O IRB(Re) dá um novo passo em sua estratégia de expansão, e o CEO Nuno David tem pela frente o desafio de transformar a recém-autorizada IRB(Seg) Vida e Previdência em uma operação relevante no mercado brasileiro de seguros de pessoas. A missão combina a experiência acumulada pelo grupo em 87 anos de atuação no resseguro com uma proposta de negócios voltada à ampliação da proteção financeira da população. A ambição, afirma, é conquistar espaço em um mercado ainda marcado pela baixa penetração do seguro de vida, sem entrar em confronto direto com as seguradoras que já são clientes do ressegurador.
A nova companhia recebeu autorização da Superintendência de Seguros Privados (Susep) para operar seguros de pessoas e planos de previdência complementar aberta em todo o território nacional. A Portaria Diore/Susep nº 165, de 9 de setembro de 2026, também homologou a eleição dos administradores e o estatuto social da seguradora, que nasce com capital social de R$ 18,5 milhões e controle acionário indireto do IRB(Re).
Para Nuno, a criação da seguradora representa uma mudança na posição ocupada pelo grupo na cadeia de valor do seguro. Até agora, o IRB atuava predominantemente na aceitação de riscos originados por outras companhias. Com a nova operação, passa a ter acesso direto à originação de seguros de pessoas, utilizando um modelo de baixa retenção e uso intensivo do resseguro do próprio grupo.
“O IRB(Re) sempre esteve na cadeia de valor do seguro, mas atuava em uma etapa posterior, assumindo riscos de seguros contratados por outras companhias. A IRB(Seg) Vida nasce para dar ao grupo acesso direto à criação e à comercialização de seguros de pessoas”, explica. Segundo o executivo, a iniciativa não deve ser interpretada como uma diversificação oportunista, mas como parte da construção de um ecossistema que reúne seguros, resseguros, gestão de ativos, securitização de riscos, tecnologia e inovação. A proposta é conectar a distribuição ao cliente final à capacidade técnica e financeira do ressegurador.
Crescer sem disputar mercado com as cedentes
Um dos principais desafios de Nuno será administrar a relação entre a nova seguradora e as companhias que já mantêm negócios com o IRB(Re). A estratégia anunciada é evitar a concorrência direta com as cedentes estratégicas por meio de preços ou taxas. “O primeiro ponto é o que não vamos fazer: não vamos concorrer com as cedentes estratégicas do IRB(Re) disputando preços ou taxas. O nosso posicionamento é de complementaridade. Isso não é uma frase de cortesia; é a regra de atuação que nos permite crescer criando valor para o mercado como um todo”, afirma.
A diferenciação pretendida está na capacidade de oferecer soluções integradas aos parceiros de distribuição, combinando produtos de seguros com o conhecimento técnico e a estrutura de capital do grupo. Nuno destaca também a autonomia proporcionada pelo capital brasileiro e pelo centro de decisões instalado no país. Segundo ele, isso permite responder às demandas comerciais sem depender da aprovação de uma matriz internacional.
Outro componente da estratégia é uma plataforma tecnológica modular, desenvolvida desde o início para facilitar a integração com diferentes parceiros e acelerar o lançamento de produtos. A promessa é colocar novas soluções no mercado em questão de dias, sem criar dependência tecnológica para os distribuidores.
A velocidade comercial, porém, terá de conviver com exigências regulatórias elevadas. A nova seguradora foi autorizada a operar no segmento prudencial S1, o mais rigoroso da classificação da Susep, que impõe requisitos de supervisão compatíveis com os das maiores companhias do setor. “Os desafios são os de qualquer entrante sério: fortalecer uma marca já importante e relevante, ganhar a confiança dos canais e executar com disciplina num regime prudencial exigente. Preferimos crescer com qualidade de carteira a crescer depressa”, diz.
Seguro de vida coletivo será a porta de entrada
A oportunidade identificada pelo executivo está na distância entre a dimensão do mercado brasileiro de seguros e o contingente de pessoas que ainda não dispõe de proteção financeira adequada. Embora o Brasil tenha o maior mercado segurador da América Latina, Nuno avalia que o seguro de vida ainda apresenta baixa penetração na população. Para ele, ampliar essa cobertura exige modelos de distribuição capazes de alcançar consumidores que não são atendidos pelos canais tradicionais. “Esse vazio não se fecha com mais um balcão bancário; fecha-se levando proteção a comunidades que hoje não têm oferta estruturada”, afirma.
A estratégia comercial será implementada em etapas. No início, a prioridade estará no seguro de vida coletivo e nas coberturas incorporadas a relações comerciais já existentes, como seguro prestamista, vida em grupo na relação entre empregadores e empregados e produtos distribuídos por novos ecossistemas de negócios.
A escolha está associada ao potencial de escala desses segmentos e à demanda já identificada entre os parceiros comerciais. O seguro de vida individual virá em uma segunda etapa, com distribuição apoiada em corretores e canais consultivos. A previdência complementar aberta, embora já esteja contemplada na autorização regulatória, será desenvolvida posteriormente, quando a base de seguros de vida estiver consolidada.
A intenção é trabalhar com produtos de acumulação e renda de longo prazo, evitando uma estratégia concentrada na disputa por taxas de administração com os grandes bancos. A meta anunciada é construir, em cinco anos, uma seguradora de porte relevante no segmento de pessoas, sustentada pela rede de distribuição e pela capacidade técnica e de capital do IRB.
Corretores e plataformas terão papéis complementares
A distribuição será multicanal, mas seguirá uma hierarquia definida. O principal canal será formado por parceiros que já possuem uma base própria de clientes e podem incorporar o seguro a uma relação comercial estabelecida. O segundo pilar será o corretor de seguros, tanto nas operações estruturadas de apólices coletivas quanto na comercialização de produtos individuais. “Não concebemos vida individual sem ele”, afirma Nuno, ao destacar o papel do corretor na orientação dos consumidores e na construção de soluções de proteção adequadas às suas necessidades.
Plataformas digitais e outros ecossistemas complementarão a estratégia. O executivo também identifica oportunidades na evolução do Open Insurance, especialmente com o avanço do compartilhamento de dados autorizado pelos clientes, que poderá facilitar a comparação e a contratação de produtos.
O modelo pressupõe uma relação de parceria na qual a seguradora fornece tecnologia, produtos e capital, sem disputar com o distribuidor o relacionamento comercial com o consumidor. “A seguradora não disputa a relação com o cliente contra o parceiro; ela a viabiliza, com produto, tecnologia e capital”, resume.
Experiência de 87 anos em resseguro será usada para desenvolver produtos
Uma das principais apostas de Nuno está na transformação do conhecimento acumulado pelo IRB(Re) em uma ferramenta para desenvolver produtos e aprimorar a precificação dos seguros de pessoas. O executivo explica que, ao longo de sua trajetória, o ressegurador reuniu experiência com sinistros provenientes de diferentes carteiras do mercado, uma base de conhecimento que uma seguradora recém-criada dificilmente conseguiria desenvolver isoladamente.
A utilização dessa experiência poderá contribuir para a definição do apetite de risco, a elaboração de modelos de precificação e a redução do tempo necessário para responder às demandas dos parceiros comerciais. Na avaliação de Nuno, essa capacidade também abre espaço para o desenvolvimento de coberturas que enfrentam limitações de oferta em razão da complexidade técnica, da insuficiência de dados ou da necessidade de capital. Entre as oportunidades identificadas estão seguros de invalidez por doença, diárias por incapacidade e produtos de acumulação e renda de longo prazo.
O IRB(P&D), estrutura de pesquisa e desenvolvimento do grupo, terá papel nesse processo, oferecendo suporte em modelagem e análise de dados. A nova seguradora também investe em dados e analytics desde o início das operações, com a intenção de transformar o conhecimento do resseguro em soluções que possam chegar ao consumidor com maior agilidade.
“A vantagem do resseguro só vira vantagem competitiva se a seguradora souber usá-la na ponta. Por isso investimos em dados e analytics desde o primeiro dia, para que a informação que chega ao grupo pelo resseguro se transforme em produto melhor, preço mais justo e subscrição mais rápida para o cliente”, afirma.
O desafio de Nuno será transformar essa combinação de experiência técnica, tecnologia e parcerias em uma operação comercial capaz de ganhar escala. Mais do que lançar uma nova seguradora, o projeto pretende demonstrar como a integração entre seguro e resseguro pode ampliar a oferta de proteção no Brasil, preservando o relacionamento do IRB com suas cedentes e construindo uma carteira sustentável no longo prazo.





















