Brasil e Portugal fecham parceria no setor de seguros contra riscos climáticos

Cooperação junta CNSeg e Associação Portuguesa de Seguradoras busca criar produtos mais adequados, ampliar cobertura e fortalecer respostas a catástrofes climáticas e riscos cibernéticos.

Fonte: Público Brasil

A parceria entre a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), entidade que representa o mercado segurador brasileiro, e a Associação Portuguesa de Seguradores (APS), principal representante do setor em Portugal, avança e o objetivo é ampliar a proteção de consumidores, empresas e produtores rurais diante do aumento das catástrofes climáticas e dos riscos cibernéticos.

A cooperação institucional prevê intercâmbio de conhecimento, desenvolvimento de novos produtos, compartilhamento de experiências regulatórias e fortalecimento dos mecanismos de proteção financeira nos dois países. Segundo o presidente da CNSeg, Dyogo Oliveira, a aproximação permite oferecer seguros mais adequados às necessidades da população, além de impulsionar projetos conjuntos voltados à adaptação climática, inovação e gestão de riscos emergentes.

O fortalecimento dessa agenda ocorre em um momento em que Brasil e Portugal enfrentam desafios semelhantes provocados pela intensificação dos eventos extremos, a exemplo de enchentes, secas prolongadas, incêndios florestais, tempestades severas e ondas de calor que têm provocado prejuízos, além de afetar populações vulneráveis, infraestruturas públicas e cadeias produtivas estratégicas.

Para Oliveira, as mudanças climáticas e os riscos cibernéticos já estão entre os principais desafios contemporâneos para o mercado segurador, e isso exige soluções mais modernas e cooperação internacional para ampliar a capacidade de proteção das sociedades.

A aproximação entre os mercados seguradores brasileiro e português ganhou força, segundo Oliveira, durante a COP29, realizada em Baku, no Azerbaijão, em 2024. Naquele momento, representantes dos dois países iniciaram discussões que resultariam, em 2025, na construção de uma agenda permanente de cooperação. E esse movimento ganha novo impulso com a realização, nesta quarta-feira, 3 de maio, do primeiro Fórum Brasil–Portugal de Seguros, promovido pela CNSeg e pelo Grupo Fidelidade, com apoio da APS, no Técnico Innovation Center, em Lisboa.

A iniciativa busca aproximar lideranças do setor, fomentar cooperação técnica e desenvolver soluções conjuntas para riscos emergentes que desafiam seguradoras, governos e economias em ambos os lados do Atlântico. O objetivo é claro: criar um ambiente permanente de troca de experiências capaz de acelerar a inovação e fortalecer a resiliência dos mercados.

A agenda conjunta também mira um compromisso de longo prazo. Após os avanços obtidos nas discussões iniciadas durante a COP29, Brasil e Portugal pretendem ampliar a coordenação internacional na COP31, este ano na Turquia, quando, segundo ele, voltarão a defender o papel estratégico do setor segurador na mitigação dos impactos climáticos e na construção de mecanismos mais eficientes de proteção social e financeira.

A colaboração entre as entidades ocorre em um contexto de crescente preocupação global com os efeitos das alterações climáticas. No Brasil, o ano de 2025 foi marcado por enchentes, estiagens, ondas de calor, chuvas de granizo, tornados e incêndios florestais que afetaram mais de 336 mil pessoas e geraram prejuízos estimados em 663 milhões de euros. Dados do Radar de Eventos Climáticos e Seguros, da CNSeg, apontam que apenas no primeiro semestre do ano passado, as perdas associadas aos eventos climáticos alcançaram 5,2 bilhões de euros.

Por outro lado, em Portugal, o cenário também se agravou. Dados da Agência Portuguesa do Ambiente registraram o mês de maio mais chuvoso dos últimos 50 anos, seguido por períodos de calor extremo que elevaram significativamente os riscos de incêndios florestais em diversas regiões do país.

A frequência desses eventos, em escala crescente, tem provocado uma mudança estrutural na forma como o setor segurador avalia riscos e projeta cenários futuros, conforme Oliveira. Modelos historicamente baseados em séries estatísticas passadas começam a perder eficiência diante de uma realidade climática mais instável e imprevisível.

“As mudanças climáticas não estão apenas elevando o volume de indemnizações pagas pelo setor de seguros, mas transformando a própria essência da atividade seguradora”, afirma o presidente da CNseg, que participa do XIV Fórum de Lisboa. Segundo ele, um dos maiores desafios para os próximos anos será justamente revisar os modelos tradicionais de avaliação de risco. “A realidade atual já não se comporta como no passado. Portanto, olhar apenas para os dados históricos deixou de ser suficiente para avaliar o risco futuro”.

Os reflexos desse novo cenário já podem ser observados em setores estratégicos da economia, especialmente no agronegócio. O seguro rural, considerado um dos principais instrumentos de proteção para produtores, enfrenta dificuldades crescentes de precificação diante da maior incidência de perdas climáticas.

Nos últimos anos, o Brasil chegou a contar com cerca de 13,7 milhões de hectares protegidos por seguro rural. Em 2025, porém, a área segurada recuou para pouco mais de 3 milhões de hectares, o equivalente a apenas 3,3% da área plantada do país. Entre os fatores apontados para essa retração está a redução dos recursos destinados à subvenção federal que auxilia pequenos e médios produtores na contratação de seguros, de acordo com dados fornecidos pela CNSeg.

Para especialistas, o cenário reforça a necessidade de ampliar os mecanismos de proteção financeira para o campo, especialmente diante da crescente exposição do agronegócio aos riscos climáticos. Nesse contexto, experiências internacionais têm despertado interesse dos mercados brasileiro e português. Na Turquia, por exemplo, o seguro contra desastres naturais é incluído diretamente na conta de energia elétrica.

No México, estados somente têm acesso a apoio federal em situações de emergência caso possuam seguros para infraestruturas públicas. Os modelos são vistos como exemplos de como políticas públicas, incentivos e participação privada podem ampliar a cobertura e reduzir vulnerabilidades.

No Brasil, a CNseg também participa de discussões com o Executivo e o Legislativo sobre a criação de um Seguro Social de Catástrofe, proposta que busca ampliar a proteção da população diante de eventos extremos e reduzir impactos econômicos e sociais provocados por desastres naturais.

Paralelamente, o mercado europeu tem intensificado investimentos em inteligência climática e pesquisa aplicada. O Grupo Fidelidade criou um centro especializado para estudar riscos físicos associados às alterações climáticas, cruzando informações sobre incêndios, ondas de calor, precipitações extremas e elevação do nível do mar com impactos socioeconômicos em diferentes territórios.

A iniciativa reúne universidades, centros de pesquisa e especialistas para produzir conhecimento aplicável à formulação de políticas públicas, ao desenvolvimento de produtos seguradores e ao aprimoramento das estratégias de prevenção e adaptação.

Para Dyogo Oliveira, a aproximação entre Brasil e Portugal também abre espaço para o desenvolvimento de soluções inovadoras voltadas diretamente aos consumidores. “Assim como aqui em Portugal, nós temos desenvolvido parcerias com outros países. De início, com os países da América Latina, através da Federação Interamericana de Seguros, da qual somos associados. E temos desenvolvido parcerias bilaterais com Portugal, com a França, com o Reino Unido, e estamos começando também uma aproximação com a Espanha”, comenta.

Ele destaca que estão explorando possibilidades a partir de uma troca de formações e conhecimento entre empresas brasileiras e portuguesas, para terem produtos mais adequados às necessidades das pessoas, tanto em Portugal, que já tem um mercado de seguros bem desenvolvidos quanto no Brasil que ainda tem bastante mercado para crescer.

“O Brasil ainda tem uma lacuna de proteção de seguros grande: muitas casas e carros não têm seguros, muitas pessoas não têm seguro de vida e, por outro lado, há um espaço muito grande para o Brasil crescer e ter a experiência de outros países”, diz Dyogo. E complementa: “O que acho mais importante é compartilhar o conhecimento sobre algumas questões mais graves e recentes que têm acontecido, como catástrofes climáticas, riscos cibernéticos, que têm impactado o mercado de seguros”.

Para ele, a aproximação entre a CNseg e a APS permite uma troca de conhecimento e experiência dos dois mercados que pode melhorar os produtos tanto do Brasil quanto de Portugal. E, dessa maneira, melhorar o atendimento aos clientes e segurados, viabilizando a oferta de seguros mais apropriada para as necessidades das pessoas

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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