Estudo aponta queda histórica da retenção de prêmios e avanço do resseguro intragrupo no Brasil

Relatório [Re]Vision Research mostra transição do mercado para um modelo de capital leve, maior dependência de resseguro importado e desafios regulatórios para preservar a competitividade local

O mercado brasileiro de resseguros vive uma mudança estrutural marcada pela redução da retenção de prêmios no país e pela crescente utilização de resseguro intragrupo, segundo a terceira edição do estudo [Re]Vision Research – Mercado Brasileiro de Resseguros e ILS, divulgada em janeiro de 2026. O relatório tem entre seus autores Rodrigo Botti, Francisco Galisa e Pedro Roncarati, e analisa a evolução do setor à luz de dados financeiros, regulatórios e operacionais.

De acordo com o levantamento, a parcela do resseguro cedido que permanece no Brasil caiu para cerca de 27,7%, um dos níveis mais baixos da série histórica. No período de monopólio estatal, a taxa de retenção girava em torno de 50%. A abertura do mercado, aliada a mudanças regulatórias e ao maior acesso ao capital internacional, levou o país a um modelo mais próximo ao de outras economias latino-americanas, caracterizado por menor imobilização de capital doméstico.

O estudo aponta que essa trajetória reforça a dependência de resseguro importado e reduz o papel do setor como formador de poupança interna, ainda que traga ganhos de eficiência e integração ao mercado global. Para os autores, o Brasil avança para um modelo de “capital leve”, com menor retenção local de riscos e maior uso de capacidade estrangeira.

A publicação também apresenta uma análise do desempenho das resseguradoras locais, com dados de prêmios, ativos, lucro líquido, retorno sobre patrimônio e índice combinado. Os números indicam recuperação da rentabilidade no período recente, com algumas companhias registrando retorno superior a indicadores de referência do mercado financeiro até setembro de 2025. Apesar disso, o relatório ressalta que a competição com grandes grupos internacionais segue intensa.

Um dos principais focos do estudo é o crescimento do resseguro intragrupo. Segundo o levantamento, mais da metade das resseguradoras locais opera majoritariamente nesse modelo, no qual seguradoras transferem riscos para resseguradoras do mesmo conglomerado. A estratégia permite ganhos de eficiência por meio de regimes de solvência mais favoráveis no exterior, menor carga tributária em determinadas jurisdições e melhor alocação de capital.

O relatório inclui um exercício teórico que estima ganhos potenciais de retorno sobre o patrimônio entre 3,1% e 8,1% associados ao uso do resseguro intragrupo, com a ressalva de que os cálculos têm caráter indicativo e servem como base para o debate sobre concorrência e regulação.

Além disso, o estudo discute o papel das Letras de Risco de Seguro (LRS) como alternativa para ampliar fontes de capital no setor. A publicação defende ajustes regulatórios para simplificar estruturas, ampliar o acesso de investidores e alinhar o instrumento às práticas internacionais de transferência de risco para o mercado de capitais.

Na avaliação dos autores, o cenário atual impõe o desafio de conciliar maior integração internacional com o fortalecimento do mercado local. O estudo conclui que a revisão do arcabouço regulatório será decisiva para equilibrar eficiência, competitividade e a capacidade do resseguro de contribuir para o desenvolvimento econômico do país.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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