Open insurance: falta ganhar tração

Open Insurance avança, mas ainda enfrenta baixa adesão e fricções na jornada do cliente

Denise Bueno, para o Valor

O open insu­rance, um sis­tema cri­ado pela Supe­rin­ten­dên­cia de Segu­ros Pri­va­dos (Susep), que per­mite que cli­en­tes de segu­ra­do­ras com­par­ti­lhem seus dados de forma segura com outras empre­sas do setor, já saiu do campo da pro­messa. A agenda regu­la­tó­ria avan­çou, a infra­es­tru­tura foi implan­tada e o mer­cado segu­ra­dor bra­si­leiro pas­sou a con­vi­ver com um novo modelo de com­par­ti­lha­mento de dados, pen­sado para ampliar con­cor­rên­cia, esti­mu­lar ino­va­ção e dar ao con­su­mi­dor mais con­trole sobre suas infor­ma­ções. Mas, pas­sa­dos os mar­cos ini­ci­ais de imple­men­tação, o que se vê é um sis­tema ainda em cons­tru­ção, que pro­cura escala, cla­reza de valor e maior flui­dez ope­ra­ci­o­nal.

“O open insu­rance ainda enfrenta desa­fios e resis­tên­cias, mas não dá para par­tir do pres­su­posto de que esse ecos­sis­tema não dará certo”, afirma Júlia Nor­mande, dire­tora da Susep. “Ele é estra­té­gico para apro­xi­mar con­su­mi­dor e segu­ra­dora e para ampliar a oferta de ser­vi­ços no mer­cado. Hoje, mui­tas empre­sas ainda enxer­gam o open insu­rance como custo regu­la­tó­rio. O desa­fio é fazer com que ele passe a ser visto como modelo de negó­cio, de melho­ria de pro­ces­sos e de aten­di­mento ao cli­ente”, diz Nor­mande.

Se o regu­la­dor insiste na dire­ção estra­té­gica, o mer­cado chama aten­ção para as difi­cul­da­des do uso coti­di­ano. Do ponto de vista de mer­cado, há evo­lu­ção con­creta — com aumento de inte­gra­ções e tes­tes tran­sa­ci­o­nais —, mas ainda em está­gio ini­cial de matu­ri­dade. Trata-se de uma infra­es­tru­tura invi­sí­vel que já vem sendo mais bem apro­vei­tada por segu­ra­do­ras liga­das a con­glo­me­ra­dos finan­cei­ros.

A dis­cus­são passa pelo papel das Socie­da­des Pro­ces­sa­do­ras de Ordem do Cli­ente (Spocs). Até abril de 2026, ape­nas duas foram auto­ri­za­das pela Susep, a Guru Spoc e a Open Power, mas a expec­ta­tiva é de novas apro­va­ções de cor­re­to­res de segu­ros inte­res­sa­dos em atuar no open finance, a inte­gra­ção do open ban­king com o open insu­rance. Para a Susep, essas empre­sas podem fun­ci­o­nar como veto­res de ino­va­ção, jus­ta­mente por nas­ce­rem com foco inte­gral em ser­vi­ços e tec­no­lo­gia. Ao mesmo tempo, ainda enfren­tam ajus­tes regu­la­tó­rios e ope­ra­ci­o­nais para atuar com maior efi­ci­ên­cia e aju­dar a dar ao sis­tema a escala pre­ten­dida.

Um dos prin­ci­pais gar­ga­los está na pró­pria expe­ri­ên­cia do cli­ente. “Na prá­tica, o prin­ci­pal desa­fio hoje é fazer a jor­nada do cli­ente fun­ci­o­nar com flui­dez de ponta a ponta”, resume Icaro Leite, CEO da Guru Spoc. Segundo ele, o ecos­sis­tema evo­luiu em gover­nança, segu­rança e estru­tura, mas ainda car­rega fric­ções impor­tan­tes nas eta­pas de auten­ti­ca­ção e con­sen­ti­mento. “O desa­fio agora é con­so­li­dar a infra­es­tru­tura com escala, gover­nança e mode­los de dis­tri­bui­ção capa­zes de cap­tu­rar o valor dos dados”, acres­centa Manuel Matos, coor­de­na­dor do Comitê de Ino­va­ção em Segu­ros da Câmara Bra­si­leira da Eco­no­mia Digi ­tal (camara-e.net).

O pri­meiro ponto crí­tico é a ampli­a­ção do perí­me­tro de par­ti­ci­pa­ção. Per­sis­tem assi­me­trias entre ins­ti­tui­ções obri­ga­das e par­ti­ci­pan­tes volun­tá­rios, o que limita a escala e cria dis­tor­ções com­pe­ti­ti­vas — sobre­tudo em favor de gru­pos que já ope­ram inte­gra­dos ao open finance com segu­ra­do­ras liga­das a ban­cos.

Sem uma base ampla e equi­li­brada, o sis­tema tende à frag­men­ta­ção. Outro desa­fio cen­tral é a con­ver­são do con­sen­ti­mento em ativo eco­nô­mico. Embora o modelo colo­que o titu­lar no cen­tro, ainda são inci­pi­en­tes os usos estra­té­gi­cos do con­sen­ti­mento para gera­ção de pro­du­tos, ser­vi­ços e expe­ri­ên­cias dife­ren­ci­a­das.

Do lado das segu­ra­do­ras, a ava­li­a­ção é que o obs­tá­culo prin­ci­pal hoje não está na tec­no­lo­gia. Ale­xan­dre Leal, dire­tor-téc­nico, de estu­dos e de rela­ções regu­la­tó­rias da Con­fe­de­ra­ção Naci­o­nal das Segu­ra­do­ras (CNseg), afirma que o setor já fez inves­ti­men­tos rele­van­tes para cum­prir a agenda regu­la­tó­ria, mas a demanda do con­su­mi­dor ainda é limi­tada. “Do ponto de vista das segu­ra­do­ras, o prin­ci­pal entrave para o open insu­rance ganhar escala comer­cial hoje é, sobre­tudo, a baixa demanda do con­su­mi­dor”, diz.

Para ele, ao con­trá­rio do open finance, o seguro não faz parte da rotina digi­tal da maior parte das pes­soas: “O cli­ente não tem o hábito de aces­sar fre­quen­te­mente pla­ta­for­mas de segu­ra­do­ras, como faz com apli­ca­ti­vos ban­cá­rios”. Nesse con­texto, auten­ti­ca­ção e con­sen­ti­mento para com­par­ti­lhar dados aca­bam se tor­nando bar­rei­ras adi­ci­o­nais num ambi­ente com o qual o con­su­mi­dor inte­rage pouco e, mui­tas vezes, de forma medi­ada pelo cor­re­tor. Por isso, ganha força a ideia de ace­le­rar a inte­ro­pe­ra­bi­li­dade com o open finance, levando infor­ma­ções de segu­ros para canais nos quais o cli­ente já está pre­sente.

Gus­tavo Laença, da Cap­ge­mini, afirma que o ecos­sis­tema ainda não con­se­guiu demons­trar gera­ção clara de valor para as segu­ra­do­ras. Na visão dele, o debate pre­cisa sair do campo estri­ta­mente tec­no­ló­gico e migrar para estra­té­gia, pro­du­tos, dados e comer­cial.

Mas o ano de 2026 pode ser deci­sivo para o open insu­rance. “Os resul­ta­dos mais con­cre­tos em ter­mos de ser­vi­ços devem come­çar a apa­re­cera par­tir de 2027. O ano de 2026 será muito impor­tante para revi­são, ajus­tes regu­la­tó­rios e for­ta­le­ci­mento da gover­nança”, informa Nor­mande, da Susep.

O supe­rin­ten­dente da Susep, Ales­san­dro Octa­vi­ani, insere o tema numa agenda mais ampla. Para ele, a aber­tura e a por­ta­bi­li­dade de dados for­ta­le­cem o con­su­mi­dor e aju­dam a ampliar o acesso ao seguro. “A pre­o­cu­pa­ção da Susep vai além da pene­tra­ção. O cen­tro da nossa agenda é a resi­li­ên­cia da eco­no­mia bra­si­leira”, afirma. “E isso passa por ampliar a base segu­rada, tra­zer novos arran­jos para o mer­cado regu­lado e avan­çar em agen­das como seguro rural, catás­trofe e open insu­rance.”

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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