Os principais riscos do mundo ficaram para trás. Essa é a perspectiva do economista Mailson da Nóbrega, segundo sua palestra no X Seminário da ABGR, que começou hoje e termina no dia 23, em São Paulo. Os sinais que mostram que o mundo entrou em uma situação com menos riscos são ter superado a crise Europeia, sem a desintegração do euro; a clara recuperação dos Estados Unidos mesmo com o Congresso e Barack Obama ainda terem negociações pela frente; o Japão ressurgindo como uma grande potência; e a economia da China desacelerando num ritmo bem menor do que o era esperado. “Claro que temos ainda muitos desafios pela frente. Estamos num momento pós crise e é natural que a economia mundial cresça muito devagar”.
Em relação ao Brasil, o ex-ministro da Fazenda mantém mostra uma certa decepção pelo governo ter deixado passar uma grande chance do o país ter aproveitado os bons ventos dos últimos quatro anos. “No Brasil vivemos um momento de perda de dinamismo, infelizmente”. Isso se deve ao esgotamento da bonança externa, principalmente pela desaceleração da China. Também ao estreitamento da liquidez de capital que afetou o Brasil ao frear o bom momento que o pais vinha vivendo com a captação de recursos a um custo mais competitivo. Do ponto de vista interno, Mailson cita a falta de reformas no Brasil, com perdas de ganhos de produtividade para o pais. “Também há uma queda da confiança de empresário e dos consumidores com a maneira como o Brasil vem sendo gerido nesta gestão Dilma Rousseff”, comentou.
Para ele, vários erros desse governo levam o país a viver esse momento de “baixa” diante dos olhos dos investidores. Um dos erros citados foi ter dado ênfase continuada na expansão do consumo, bem como ser o governo tolerante com a inflação e interferir no Banco Central, com ação política para queda de juros. “Começou a voltar ao ambiente característico da década de 70, do governo Geisel”, citou.
Controlar o preço é um outro erro do governo. “O Brasil vive um momento de inflação reprimida, pois o governo controla preço do combustível, transporte urbanos entre outros”, cita. Além disso, a contabilidade criativa na gestão fiscal é uma “das coisas mais desastradas que o governo pode estar fazendo e pode custar com a falta de credibilidade e também um risco caso as agências de risco reduzam o grau de investimento. Temos dois degraus para ser considerado alto risco novamente”, frisou. A inflação hoje estaria em 7,5% se fossem tirados todos os controles de preço, segundo cálculos da Tendência Consultoria, da qual Mailson é um dos sócios.
Como efeito desta “Nova Matriz Econômica”, como o governo chama esse período, temos um pais com a fragilização do tripé macroeconômico, inflação pressionada, deterioração das contas externas, perda da credibilidade da política econômica, riscos de rebaixamento e queda do potencial de crescimento. “Se o Brasil crescer acima de 2,5% vamos ter problemas”, enfatizou. Previsões da Tendência apostam que o PIB encerre 2013 em 2,4%, a inflação em 5,8%, o desemprego em 5,6%, juros em dois dígitos, a 10% ao ano, câmbio a R$ 2,20 e balança comercial em US$ 2,5 bilhões, saltando para US$ 8,2 bilhões em 2014. “Alguns analistas projetam taxa Selic de 12% ao ano, mas acho isso pouco provável, pois todos sabem que o Banco Central não tem autonomia”, comentou.
Na visão do economista, o Brasil não vai entrar em colapso, com sugeria a capa da revista The Economist, com o Cristo Redentor, depois de decolar, perder o controle e estar prestes a se espatifar no chão. “Não há razão para alimentar pessimismo com o pais,”, afirma, acrescentando que a situação do Brasil é diferente da Argentina, que viveu seu auge na década de 80 e hoje sofre com a volatilidade da economia. Segundo ele, ter instituições sólidas é vital para inibir o populismo continuado. As crises clássicas estão fora do radar do país. Na Ásia, por exemplo, crises que geraram colapso foram inflacionária, cambial, fiscal e político institucional. “O Brasil tem inflação alta, inconveniente. Mas não fora do controle. Os brasileiros se tornaram intolerantes e se o governo deixar os preços subirem perde popularidade”, disse.
Quanto à crise cambial, Mailson descarta o risco porque metade do passivo externo brasileiro está em moeda nacional. A taxa de câmbio voltou a ser flutuante e ter reservas internacionais de US$ 375 bilhões é um grande ativo. Quanto à crise fiscal, o Brasil nunca deixou de pagar a sua dívida interna. Deixou de pagar a externa por duas vezes. “Nada disso vai acontecer”, discursa, acrescentando a lista que a relação PIB e dívida é alta, mas isso está no radar do governo, como podemos perceber na freio ao repasse de verbas aos bancos estatais divulgado recentemente. “O problema do Brasil é de crescimento e não desse tipo de crise”, afirma.
O Brasil deu certo. Agora precisa ficar rico, resume Mailson da Nóbrega. Ele afirma que o Brasil é parte da nova realidade da América Latina, com “adeus ao populismo”. Segundo ele, o Brasil não tem mais instabilidade em duas áreas. “Temos permanente estabilidade política e econômica e isso nos deixa na antessala do clube dos ricos. Nós últimos 100 anos só o Japão entrou nesse seleto grupo e a Coréia está entrando agora”, comenta.
A previdência oficial é um outro desafio a ser vencido pelo Brasil, responde o economista a uma das perguntas da plateia, feita pelo executivo Luis Naganime. “Não vai explodir agora, mas a reforma no sistema é vital para as contas do país no longo prazo”, comenta. Ele cita o efeito de jovens estarem casando com idosos, o que destorce os cálculos atuariais do sistema, que não calculo o risco de ter de pagar mais 60 anos de benefício para uma viuva de um idoso, que nas contas dos profissionais é previsto em no máximo dez anos.
Segundo a Tendências, a probabilidade de Dilma se eleger era de 70% no até junho. Com as manifestações populares, a aposta ficou menor, de 60%. Agora, com a candidatura de Marina Silva, a previsão da consultoria passou para “imprevisível”. No entanto, o economista reconhece que Dilma tem grande desejo de se manter no poder e isso vai desencadear uma grande briga, uma vez que a presidente tem demostrado recentemente uma grande disposição de participar de eventos do dia a dia e dar entrevistas para “rádios” locais. Na semana passada, por exemplo, Dilma entregou casas populares mesmo sem estarem concluídas.
“Há razões para acreditar que teremos melhores debates diante das oportunidades políticas que estão surgindo”, acredita Maílson da Nóbrega, citando até mesmo uma possível candidatura de Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (1999 a 2003) e sócio fundador da Gávea Investimentos. Para o economista, o vencedor será aquele que for capaz elaborar um programa confiavel e de bom senso que restabeleça o crescimento do país.
Seguros – O mercado de seguros avançou muito na opinião de Mailson da Nóbrega com a abertura do mercado de resseguros. “Quase ninguém tem seguro. O Brasil está entre os mercados mais potenciais em seguros para os próximos 20 anos, com aumento do crédito imobiliário, das operações financeiras, das melhorias necessárias na infraestrutura. Todos eles exigem seguro. Por isso acredito que as estrangeiras continuarão olhando o Brasil com bons olhos”, disse. “Impossível uma empresa estrangeira, acostumada a olhar no longo prazo, não considerar a capacidade de consumo elevada do Brasil. Isso, atrelado ao baixo consumo de seguros no Brasil, torna o país um alvo potencial de negócios. Para os estrangeiros, esse período de mediocridade macro-econômica é passageiro e por isso elas entendem que têm de ficar aqui”, disse.


















Bem interessante e completa a abordagem da Economia brasileira na palestra de cerca de 60 minutos do Ex ministro da fazenda Mailson da Nobrega, que foi seguida por mais 1 hora de respostas a diversos questionamentos dos presentes, sempre com comentarios firmes e esclarecedores, que tornaram bem interessante a abertura deste X Seminario Internacional.