A hiperpersonalização tornou-se uma das principais apostas das seguradoras para conquistar consumidores. Na Iza, porém, ela começa antes de chegar ao segurado. A companhia decidiu aplicar tecnologia para personalizar a relação com o corretor de seguros, simplificar a distribuição e retirar da jornada tarefas operacionais que consomem tempo do intermediário. Com apenas 38 funcionários, a seguradora projeta alcançar R$ 100 milhões em faturamento neste ano, depois de superar R$ 70 milhões em 2025.
“Meu negócio é plugar soluções tecnológicas em grandes canais de massificação, onde o corretor trabalha menos e ganha mais”, afirma Gabriel de Ségur de Charbonnières, fundador e CEO da Iza. A estratégia contraria a primeira onda das insurtechs, marcada pela ideia de desintermediação. Para Gabriel, o corretor continua sendo o principal elo de confiança entre seguradora e cliente.
A tecnologia sustenta uma estrutura particularmente enxuta. Dos 38 funcionários da Iza, cerca de 16 trabalham nas áreas de produto e tecnologia. A seguradora opera em nuvem, utiliza inteligência artificial e integra suas soluções aos sistemas dos parceiros por meio de APIs. A lógica é assumir grande parte da operação e do pós-venda, deixando o corretor concentrado na distribuição e no relacionamento com seus clientes.
Mas Gabriel considera que o verdadeiro teste da tecnologia não ocorre na contratação. É quando o cliente precisa receber a indenização. “Eu quero que meu segurado me use porque, se ele usou uma vez, vai falar: ‘Nossa, funciona. E isso reforça os laços com meus parceiros corretores de seguros”, diz.
Um caso envolvendo um entregador do Zé Delivery ilustra a estratégia. Depois de sofrer um acidente e precisar de cirurgia, o trabalhador teria de aguardar vários dias pelo procedimento na rede pública. Segundo Gabriel, a equipe da Iza identificou a situação, localizou um hospital particular, negociou o atendimento e realizou o pagamento diretamente. O entregador foi operado no dia seguinte.
A operação com entregadores foi justamente a porta de entrada da Iza no mercado. A companhia desenvolveu um seguro de acidentes pessoais que é ativado quando o profissional aceita uma entrega e permanece válido até sua conclusão, conhecido como liga e desliga. Hoje, segundo Gabriel, a plataforma registra mais de 250 milhões de entregas protegidas. Entre os clientes estão Zé Delivery e Lalamove.
A estratégia começa a avançar para outros mercados. Acidentes pessoais e seguro viagem ainda concentram cerca de 95% da receita da companhia. Em viagem, Gabriel afirma que a Iza já alcançou aproximadamente 6% do mercado por meio de uma parceria com um distribuidor presente em quase 4 mil agências e operadoras de turismo.
A seguradora também começa a dar os primeiros passos em vida individual e vida em grupo. O tamanho do mercado ajuda a explicar o interesse. Gabriel cita um segmento de vida superior a R$ 80 bilhões e ainda com baixa penetração entre os brasileiros. Nesse cenário, conquistar uma pequena parcela de um mercado já estabelecido pode representar um negócio relevante para uma seguradora do porte da Iza. “Geralmente os empresários têm mania de pensar em grandeza”, afirma, ao defender o crescimento gradual da Iza. Segundo ele, conquistar apenas 0,1% de um mercado de R$ 80 bilhões já representa R$ 80 milhões em receitas.
A trajetória da Iza mostra a velocidade da expansão. A seguradora saiu de um faturamento de R$ 71 mil em 2021 para R$ 1,6 milhão em 2022, R$ 5,6 milhões em 2023 e R$ 19,6 milhões em 2024. No ano passado, a receita alcançou R$ 67,3 milhões, crescimento de 243% em relação ao exercício anterior. Para 2026, a projeção é chegar a R$ 100 milhões, avanço de 48,6%. Tudo isso com uma estrutura de apenas 38 funcionários.
Para 2027, um dos objetivos é aumentar a retenção de riscos. Com apenas dois anos de histórico como seguradora plenamente licenciada, a companhia ainda utiliza o resseguro de maneira relevante, em contratos com a Swiss Re e com o IRB(RE). À medida que acumula dados sobre frequência e comportamento dos riscos, pretende aumentar a parcela retida, movimento que pode contribuir para a geração de caixa e o resultado.
A expansão, entretanto, acontece em um ambiente mais difícil para captação. Segundo Gabriel, investidores brasileiros e estrangeiros estão cautelosos neste momento diante das condições econômicas e políticas do país. A Iza avalia um aumento de capital, mas mantém uma postura conservadora enquanto prepara a próxima fase de crescimento. Para o executivo, a baixa penetração de diversos produtos e o tamanho da população mantêm o setor no radar de investidores internacionais. A questão, neste momento, é esperar o resultado das eleições e combinar oportunidade com disciplina de capital.
A própria Iza tem evitado ampliar o portfólio apenas para acelerar o crescimento. Cerca de dez corretores já procuraram a companhia com demandas relacionadas ao seguro garantia. A seguradora estuda o segmento, inclusive seus requisitos regulatórios e de capital, mas ainda não decidiu entrar.
“Temos que ser muito bons em uma coisa e fazer muito bem”, resume Gabriel. É uma estratégia menos baseada em lançar dezenas de produtos e mais em encontrar grandes canais de distribuição, conectar a tecnologia da seguradora à jornada existente e eliminar fricções. Depois do Sandbox, a Iza tenta provar que inovação em seguros pode estar menos no produto em si e mais na forma como corretor e cliente conseguem usá-lo.





















