Seguradoras projetam investir R$ 2,8 bilhões em Inteligência Artificial em 2026, segundo CNseg

Levantamento da CNseg em parceria com a EY aponta foco em experiência do cliente, operações, subscrição, sinistros e tecnologia como principais frentes de aplicação da IA no setor

A Inteligência Artificial deixou de ser pauta experimental para se consolidar como prioridade estratégica nas seguradoras brasileiras. É o que mostra o novo estudo da CNseg, a Confederação das Seguradoras, em parceria com a consultoria EY, que aprofunda a análise sobre a aplicação de IA no setor e revela um movimento já disseminado nas companhias, ainda que com impactos financeiros predominantemente incrementais.

O levantamento indica que o setor segurador brasileiro investe cerca de R$ 20 bilhões por ano em tecnologia, e a previsão para 2026 apenas em IA é de R$ 2,8 bilhões, R$ 2 bilhões acima do valor aportado no ano passado, distribuídos em praticamente todas as áreas das companhias — do atendimento e backoffice às operações e tecnologia da informação. Dentro desse montante, a IA vem ganhando peso como agenda prioritária, citou Dyogo de Oliveira, presidente da CNseg, em coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira pela manhã.

“Trata-se de um movimento que já está presente nas companhias. A Inteligência Artificial deixou de ser uma hipótese e passou a integrar os processos. Saímos do estudo convictos de que a maioria das empresas enxerga a IA como oportunidade concreta de melhorar eficiência e produtividade”, afirma

Segundo ele, diante da centralidade do tema no cenário global, a confederação decidiu aprofundar o diagnóstico. O novo estudo mostra que os investimentos em IA estão distribuídos principalmente nas frentes de experiência do cliente, operações e tecnologia. “O setor já demonstrava no estudo anterior que tecnologia era investimento prioritário. Agora vemos que a IA ocupa posição estratégica dentro dessa agenda”, acrescenta Dyogo.

A adoção é ampla: 80% das empresas já implementaram soluções de IA. Essas companhias respondem por aproximadamente R$ 210 bilhões do faturamento do setor, o equivalente a cerca de 50% do market share. Para Alexandre Leal, diretor técnico da CNseg, isso demonstra que o avanço não está restrito a nichos. “Estamos falando das maiores empresas do mercado, com escala relevante. A IA já é realidade operacional”, diz.

A motivação é clara. Segundo o estudo, 81% apontam melhoria da experiência do cliente como principal razão para investir em IA. Em seguida aparecem automação de tarefas (69%) e redução de custos (65%). Diferenciação competitiva é citada por 50%, geração de novas receitas por 35% e reforço da segurança e gestão de risco por 15%. “Quando perguntamos sobre o foco estratégico, 100% mencionam produtividade. A IA é vista, antes de tudo, como alavanca de eficiência”, afirma Leal.

Os casos de uso se concentram principalmente em backoffice, TI, atendimento, sinistros e operações. Entre as aplicações mais comuns estão chatbots, assistentes com análise de voz e sentimento, análise de documentos, copilotos para desenvolvimento de código e ferramentas de apoio à subscrição. 80% das companhias já implementaram aplicações voltadas diretamente ao cliente.

O modelo de desenvolvimento predominante é híbrido: 77% combinam soluções internas e externas. Apenas 15% desenvolvem internamente, 4% utilizam exclusivamente parceiros e outros 4% adotam soluções prontas de fornecedores.

Apesar do avanço, os resultados financeiros ainda são majoritariamente incrementais. 77% das empresas relatam algum impacto positivo, mas sem alteração estrutural do modelo de negócio. 84% apontam aumento de receita de até 1% em determinados processos. “Ainda é tímido, mas é algo que já aparece no ganho de receita”, diz Leal.

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Em contrapartida, há ganhos operacionais expressivos em áreas específicas. Algumas empresas registraram redução de até 50% no tempo de resposta ao cliente. Outras dobraram o número de cotações com apoio de IA. Cerca de 30% indicaram aumento relevante de produtividade em TI. Além disso, 85% afirmam que a IA melhorou a capacidade tecnológica existente.

A expectativa é que o investimento comece a se pagar com maior intensidade à medida que escala e governança avancem. 62% das empresas esperam redução de custos superior a 1% ainda neste ano, sendo que 20% projetam queda acima de 5%. Empresas ligadas a bancos demonstram maior propensão a investir — algumas indicam destinar até 1% da receita à IA em 2026.

Para os próximos cinco anos, 68% projetam que determinados processos estarão totalmente automatizados, sem intervenção humana, especialmente em sinistros, subscrição e operações. 66% pretendem criar equipes dedicadas exclusivamente à IA.

Ainda assim, as barreiras permanecem relevantes. No Brasil, 69% apontam a integração com sistemas legados como principal obstáculo. A precisão e confiabilidade dos modelos são citadas por 58%, a falta de expertise técnica e estratégica por 46% e o custo de implementação por 38%. A dificuldade de mensurar claramente o retorno sobre investimento também aparece como entrave.

Comparação com outros países

A comparação internacional reforça o estágio de maturidade brasileiro. Segundo Nuno Vieira, sócio e líder de Consultoria em Seguros da EY para a América Latina Sul, o Brasil está em estágio anterior ao dos Estados Unidos, mas é o mercado mais avançado da América Latina, seguido pelo México.

“Nos EUA, a adoção é semelhante, mas os impactos substanciais são mais frequentes e os investimentos mais agressivos. O desafio lá está mais relacionado à alocação de orçamento e à escassez de especialistas. No Brasil, ainda lidamos com integração tecnológica e consolidação de dados”, explica.

Nos Estados Unidos, 66% também citam integração com legados, 59% mencionam precisão de modelos e 100% apontam orçamento e falta de expertise como desafios centrais. O diagnóstico da EY indica que, em ambos os mercados, a consolidação da IA depende menos da tecnologia em si e mais de governança, qualidade de dados, talento e estratégia de investimento.

Para Leal, o próximo passo é ganhar escala com responsabilidade. “Precisamos avançar com governança, ética e foco no consumidor. A IA é uma ferramenta poderosa para melhorar processos, reduzir custos e ampliar receitas, mas deve estar alinhada à confiança que é a base do setor segurador.”

Segundo a conclusão dos executivos, a Inteligência Artificial já está incorporada à agenda estratégica das seguradoras brasileiras. Os ganhos ainda são graduais, mas o setor aposta que, com escala e maturidade operacional, a combinação de aumento de produtividade, redução de custos e melhoria da experiência do cliente permitirá que o investimento se converta em vantagem competitiva sustentável.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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