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Fusões e aquisições movimentam especialistas em seguros

Denise Bueno
Escrito por Denise Bueno

As seguradoras estão de olho nos dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que representa as instituições do mercado de capitais brasileiro. No primeiro semestre de 2018 movimentou R$ 84 bilhões em operações de fusões e aquisições, o maior desde 2010 para o período. Ao todo, foram 43 negociações. A maior delas foi a compra da Fibria pela Suzano, que movimentou R$ 47,7 bilhões. A compra da Eletropaulo pela Enel foi a segunda em valor, com R$ 7,5 bilhões. A terceira foi a compra da Somos Educação pela Kroton, com R$ 5,4 bilhões.

Bruna Reis, líder da prática de fusões e aquisições da Marsh Brasil, comenta que a maior demanda é para risco transacional, com coberturas que ajudam a mitigar riscos que possam ameaçar os negócios. O seguro protege os participantes de litígios surgidos após o fechamento da operação. No ano passado, o número de apólices contratadas cresceu 38% em relação a 2016, ultrapassando a marca de US$ 20 bilhões no mundo, segundo estudo da Marsh. Não há dados estatísticos sobre a venda deste seguro no Brasil, mas o produto está presente em boa parte das negociações de M&A.

Boa parte das negociações conta com um seguro para riscos específicos. Flavio Sá, executivo da AIG, informa que a apólice de seguros de fusões e aquisições, também conhecida por Representations & Warranties Insurance (R&W), é contratada pelo comprador e oferece cobertura para as perdas financeiras resultantes de infrações às representações e garantias dadas pelo vendedor no contrato de compra e venda. A cobertura é exclusiva para os passivos ocultos, ou seja, aquele passivo não mencionado, não conhecido e não esperado, durante o processo de due diligence.

De acordo com o estudo global divulgado pela AIG Seguros com cerca de 1 mil apólices vendidas entre 2011 e 2015, dentre os principais tipos de situações reportadas que solicitaram indenização estão as demonstrações financeiras (20%), seguido pela conformidade com legislação (15%), contratos relevantes (14%), situações tributárias (14%), propriedade intelectual (8%), relações trabalhistas (8%) entre outras.

No cenário brasileiro a expectativa é que riscos tributários, ambientais e relacionados aos demonstrativos financeiros representem a maior parcela dos casos. Outra característica dessa solução é a cobertura para a fraude do vendedor, não sendo necessário iniciar uma ação contra o vendedor para utilização da apólice.

A especialista da Marsh explica que a demanda pelo seguro é fomentada, principalmente, pelo temor dos riscos desconhecidos e ocultos. O passivo oculto em alguns casos pode acabar sendo até maior que o valor do negócio. Atualmente, os envolvidos em negociações demostram muita preocupação com alterações que ocorrem em planos de benefícios previdenciários e de saúde, bem como reorganizações societárias que impliquem transferência de empregados, riscos regulatórios e ambientais, com legislações cada dia mais punitivas aos transgressores.

Em 2017, a procura por produtos de risco transacionais tradicionais e inovadores aumentou significativamente. A Marsh colocou mais de 700 apólices de seguro de risco transacional, um aumento de quase 28% em relação a 2016. Além disso, a Marsh atuou como consultora na estruturação de soluções mais criativas de risco transacional, incluindo seguro para tratados de dupla tributação, conformidade com novas legislações e riscos envolvendo planos de saúde.

Na América Latina, os investidores estrangeiros buscam coberturas para riscos transacionais, gestão de risco, due diligence e serviços pós aquisição. Ou seja, soluções que possam auxiliar na identificação de riscos, facilitar transações, proteger e maximizar o retorno do investimento para os acionistas.

Dependendo da jurisdição e do tipo de produto de seguro procurado, é possível obter mais de US$ 1 bilhão em limite disponível em uma única transação, informa Bruna. Globalmente, os preços para produtos transacionais de risco continuam em queda, como resultado do aumento significativo da concorrência entre seguradoras e resseguradoras. Em 2017, o preço médio caiu quase 13% em relação a 2016, em comparação com uma queda
de cerca de 2% em 2016, a partir de 2015.

A executiva da Marsh afirma que o seguro se torna mais competitivo comparado a garantias financeiras, caso despesas desconhecidas apareçam futuramente. As garantias ficam disponíveis para o comprador por um período de cinco anos e sua liberação, se necessária, pode gerar litígios que atrasam a transação. Por isso, a apólice se torna uma vantagem competitiva. Com a cobertura de seguro, a responsabilidade de cobrir tais eventos recai sobre o seguro, liberando a empresa da necessidade de alocar fundos para garantia financeira.

Sobre a Autora

Denise Bueno

Denise Bueno

Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista da revista Apólice, especializada em seguros, e também do SindSeg-SP. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalizacao entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil.

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