenta importante no combate ao mercado marginal que vem há anos se expandindo. Ele cresceu porque o próprio setor deixou ele avançar”, afirmou Mendanha.

Armando Vergilio, presidente da Fenacor, concorda: “Esse quadro só mudará com uma aliança forte e verdadeira de todas as instituições do setor. Com ações sinergias, sensibilizando governo e reguladores.

Com o tema “O Seguro na Era Digital”, o congresso tem o desafio de unir os corretores em torno de um tema comum: a necessidade de mudança de paradigmas na venda de seguros diante da revolução tecnológica que transformou o mundo e criou a economia digital. Vergilio também fez críticas relevantes às seguradoras. “É importante considerar seus produtos obsoletos antes que os outros o façam. Queremos buscar soluções inovadores que respeitem regras e direitos. Não é só uma mudança de paradigma e sim de mentalidade”, afirmou.

“O objetivo deste evento sair da zona de conforto e ir em busca do caminho da inovação”, disse o líder dos corretores. “Falta ousadia ao mercado para que ele possa responder as necessidades do consumidor final”, concordou Joaquim Mendanha, titular da Susep.

O presidente da Fenacor, que é candidato a reeleição da federação dos corretores na eleição prevista para o primeiro trimestre de 2018, por mais três anos, diz que agora que a economia dá sinais de recuperação, a inflação está sob controle, juros em queda, investidores estrangeiros voltam a acreditar no país e há uma singela retomada do emprego, é preciso pensar na reforma da previdência para retomar a trilha do crescimento e do desenvolvimento, segundo ele.

“E o mercado de seguros? O setor continua aumentando de tamanho e há muito espaço para crescer, principalmente nas classes C e D, bem como nas classes A e B, segmentos que tem seguros ainda abaixo do esperado considerando os países desenvolvidos. O setor tem crescido mas não tem evoluído. O setor tem seus desafios. E não são poucos. A crise de DPVAT, de lideranças e de o governo colocar o setor em sua agenda. Temos tentado vencer esses desafios”, diz Armando Vergilio.

E qual o papel do corretor? Precisamos mostrar o nosso maior valor. Somos gente que cuida de gente. Entramos numa nova fase com a tecnologia. Temos de nos reinventar. Não podemos ser só um intermediário. Nossa missão é proteger o segurador e a seguradora. Nos mediamos, nos evitamos fraude, mitigamos a judicialização e protegemos o cliente. Temos de ser protagonista desta mudança”, conclama o presidente da Fenacor.”Temos de ser necessários aos clientes. Agregar valor. Temos de ser mais reconhecidos pelos seguradores.”

E para finalizar, Vergilio fez um alerta. “Essa é uma nova era. Eembora marcada pela tecnologia, não cometam o erro de desprezar o corretor como o mais importante canal de distribuição de produtos. Temos um estudo que mostra que o cliente não quer auto-serviço. O consumidor não quer abrir mão do consultor de seguros para ajudá-lo a encontrar a melhor cobertura. Vamos nos valorizar. Não vamos mais perder tempo com quem vive nos desprezando. Vamos prestigiar quem nos respeita”, disse Vergilio, o que foi entendido pela plateia como uma critica velada a um grande grupo segurador que em entrevista recente fez criticas negativas ao corretor, de acordo com o entendimento da categoria profissional.

Marcio Coriolano , presidente da CNseg, afirmou que a confederação que representa as seguradoras está obcecada por lapidar as bases do setor diante da revolução tecnológica que o mundo vive e assim seguir promovendo um crescimento resiliente e sustentado do país. “Agradecemos o empenho de Armando Vergilio na construção de uma agenda comum produtiva para todo o setor e a Joaquim Mendanha com uma regulação efetiva do setor”.

Coriolano enfatizou que a CNseg quer estar na agenda política do Brasil. “Temos o direito de requerer o direito de um assento no Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP). Quero que o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, aqui presente, leve esse nosso pedido ao governo. Queremos propor um conjunto articulado de medidas para que o setor possa dar maior suporte ao crescimento do Brasil”.

O presidente da CNseg citou uma ampla agenda, como a privatização do seguro de trabalho, um sistema que sofre de diversas deficiências; o destravamento de regras para Universal Life e também aprovação para a oferta de novos produtos do tipo VGBL. “Além da aprovação das regras para o seguro de garantias de obras e do PrevSaúde para que o consumidor tenha um produto financeiro para apoia-lo no envelhecimento. Também estamos em busca de uma melhora no seguro rural para acompanhar o desenvolvimento do grande carro chefe do crescimento do PIB, que é a agroindústria. O microsseguro está na lista da CNseg, bem como a livre escolha da oficina referenciada para destravar o seguro popular de automóvel”, acrescentou.

Para finalizar, Coriolano citou a tecnologia. “Longe de representar ameaça, a tecnologia veio para agregar valor a todos, principalmente aos corretores. A tecnologia é um meio para facilitar a vida do corretor, que é o único profissional habilitado para fazer esse elo entre seguradoras e consumidores”. Foi muito aplaudido ao dizer isso.

E o mesmo foi dito por todos na mesa. “Não temos de ter medo da inovação. O corretor de seguros sempre será a pessoa que faz a ligação entre as seguradoras e o consumidor por prestar um serviço diferenciado”, frisou Henderson de Paula Rodrigues, presidente do Sincor-GO.

Os ministros presentes, do Planejamento, Dyogo Henrique de Oliveira, e do Trabalho, Ronaldo de Oliveira, ressaltaram as ações “corajosas” do presidente Michel Temer em promover mudanças, como a reforma Trabalhista. “O país saiu da pior crise da sua história e agora vamos entrar em um período de crescimento prolongado e sustentado, pois estamos criando bases sólidas, fundamentadas em reformas estruturais, melhoria do ambiente de negócios, gestão pública com concessões e PPPs, bem como o aperfeiçoamento do marco regulatório“, citou Oliveira.

Segundo ele, o resultado é a projeção do crescimento do PIB para 2018 acima de 2%, “puxado por diversos segmentos, como a indústria automotiva com os investimentos anunciados nesta semana”. A inflação, disse, vai continuar baixa e isso permite a queda dos juros. “A projeção de juro real é de queda para 3% e isso abre espaço para investimento que gerará um ciclo de crescimento sustentado”, diz Oliveira.

Outro indicador ressaltado pelo ministro foi a queda do endividamento das famílias de 46% para 41%, que segundo ele abre espaço para retomar o consumo e o crédito. “Vale citar os US$ 80 bilhões em investimento estrangeiros neste ano. Isso é uma grande mensagem de confiança do investidor estrangeiro no Brasil”.

E o mercado de seguros tem acompanhado esse crescimento, frisou Oliveira, citando que o setor tem crescido mais do que o PIB na última década e só vai continuar crescendo com o avanço da economia. “Mas há enormes desafios a serem superados. O principal deles é nos entender com a tecnologia. Aqueles que não perceberem que estão obsoletos serão os primeiros a serem eliminados. Temos de utilizar a tecnologia a favor do crescimento.”

Ele citou também a necessidade de regulamentar o seguro de garantias de obras. “Estamos trabalhando para ter uma legislação mais eficiente e ágil para dar garantia ao que é construído com dinheiro da população”. Por fim, o ministro citou que o equilíbrio das contas públicas passa pela reforma da Previdência. “A garantia da sustentabilidade da previdência assegura o ajuste fiscal e a sustentabilidade das contas públicas no longo prazo. Temos de corrigir as injustiças que são cometidas na previdência”, frisou.

Ele lembrou que o governo gasta 57% do orçamento federal para pagar aposentadoria. “Temos de mudar a previdência para garantir o direito dos aposentados. Se não tiver a reforma, vamos ter um problema parecido com o que estamos vendo em alguns Estados. Estamos 20 anos atrasados nesta reforma”, disse ele, citando que o Japão, por exemplo, gasta menos de 25% do orçamento com a previdência.”

Robert Bittar, presidente da Escola Nacional de Seguros, usou o seu tempo para ressaltar o importante papel que a Escola vem empreendendo para desenvolver profissionais capacitados para setor. Ele comemorou ainda o fato da Escola Nacional de Seguros ter garantido exercer a modalidade de pós-graduação a distância, devido às boas notas atribuídas à instituição. “A Escola quer continuar protagonizando o crescimento do setor, inclusive na mudança tecnológica”, ressaltou. “Inclusive temos um corpo docente preparado para ajudar a profissionalizar pessoas frente à essa revolução tecnológica que vivenciamos e tende ainda a ser mais disruptiva do que vimos até agora. Para seguirmos neste propósito, precisamos contar com o apoio de todas as instituições do mercado no apoio de desenvolvimento do setor, não somente da CNseg e federações.”

Marconi Perillo, governador de Goiás, ressaltou que o governo federal precisa apresentar melhor ao pais a necessidade da reforma da Previdência, afirmando que o estado que administra fechará o ano com um déficit considerável em razão da previdência. “O populismo quase levou o Brasil a falência absoluta”, ressaltou ele, elogiando a coragem do atual governo em fazer as reformas e ajudar o país a voltar a crescer. Segundo ele, Armando Vergilio que o despertou para a importância do mercado segurador. “Parabenizo a todos os corretores por serem uma categoria tão importante para o Brasil”.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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