A 9ª Conferência Internacional de Microsseguros, em Jacarta, na Indonésia, acontece num momento crítico. O supertufão Haiyan, em ação desde a última sexta-feira, deixou apenas destroços por onde passou nas Filipinas. A maioria das perdas, tanto vida como bens materiais, atingiu a população de menor renda, público alvo do microsseguro. No mundo, o potencial do microsseguro é de US$ 40 bilhões em prêmios por ano, segundo estatísticas da Allianz, uma das maiores seguradoras do mundo. O público potencial estimado é de 2,6 bilhões de pessoas, com ganho entre US$ 1,25 e US$ 4 por dia.
A tragédia nas Filipinas trouxe um tom mais urgente na busca de soluções para desafios críticos como a distribuição, os modelos de negócios e investimentos necessários para levar proteção a uma camada da população que mais sofre com a ocorrência de danos da natureza. O evento, organizado pela Munich Re, Microinsurance Network, Insurance Council of Indonesia (DAI) e Indonesian Financial Services Authority (OJK), reúne cerca de 400 especialistas em microsseguros entre os dias 12 e 14 de novembro, focados nas tendências do microsseguro na região e no mundo.
Segundo informações de agências internacionais, 87% dos filipinos não têm seguro. O número de mortes é provavelmente entre 2 mil e 2,5 mil, segundo informou o presidente do país, Benigno Aquino, em entrevista à CNN nesta terça-feira (12). Inicialmente, a ONU havia divulgado estimativa de 10 mil mortes. Segundo a agência Bloomberg, as perdas econômicas podem ficar entre US$ 12 bilhões a US$ 15 bilhões. Desse valor, apenas algo entre 10% a 15%, ou seja, US$ 2 bilhões, contam com proteção de seguro.
O supertufão, sem dúvida, devastou enormes áreas de agricultura. Ventos de 195 mph e ondas de cinco metros de altura ameaçaram grande parte da nação do Pacífico. É para esse tipo de situação que a indústria de seguros tem voltado a sua atenção, buscando ofertar produtos vinculados a índices climáticos. Em evento realizado em agosto deste ano em São Paulo, Alfredo Gómez, Head of Latin America Treaty Underwriting da Swiss Re, citou o caso do Haiti, onde o programa Microinsurance Catastrophe Risk Organization (Micro) da Swiss Re oferece, desde 2011, proteção aos pequenos empreendedores afetados por catástrofes. Segundo Gómez, a subscrição é feita com base em riscos paramétricos e a liquidação de sinistros e pagamento ao segurado é rápida e transparente. Atualmente, 50 mil segurados estão protegidos contra inundação, vendaval e terremoto. Bangladesh é outro exemplo recente, que em agosto, passou a proteger 1,6 mil famílias, com coberturas de US$ 100.
Esse tipo de produto tem ajudado o microsseguro, viável diante da parceira entre organizações não governamentais, resseguradoras e instituições financeiras, a crescer a passos largos no mundo e já chega a representar cerca de 15% das vendas mundiais da indústria de seguros. Para empresas realmente interessadas em criar vínculos com esse mercado, os prejudicados não têm de provar suas perdas. Afinal, em catástrofes como a ocorrida nas Filipinas, a maioria dos seguarados perdeu tudo. Sem apólices, sem notas fiscais. Restaram apenas a dor, a fome, a miséira e a esperança de ajuda humanitária. O valor da indenização do microsseguro é pequeno, assim como o valor do prêmio cobrado. As seguradoras pagam a indenização baseada em expectativas levantadas durante a subscrição do risco. O que, para alguns, já pode significar um recomeço com a compra de um equipamento ou para reconstrução de parte da residência.
Dados dos organizadores do encontro em Jacarta informam que mais de 170 milhões de pessoas de baixa renda da região participam de programas de microsseguros. Segundo recente pesquisa divulgada pela Munich Re Foundation, o setor de microsseguros na Ásia e na Oceania chegou a 172 milhões de vidas e propriedades cobertas, o que representa uma taxa de crescimento anual de 40% entre 2010 e 2012. No Brasil, o mercado potencial foi estimado inicialmente em 100 milhões e revista recentemente para 40 milhões.
A Índia é líder no mercado com mais de 100 milhões, enquanto a Malásia e a Indonésia são considerados os mercados de microsseguros mais vibrantes, com uma taxa de 185 % e 100% de crescimento, respectivamente, sobre o mesmo período. Apesar destes resultados animadores, o setor de microsseguros hoje cobre menos de 5% das pessoas que vivem na Ásia e na Oceania. “Quando as pessoas de baixa renda não são capazes de gerenciar riscos, eles não podem quebrar o ciclo da pobreza “, afirma Craig Churchill, presidente da Microinsurance Network, em nota divulgada. Por esta razão, “o acesso ao seguro por pessoas de baixa renda é essencial para o desenvolvimento sustentável de um pais.” Atualmente, o seguro de vida é o principal risco vendido para as pessoas de menor renda, com 83 mil, seguido por acidente (77 mil), saúde (27 mil), agricultura (26 mil) e propriedade (7 mil).
No Brasil, apesar de registrar vários programas de seguro voltado para o menor renda, o microsseguro acaba de ser regulamentado e as estatísticas apenas começam a ser divulgadas. Caixa Seguros, BB e Mapfre e Bradesco estão entre as empresas que já divulgam estatísticas das vendas de microsseguros. Segundo dados da consultoria Siscorp fornecidos ao blog Sonho Seguro, até setembro essas companhias arrecadaram prêmios de R$ 5,5 milhões.
Risco no Brasil – Apesar de ser um país considerado livre de catástrofes, o Brasil enfrenta sérios riscos. Estudos da Swiss Re revelam que no período de 2004 a 2010, o governo federal do Brasil gastou US$ 2,6 bilhões em medidas de remediação de catástrofes naturais, mas investiu apenas US$ 280 milhões em ações preventivas nesse período. A maior parte dos gastos é para alívio emergencial, o que acaba saindo caro para todo mundo. Um dado preocupante sobre o aumento da população brasileira exposta ao risco de inundação. Estudo da Swiss Re estimou o aumento de 33 milhões de pessoas para 43 milhões em 2030. O estudo previu, ainda, que as perdas anuais com inundações no Brasil poderão aumentar de US$ 1,4 bilhão para US$ 4 bilhões em menos de 20 anos.
É preciso fazer algo mais concreto e que realmente atenda as populações de menor renda, que hoje dependem das doações, uma vez que os recursos dos governos dificilmente chegam aos mais pobres na proporção da necessidade que uma tragédia exige. Segundo as agências humanitárias da ONU, as Filipinas vão necessitar de US$ 301 milhões em ajuda humanitária após a passagem do supertufão Haiyan. Ontem, pelo menos oito pessoas morreram numa cidade das Filipinas quando um grupo de sobreviventes do tufão Haiyan invadiu um armazém de arroz. Cerca de 100 mil sacas de arroz foram roubadas. Arroz… ou seja… os que não morreram passam fome. E a fome é um dos riscos mais eminentes para a ocorrência de uma guerra.

















