O Brasil está entre os cinco ou seis maiores mercados da Swiss Re Corporate Solutions no mundo e poderá ampliar sua participação nos negócios globais da companhia em 2027. A avaliação é de Ivan Gonzalez, CEO global da divisão de seguros corporativos do grupo suíço, que vê oportunidades de crescimento orgânico e aquisições que acrescentem competências à operação brasileira.
Em entrevista ao Sonho Seguro, Gonzalez destacou a posição do país na estratégia internacional da companhia e manifestou confiança na equipe liderada por Guilherme Perondi. O executivo colombiano, que comandou os negócios da Corporate Solutions na América Latina entre 2011 e 2016, considera que a baixa penetração dos seguros e a demanda por soluções especializadas oferecem espaço para novos negócios. “O Brasil é um dos cinco ou seis maiores mercados da Corporate Solutions. Espero que o Guilherme e sua equipe continuem esse trabalho e que a operação seja ainda maior”, afirmou.
A perspectiva de crescimento da operação brasileira coincide com um novo ciclo de investimentos em infraestrutura. O Ministério dos Transportes anunciou uma carteira de 29 projetos de concessões rodoviárias e ferroviárias para 2027, com investimentos estimados em R$ 262,6 bilhões, dos quais R$ 102,68 bilhões em rodovias e R$ 160 bilhões em ferrovias. A execução desses projetos poderá ampliar a demanda por seguros de engenharia, garantia, responsabilidade civil e proteção patrimonial, segmentos nos quais a Swiss Re Corporate Solutions tem experiência internacional.
O movimento brasileiro acompanha uma tendência global identificada pelo Swiss Re Institute. Segundo o relatório Sigma 03/2026 – Time to Build, divulgado em setembro, os investimentos em data centers de inteligência artificial e energia renovável poderão gerar aproximadamente US$ 202 bilhões em prêmios acumulados de seguros entre 2026 e 2030, sendo US$ 91 bilhões associados a data centers e US$ 111 bilhões a projetos de energia renovável. Em declarações internacionais, Gonzalez destacou que a concentração de ativos e a complexidade dessas instalações exigem soluções que combinem engenharia de riscos, seguros tradicionais e mecanismos alternativos de transferência de riscos.
Segundo Perondi, a companhia investe em tecnologia, distribuição e contratação de profissionais, mas também avalia oportunidades de aquisição. O critério é incorporar negócios que tragam vantagens competitivas, e não simplesmente aumentar o volume de prêmios. “A gente não compra volume, não compra tamanho. A gente compra diferencial competitivo”, afirmou.
A estratégia acompanha movimentos recentes da Swiss Re Corporate Solutions no exterior, incluindo a aquisição, concluída em setembro de 2026, das operações de seguro de crédito comercial e garantia da QBE na Austrália e no Reino Unido. Gonzalez indicou que o Brasil está entre os mercados considerados para receber essas capacidades, o que poderá ampliar a oferta de produtos especializados da companhia no país.
A expansão internacional da Swiss Re Corporate Solutions também passa pela Índia, onde o grupo anunciou, em agosto, uma parceria com a Bajaj General Insurance para ingressar, pela primeira vez, no mercado de seguros corporativos diretos, após mais de 25 anos de atuação exclusiva como ressegurador. O foco inicial são empresas indianas com operações internacionais, por meio de programas globais de seguros e soluções de gestão de riscos.
Segundo Gonzalez, a participação da Índia na carteira global da Corporate Solutions deve avançar para aproximadamente 10%, acompanhando a relevância econômica do país. A iniciativa ilustra a estratégia de ampliar a presença em mercados com potencial de crescimento, combinando a capacidade técnica e financeira da Swiss Re com a distribuição de parceiros locais, modelo também adotado no Brasil com o Bradesco Seguros.
Bradesco: parceria estratégica
Anunciada em 2016, a parceria entre Swiss Re e Bradesco Seguros completará dez anos de operação em julho de 2027. Gonzalez fez uma avaliação positiva da associação, destacando a combinação entre a presença comercial e o conhecimento do mercado brasileiro do Bradesco e a experiência técnica, o capital e a rede internacional da Swiss Re. “É uma parceria estrategicamente muito importante. A ideia original foi combinar a fortaleza do Bradesco Seguros, o conhecimento que tem do país e sua penetração na distribuição com a experiência técnica e a capacidade de capital da Swiss Re”, afirmou.
O executivo reconheceu os desafios de integrar companhias de países e culturas diferentes, mas ressaltou que a joint venture ampliou seu porte e diversificou a carteira, anteriormente concentrada em seguro garantia e rural. “Temos muito orgulho dos resultados. Conseguimos crescer e expandir para novos negócios. Agora temos a responsabilidade de fazer com que os próximos dez anos sejam ainda mais bem-sucedidos”, disse.
Para 2027, a operação pretende fortalecer sua presença em grandes riscos e médio mercado. A equipe comercial foi reforçada com a chegada de Vitor Brandão e a contratação de mais quatro profissionais, buscando ampliar o relacionamento com grandes empresas atendidas pelo Bradesco. O médio mercado, distribuído pelos canais do Bradesco Seguros, já representa o segundo maior segmento de distribuição da operação brasileira. Perondi destacou a integração comercial entre as equipes como um dos fatores que sustentam os resultados da joint venture.
Seguros multinacionais e agronegócio
Gonzalez identificou oportunidades nos programas internacionais de seguros para empresas brasileiras com operações no exterior. Segundo ele, a complexidade desses contratos e o número relativamente restrito de seguradoras capazes de oferecer cobertura coordenada em diferentes países favorecem companhias com redes globais de atendimento.
A Swiss Re pretende utilizar sua plataforma tecnológica e seus parceiros internacionais para atender tanto multinacionais estrangeiras presentes no Brasil quanto grupos brasileiros em processo de internacionalização.
No agronegócio, o foco está na utilização do seguro rural como instrumento de mitigação de riscos de crédito, reduzindo a dependência de produtos vinculados à subvenção governamental. Perondi explicou que a companhia desenvolveu conexões por meio de APIs com cooperativas agrícolas e bancos, integrando o seguro às operações de financiamento. A proteção permite que instituições financeiras reduzam sua exposição a perdas decorrentes de eventos climáticos e que produtores rurais preservem sua capacidade de continuar produzindo.
Data centers movimentam novos negócios
Os investimentos em inteligência artificial e infraestrutura digital abriram outra frente para a operação brasileira. Nos últimos três a quatro meses, a Swiss Re Corporate Solutions participou de três projetos de seguros para data centers no país, segundo Perondi. A companhia liderou a colocação de seguros em dois projetos e participou de um terceiro. Até o momento, o mercado brasileiro tem conseguido oferecer capacidade para os limites solicitados pelos investidores, inclusive em coberturas de interrupção de negócios.
Gonzalez observou que a expansão mundial dos data centers exige volumes elevados de capital e apresenta desafios para o setor segurador, especialmente quando as instalações estão localizadas em regiões expostas a catástrofes naturais. Esses empreendimentos concentram diferentes exposições, como falhas elétricas, incêndios, danos materiais, interrupção operacional e riscos cibernéticos. Para o executivo, a questão é saber se a indústria terá capacidade suficiente para acompanhar a magnitude dos investimentos.
Perondi afirmou que ainda não foram identificadas dificuldades relevantes na contratação de seguros para a fase de construção dos projetos brasileiros analisados. Ressalvou, porém, que a cobertura cibernética constitui uma exposição específica, não necessariamente incluída nesses programas.
Paramétricos crescem, mas ainda têm espaço no Brasil
Os seguros paramétricos estão entre as linhas de maior crescimento da carteira global da Swiss Re, segundo Gonzalez. A modalidade prevê o pagamento de indenizações a partir de indicadores previamente estabelecidos, permitindo processos mais rápidos e estruturas adaptadas às necessidades dos clientes.
O executivo destacou que empresas e governos têm recorrido a essas soluções para administrar exposições climáticas e outros riscos. No Brasil, a utilização ainda está concentrada principalmente no agronegócio. Segundo Perondi, algumas cooperativas agrícolas já oferecem produtos paramétricos aos cooperados, embora a modalidade ainda tenha participação limitada.
A companhia também acompanha discussões com a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) sobre a criação de programas de proteção contra catástrofes naturais para municípios e estados. Existem estudos com participação de instituições internacionais interessadas em contribuir para o financiamento dos valores de seguros, mas ainda não há contratações em escala.
Segundo Perondi, a região Sul tem registrado maior frequência de sinistros relacionados a eventos climáticos, incluindo vendavais que atingem propriedades rurais. Esse cenário reforça a necessidade de ampliar a cobertura securitária e desenvolver mecanismos de transferência de riscos.
A Superintendência de Seguros Privados (Susep) divulgou em setembro o Relatório Final do Grupo de Trabalho Seguro Catástrofe, que debateu a criação de mecanismos financeiros e securitários para enfrentar desastres naturais e reduzir a dependência de recursos públicos no Brasil. A Swiss Re, através do Swiss Re Institute e de sua operação local, participa e fornece dados fundamentais para esse ecossistema, liderado pela Susep em conjunto com o mercado segurador, por meio da CNseg, academia e órgãos reguladores.
Rentabilidade e inteligência artificial até 2030
A estratégia de longo prazo da Swiss Re Corporate Solutions é definida em um momento de maior concorrência no mercado internacional de seguros, pressão sobre os preços e aumento da exposição a riscos climáticos. Segundo estimativa divulgada pelo Swiss Re Institute em 2026, as perdas globais seguradas por catástrofes naturais podem alcançar US$ 320 bilhões em um único ano, em um cenário extremo.
A Corporate Solutions passou por uma transformação financeira importante e opera com índices combinados na faixa dos 80%. Gonzalez destacou que o mercado de seguros corporativos é cíclico e que a disponibilidade de capital influencia diretamente as condições comerciais. Nesse ambiente, considera fundamental oferecer diferenciais técnicos e ampliar a base de clientes.
A inteligência artificial terá papel relevante na busca por eficiência. Segundo o executivo, além da sinistralidade, as despesas administrativas e os custos de distribuição influenciam o índice combinado, indicador utilizado para medir a rentabilidade operacional das seguradoras.
A expectativa é utilizar tecnologia para aumentar a produtividade, preservar resultados e manter capital suficiente para atender às obrigações com os segurados. Para 2030, Gonzalez projeta uma Corporate Solutions maior, com presença ampliada nos mercados de maior potencial. O Brasil, já situado entre as principais operações globais, deverá continuar ocupando posição relevante nessa estratégia.



























