O ritmo de crescimento chinês do mercado segurador- o setor saiu de 0,8% do PIB para 5,7% em uma década- está entre os destaques de um caderno especial publicado pelo jornal Valor Econômico nesta terça-feira. A previsão é de que o mercado, que arrecadou R$ 253 bilhões em 2012, salte para R$ 768 bilhões em 2025. O especial trata da incursão da nova classe média ao seguro, dos primeiros passos dos microsseguros, da recente volatilidade da previdência privada e da competição do resseguro.
Leia a íntegra da abertura do Caderno
O desenvolvimento de um mercado de seguros de longo prazo é fundamental para suportar o crescimento sustentado da economia. E vice-versa. Esse é o mantra que move os executivos do setor, que preparam suas companhias para chegar em 2025 capitalizadas e rentáveis. Eles investem para que a indústria saia do patamar de R$ 253 bilhões em arrecadação registrado em 2012 para R$ 768 bilhões em 2025. Isso significa um crescimento anual nominal médio de 17% no período. “Se existe algo no Brasil que cresce como a China é seguro. Saímos de uma representação de 0,8% no PIB para 5,7% em uma década”, diz Marco Antonio Rossi, presidente da Confederação das Seguradoras, a CNseg.
Esse avanço será possível com a mudança já em curso. O foco passou do produto para o cliente na maioria das companhias. “A principal estratégia hoje, e que continuará válida para os próximos anos, ultrapassa o viés orçamentário, sempre sujeito às oscilações do mercado. Tudo pode mudar – produtos, serviços, tecnologias, etc. – mas, no final das contas, o cliente sempre vai priorizar a qualidade aliada a um atendimento gentil e eficaz”, afirma Fabio Luchetti, presidente da Porto Seguro.
Isso significa uma grande mudança para um setor que até pouco tempo atrás tinha preços tabelados. A venda de seguros pessoais, para bens como carro e residência, planos de saúde e odontológico, e também proteções financeiras, como vida, previdência e responsabilidade civil serão os grandes propulsores desta indústria, com ativos superiores a R$ 300 bilhões.
Riscos corporativos são considerados na projeção para 2025. “Melhorar a infraestrutura é crucial e isso trará muitas oportunidades para o mercado de resseguros”, diz Marco Antônio de Simas Castro, presidente do escritório local do Lloyd’s of London, principal mercado de seguros do mundo. A expectativa é de que os leilões de concessões de aeroportos, ferrovias e rodovias atinjam valores segurados de R$ 47 bilhões, o que representaria vendas de seguros próximas de R$ 720 milhões, considerando-se apenas os de garantia e de engenharia. A aposta do setor de seguros é de que em 2025 o Brasil poderá ser a 5ª maior economia do mundo, à frente de Alemanha, Reino Unido e França. Atualmente, é a 7ª.
Os dados relatados fazem parte da organização do principal evento das seguradoras, que acontece dias 22 e 23 de outubro, em Brasília. A Conseguro chega à sua sexta edição com um tom bem diferente dos eventos anteriores. Nada mais de mudança de arcabouço regulatório, fusões e aquisições, abertura do resseguro ou desenvolvimento de canais alternativos de vendas. A discussão agora é: “O cliente quer comprar seguro. Descubra qual produto ele quer, em qual canal quer ser atendido, quanto pode pagar e como quer fazer o pagamento”.
“Não tenho dúvida de que os esforços das seguradoras e da Superintendência de Seguros Privados (Susep), que recentemente regulamentou a venda de seguro por meios remotos, irá elevar o consumo per capita de seguros do Brasil para um patamar mais condizente com o tamanho da economia, mediante a oferta de produtos e serviços inovadores, com preços acessíveis”, diz Rossi.
Os estrangeiros também mantêm firme a aposta no Brasil. Segundo projeções da maior resseguradora do mundo, a Munich Re, o Brasil galgará sete posições até 2020, deixando de ser o 15º maior mercado mundial para ser o 8º. A empresa tem interesse em vários nichos do mercado local, principalmente projetos de infraestrutura, proteção financeira para riscos climáticos e agronegócios.
O olhar de longo prazo considera que a economia apenas deu uma derrapada neste ano, o que gerou uma deterioração dos principais indicadores. A tábua de salvação tem sido a manutenção do nível de desemprego em um dos patamares mais baixos da história. Mas isso só não basta. É preciso elevar a renda. Em 2012, o PIB per capita do Brasil foi de US$ 11,8 mil e o dos Estados Unidos, de US$ 49,9 mil, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).
É por acreditar na melhoria geral da conjuntura que os investimentos continuam. A Zurich aporta US$ 100 milhões no período de três anos em tecnologia e pessoas para estar entre os cinco maiores grupos em 2025. “Contamos com a premissa de que a renda média do brasileiro, que hoje representa 25% do ganho do americano, passe para 40%. Já é um bom indicador de que haverá dinheiro para comprar seguro e poupar para o futuro”, acrescenta Richard Vinhosa CEO da área de vida e previdência da Zurich.
A Liberty também aposta em tecnologia e pessoas. “O plano é chegar a 2025 com a oferta de atendimento, serviços e produtos excepcionais a nossos clientes e corretores”, diz Pablo Barahona, CEO da Liberty Seguros.
Segundo o consultor Flávio Faggion, o setor de seguros, previdência aberta e títulos de capitalização cresceu 15% em vendas, para R$ 114 bilhões, até agosto, comparado ao mesmo período de 2012, e mais R$ 50 bilhões em planos de saúde e odontológicos até junho. “No entanto, agosto é o 3º mês consecutivo em que o VGBL tem crescimento negativo.”
Saúde suplementar tem lucro maior
O ano tem sido de bons resultados para o setor de saúde suplementar. O lucro líquido das companhias chegou a R$ 1,7 bilhão no primeiro semestre, o que representou 3,5% sobre o faturamento de R$ 50,1 bilhões. O retorno médio sobre o patrimônio líquido foi de 11%. As operadoras de planos odontológicos registraram o maior percentual, de 29%. Trata-se de um resultado acima do obtido no ano passado, quando o ganho anual alcançou R$ 2,9 bilhões e 3,1% dos R$ 98 bilhões desembolsados pelos beneficiários das oito modalidades de empresas envolvidas na venda de planos de saúde e odontologia. Em contrapartida, as operadoras devolveram R$ 79,4 bilhões (82% dos valores arrecadados) em eventos médicos e odontológicos, segundo estudo da consultoria Siscorp.
Segundo dados da Agência Nacional de Saúde (ANS), há no Brasil 48,6 milhões de pessoas com planos de saúde e 18,6 milhões com planos odontológicos. “Saúde suplementar representa metade do faturamento da indústria de seguros. Enquanto se vende praticamente R$ 100 bilhões em planos de saúde, todos os seguros (carro, casa, empresariais, riscos financeiros, vida e previdência) movimentam os outros R$ 100 bilhões”, enfatiza Marcio Coriolano, presidente da Bradesco Saúde e da Federação Nacional das Empresas de Saúde Suplementar (FenaSaúde), que representa 15 das 29 operadoras de saúde.
Segundo Coriolano, as associadas foram responsáveis por 371 milhões de procedimentos em 2012. O desembolso para arcar com esses eventos somou R$ 30,1 bilhões. O fato, porém, é que saúde privada está entre as principais queixas do consumidor, assim como entre os principais anseios da população. Pesquisa realizada pelo Datafolha, contratada pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), em 2013, revela ser o plano de saúde o terceiro desejo da população, logo após educação e a casa própria.
Apesar das dificuldades, trata-se de uma indústria que vem chamando a atenção de investidores. A aposta é que haverá uma nova onda de consolidação do segmento, que conta com 1,5 mil operadoras responsáveis pela oferta de mais de 55 mil planos de saúde. Entre janeiro e julho, a consultoria PwC registrou dez transações na área de saúde.
A compra de 90% da Amil pela americana United Health, em uma transação de quase R$ 10 bilhões, em 2012, despertou os investidores sobre o potencial ganho que este mercado, mesmo fortemente regulado pelo governo, pode proporcionar. Semana passada a Bradesco Saúde anunciou que passou a deter 50,1% da Odontoprev, maior operadora de planos dentais da America Latina e parceira do concorrente Banco do Brasil na Brasildental. (DB)


















