Aversão à absorção de riscos: o mito do “Abençoados por Deus”

Por Felipe Aragão, com apoio da LARA, Inteligência Artificial da Latin RE

No Brasil, o risco é frequentemente visto como algo distante — uma preocupação dos outros, não nossa. A expressão “somos abençoados por Deus e bonitos por natureza” sintetiza um traço cultural que, embora afetuoso, mascara uma realidade perigosa: subestimamos o risco que está à nossa volta.
Essa crença de proteção quase divina nos torna lentos para reagir e cegos para prevenir. Durante o CQCS Insurtech & Inovação 2025, no painel “Mudanças Climáticas – As oportunidades para o seguro”, defendi que o maior risco brasileiro não é climático nem financeiro — é psicológico e cultural: a negação do risco e a recusa em absorvê-lo.

O brasileiro reage com empatia a tragédias distantes, mas tende a ignorar os riscos cotidianos que o cercam. Essa dissociação emocional é explicada por Daniel Kahneman, em “Pensar, Rápido e Devagar”, como um viés cognitivo: julgamos a probabilidade de algo ocorrer com base na lembrança ou impacto emocional, e não em sua frequência real.
Como as grandes catástrofes parecem sempre “lá fora”, mantemos a ilusão de que “aqui não acontece”. Essa miopia coletiva está presente em temas recorrentes — enchentes, secas, deslizamentos — que só se tornam urgentes depois que já viraram manchete.
Em outras palavras, não falta informação — falta percepção de vulnerabilidade.

Culturalmente, evitamos absorver risco. Transferimos, terceirizamos, adiamos. O Estado é visto como garantidor universal, e o seguro, como custo desnecessário.
Paradoxalmente, a mesma sociedade que evita enfrentar riscos concretos é a que mais cresce nas plataformas de apostas (BETs). Aceita-se o risco quando ele diverte, mas não quando exige responsabilidade. É a contradição da sociedade emocional: apostamos na incerteza, mas negamos a probabilidade.
Essa aversão generalizada compromete nossa capacidade de prevenir, planejar e prosperar — e deixa empresas, famílias e governos reféns da sorte.

A COP (Conferência das Partes) é o palco onde o mundo discute a urgência climática. E, ainda assim, o negacionismo permanece — não só o científico, mas o cultural.
No Brasil, ele se manifesta em sutilezas: acreditamos que o problema é real, mas não nosso. Preferimos confiar na sorte, no clima ameno e na ideia de que “Deus é brasileiro”.
Esse pensamento mágico, quando incorporado à política e à economia, destrói o senso de urgência. Ele impede o desenvolvimento de mecanismos de mitigação e trava o avanço de soluções como seguros climáticos e fundos de catástrofe.
Enquanto isso, o mundo segue discutindo precificação de carbono, resiliência urbana e infraestrutura adaptativa — temas que exigem uma visão de risco como ativo estratégico, não como obstáculo.

O mercado segurador e ressegurador tem, neste cenário, uma missão que transcende o cálculo atuarial: reeducar a sociedade sobre o valor de absorver risco.
O seguro não é apenas proteção financeira — é um instrumento civilizatório. Ele permite que famílias invistam, que empresas se arrisquem e que sociedades cresçam com segurança.
Mas, para isso, o setor precisa mostrar mais e precificar melhor. O Brasil não pode continuar tratando risco como tabu. É hora de torná-lo visível, mensurável e compreensível.
A ausência de precificação não elimina o risco — apenas o distribui de forma desigual e silenciosa.
Como alguém que tem grande apetite por risco quando o retorno é bom e satisfatório, acredito que o problema não é o risco em si, mas a falta de clareza sobre o valor que ele carrega.
O risco, quando bem precificado, é o que permite a inovação, o investimento e a confiança.

Conclusão e Convocação

O futuro climático, econômico e social do Brasil dependerá da nossa capacidade de substituir a fé na sorte pela fé na preparação. Absorver risco é reconhecer a realidade — e agir sobre ela. O mercado segurador e ressegurador local deve assumir o papel de protagonista, liderando a conversa sobre vulnerabilidade e resiliência. É hora de deixar de ser apenas um amortecedor e tornar-se um espelho do risco real que o país corre.
Enquanto insistirmos em acreditar que nada vai acontecer conosco, permaneceremos vulneráveis. Mas se encararmos o risco de frente — com método, apetite e disciplina — poderemos transformá-lo na base de um crescimento sólido e sustentável.

Referências

– Kahneman, D. (2011). Pensar, Rápido e Devagar. Companhia das Letras.
– CQCS. (2025). Executivos discutem como o seguro pode responder às mudanças climáticas no CQCS Inovação 2025.
– Gamma App. (2025). Mudanças Climáticas – As oportunidades para o seguro.
elip- Conferência das Partes (COP). Acordos e discussões sobre mitigação e adaptação climática.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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