Ancelotti convoca hoje. Mas o seguro já entrou em campo há muito tempo.

Por Felipe Freire de Aragão, CCO e cofundador da Latin Re e FIT Participações | Seguros & Resseguros | HBS OPM 65

Hoje muita gente vai discutir a convocação da Seleção Brasileira. Quem entrou, quem ficou fora, quem deveria ser titular e quem chega melhor para a Copa.

Mas existe uma outra convocação que começou muito antes — e que quase ninguém vê.

Antes da bola rolar, antes do primeiro ingresso ser vendido, antes da primeira campanha de patrocinador ir ao ar e antes de qualquer seleção desembarcar, o mercado de seguros e resseguros já está em campo.

E sem ele, sendo direto, seria impossível termos chegado a um evento da magnitude de uma Copa do Mundo moderna.

A Copa de 2026 será disputada em três países — Estados Unidos, Canadá e México — com 48 seleções, mais de 100 jogos, milhões de torcedores presenciais e bilhões de espectadores ao redor do planeta. Mas, por trás do espetáculo esportivo, existe uma arquitetura invisível de contratos, responsabilidades, seguros, resseguros e gestão de risco que começa anos antes do apito inicial.

A Copa não é apenas o maior evento do futebol. É provavelmente um dos programas de risco mais complexos do planeta.

E a Responsabilidade Civil está no centro de tudo isso.

Porque a Copa é, essencialmente, uma gigantesca concentração simultânea de pessoas, patrimônio, contratos, tecnologia, mobilidade e exposição reputacional.

Em determinados jogos, principalmente envolvendo seleções mais valiosas, existe um nível de acúmulo que poucos mercados no mundo conseguem absorver confortavelmente.

No passado, tivemos a oportunidade de estruturar certificados e operações envolvendo algumas das seleções europeias mais valiosas do mundo. E existe um ponto que, honestamente, poucas pessoas fora do mercado percebem.

Hoje, dependendo da seleção e do momento esportivo, o acúmulo financeiro de um elenco pode ultrapassar facilmente €5 bilhões quando consideramos salários, contratos de imagem, valor econômico dos atletas, patrocinadores, clubes, federações e responsabilidades indiretas.

E isso leva a uma reflexão interessante.

Imagine o acúmulo financeiro dentro de um único voo da Seleção Brasileira.

Talvez nem todo o limite disponível hoje no mercado internacional de RC fosse suficiente para absorver determinados cenários extremos envolvendo uma seleção top 5 global.

E aí surge uma pergunta legítima: será que as federações, os clubes e os próprios atletas realmente enxergam o tamanho desse risco?

Porque não estamos falando apenas de vidas humanas — que já seriam suficientes para justificar toda preocupação do mundo. Estamos falando também de uma das maiores concentrações de capital humano do esporte global dentro de um único ambiente físico.

E o mais impressionante é que o risco não está apenas dentro das quatro linhas.

O estádio é risco.
O transporte é risco.
O catering é risco.
O hotel é risco.
O VAR é risco.
O telão é risco.
O sistema biométrico é risco.
O drone é risco.
O fornecedor terceirizado do fornecedor também é risco.

Quase tudo na Copa é segurado.

E precisa ser.

A RC do organizador talvez seja a peça mais sensível do programa inteiro. A FIFA, os comitês organizadores locais, os operadores dos estádios e os fornecedores convivem com exposições gigantescas relacionadas a lesões corporais, falhas operacionais, tumultos, problemas de infraestrutura, danos materiais e responsabilidade cruzada entre diferentes operações e jurisdições.

Porque basta um único incidente relevante para transformar um jogo em um evento de consequências bilionárias.

E quando falamos em multidões, inevitavelmente falamos de tumulto, violência e risco político.

A Copa de 2026 acontece em um ambiente particularmente sensível. Três países diferentes. Contextos políticos distintos. Tensões migratórias. Polarização crescente. Manifestações. Pressão social. E uma exposição global sem precedentes.

Hoje os riscos de SRCC (strikes, riots and civil commotion), terrorismo e political violence deixaram de ser coberturas periféricas em grandes eventos. Eles passaram a ocupar posição central na modelagem do risco.

E existe uma dificuldade importante: o dano nem sempre vem de um grande ataque.

Às vezes o maior problema nasce do pânico.

Uma falha em controle de acesso. Um problema em evacuação. Uma pane tecnológica. Um boato. Um movimento de multidão. Em eventos dessa escala, segundos importam.

E isso nos leva a outra transformação importante da indústria: a migração do risco físico para o risco híbrido.

Hoje um ataque cibernético pode gerar dano físico real.

Uma falha em sistemas de acesso pode gerar superlotação. Uma pane em comunicação de emergência pode gerar tumulto. Um ataque a sistemas de energia ou transmissão pode interromper operações críticas em tempo real.

A Copa moderna não depende apenas de concreto e segurança privada.

Ela depende de tecnologia funcionando perfeitamente o tempo inteiro.

Mas talvez uma das partes mais interessantes — e menos visíveis — esteja muito antes do evento acontecer.

A Copa gera um ciclo enorme de obrigações financeiras e contratuais anos antes do primeiro jogo. Obras precisam ser entregues. Sistemas precisam funcionar. Infraestruturas precisam ser concluídas. Fornecedores precisam sobreviver financeiramente até a entrega final.

É aí que seguros garantia e seguros de crédito ganham enorme importância.

Eles não aparecem quando a bola rola, mas ajudam a sustentar toda a cadeia anterior ao espetáculo. Funcionam como instrumentos de confiança para contratos extremamente longos, complexos e dependentes de performance.

Enquanto a RC protege principalmente os impactos físicos e financeiros do evento em andamento, garantia e crédito ajudam a manter viva a engrenagem econômica que permite que o evento exista.

E isso acontece durante anos.

No fim, a Copa do Mundo é uma aula prática sobre o papel do seguro na sociedade moderna.

Muita gente ainda enxerga seguro como burocracia ou commodity. Mas eventos dessa magnitude mostram exatamente o contrário.

A própria ideia de reunir bilhões de dólares em infraestrutura, direitos de mídia, capital humano, transporte, tecnologia e responsabilidade jurídica em torno de um único torneio seria economicamente inviável sem mecanismos sofisticados de transferência de risco.

O seguro não apenas protege a Copa.

Ele ajudou a tornar a Copa possível.

Quando a bola rolar em 2026, bilhões de pessoas estarão olhando para o campo. Mas talvez o jogo mais complexo já tenha acontecido muito antes, silenciosamente, entre seguradoras, resseguradores, brokers, governos, atuários, advogados e mercados financeiros espalhados pelo mundo.

Porque uma Copa do Mundo não começa na abertura.

Ela começa quando alguém aceita carregar o risco.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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