Com R$ 1 trilhão em ativos, mercado segurador é um dos maiores investidores institucionais do país

Fonte: CNseg

Se, por um lado, o setor de seguros não está imune aos efeitos da crise, por outro, tem demonstrado grande capacidade de resiliência. O crescimento nominal de 7%, registrado nos cinco primeiros meses deste ano, está distante do desempenho alcançado cinco anos atrás, quando o setor crescia na média de dois dígitos, mas representa verdadeira façanha no contexto atual de economia em queda e instabilidade política. Para o economista Francisco Galiza a situação traduz o conceito do “copo meio cheio ou meio vazio”.

Em comparação a outros segmentos econômicos que foram mais afetados pela crise, como a indústria automobilística, que caiu 25% entre 2016 e 2017, Galiza considera que para o setor de seguros o copo está meio cheio. “Embora o crescimento tenha sido prejudicado nos últimos dois anos, em 2017 o mercado se recuperou e cresceu acima da inflação. A tendência é que se mantenha em crescimento”, disse ele durante participação no Café com Seguro, promovido pela Academia Nacional de Seguros e Previdência (ANSP), dia 3 de agosto, em São Paulo, que discutiu o “Cenário Econômico e o Mercado de Seguros”.

A façanha de se manter em crescimento em meio a um cenário de turbulência econômica é um dos motivos que credencia o setor de seguros a pleitear maior participação nas políticas públicas do país, acredita o presidente da CNseg, Marcio Coriolano. Na abertura do evento da ANSP, ele mencionou a interação do setor com o governo, em especial com o Ministério da Fazenda, que regula a atividade, mas reconheceu que o seguro ainda está adjacente à política do Estado. “Apesar da sua importância para o desenvolvimento econômico do país, o seguro é como um elo perdido nessa relação”, disse.

A situação seria outra, na visão de Coriolano, se a sociedade se desse conta de que o setor de seguro é um dos maiores investidores institucionais do país. “Poucos sabem que o setor possui R$ 1 trilhão em ativos, que estão aí suportando a dívida pública, financiando os investimentos etc.”, disse. Outro atributo do seguro, destacado por ele, é o de proteção da sociedade, no sentido mais amplo. “Cada centavo que é colocado no cofrinho do seguro, desonera a sociedade de uma série de gastos que alguém, provavelmente o governo, teria de pagar”, disse.

Para João Marcelo M. R. dos Santos, presidente da ANSP, o seguro tem fama injusta não apenas no Brasil, como em todo o mundo. Mas, ele acredita que é possível mudar essa imagem. “Depende de um trabalho de formiguinha para que a sociedade possa aprender um pouco mais sobre os benefícios do seguro”, disse.

Problemas estruturais da economia

Por que países pequenos e com recursos naturais e populacionais menores que os do Brasil conseguiram construir economias mais fortes? O economista da Escola Nacional de Seguros Lauro Farias encontrou respostas no conceito ARM (Armadilha da renda média ou do baixo crescimento). Esse conceito define a situação de países que, mesmo tendo vencido a situação de baixa renda, se mantêm no estágio de renda média por décadas e não demonstra tendência de escape para a renda alta. Na prática, são países com dificuldade para competir na oferta de bens e serviços com outras nações de renda alta e até com países de baixa renda.

Lauro Faria explicou que existem várias definições para a renda média. Ele prefere a que mede a renda per capita com base na variação entre 20% a 55% da renda per capita dos Estados Unidos. Segundo o economista, considera-se estacando no ARM o país que permanecer nessa situação por mais de 47 anos. “Seguramente, o Brasil está dentro dessa faixa há mais de 50 anos”, disse. Na comparação do PIB per capita, o Brasil está estagnado em relação aos Estados Unidos e caiu em relação ao mundo do patamar de 130% para 91%.

“Tínhamos 30% acima da renda mundial e hoje estamos 10% abaixo. Se tivéssemos mantido o padrão desde 1980, hoje a nossa renda per capita seria de US$ 30 mil”, disse. Nesse quesito, o Brasil está abaixo, por exemplo, da Argentina e do México e acima das Filipinas. Vários países estão estagnados na ARM, o que levou o Banco Mundial a estudar a questão, detectando que, em comum, todos apresentam baixa taxa de poupança e investimento; baixa produtividade; alto custo de mão-de-obra; educação deficiente etc. Além desses fatores, o Brasil também apresenta elevada carga tributária; burocracia excessiva; regulação deficiente; sistema político disfuncional etc.

Lauro Faria forneceu um roteiro de ações para escapar da ARM, que inclui investimentos em infraestrutura e educação; bom gerenciamento macroeconômico; e eficiência nas intervenções estatais (tributos e regulação de mercados). Sob o enfoque estrutural, as medidas envolvem a proteção aos setores com maior conteúdo tecnológico e políticas sociais para reduzir as desigualdades de renda, entre outros.

Confiança do setor oscila

De acordo com o economista Francisco Galiza, na comparação da receita por ramos em 2016, o setor de seguros cresceu 4% no segmento de pessoas, 2% em ramos elementares e 2% em seguros. Mas, em 2017, a inclusão dos valores do DPVAT alteraram os resultados. No caso de ramos elementares, por exemplo, que apresentou variação na receita de apenas 1% entre 2016 e 2017 (de R$ 27 bilhões para R$ 27,4 bilhões), o resultado seria maior sem o DPVAT. “Subiria para 5%, uma diferença expressiva”, disse. Nas receitas do setor para este ano, a previsão é de crescimento de 13% em todos os segmentos: seguros (5%), saúde suplementar (10%), seguros e saúde suplementar (9%) e VGBL mais previdência (22%). A receita da capitalização sairia do resultado de -2% para 4% neste ano e o resseguro de 10% para 12%.

Galiza também apresentou um estudo dos resultados do ICSS – indicador mensal que mede a confiança do setor de seguros no Brasil – de 2012 até 2017, relacionando-os com os acontecimentos políticos. Em 2012, por exemplo, o valor do indicador (que varia de 0 a 100), chegou a 120 e, em 2013, depois das grandes manifestações, baixou para menos de 100 pela primeira vez. O valor mais baixo, 65 pontos, foi alcançado em 2015, quando o governo mudou a coordenação política. Em abril deste ano, o índice foi de 95 pontos, sinalizando leve pessimismo. “A incerteza ainda é grande, afetando a estabilidade econômica”, disse.

Resseguro avança

No balanço de 2017, a situação do resseguro brasileiro é positiva, segundo Paulo Botti, presidente da Associação Nacional das Resseguradoras Locais (AN-RE). Atualmente, o setor é composto por 16 resseguradoras locais e cerca de 60 grupos operando offshore. Mas, até chegar a essa situação tranquila, o setor passou por períodos conturbados, já desde a abertura em 2008. Em 2010, o governo mudou as regras, adotando a colocação obrigatória e limitando a operação intragrupo. Em 2015, houve a redução gradual dessas regras.

Para melhorar o setor, Botti entende que os players precisam se aprimorar para oferecer ao mercado de seguros as melhores técnicas internacionais. “Isso está ocorrendo, porém, mais devagar do que deveria. Este é um débito que as resseguradoras têm com o mercado brasileiro”, disse. Por outro lado, os próximos passos já foram planejados, segundo ele, a partir de um relatório produzido em 2015 pela Comissão Consultiva de Resseguros, criada pelo CNSP, que recomenda várias medidas para tornar o mercado mais eficiente.

A boa nova trazida por Botti é que diversas resseguradoras que operam no país já estão partindo para internacionalização, com foco na América Latina. “O Brasil é uma economia grande, com baixa exposição catastrófica e mercado segurador forte”, disse. Além das locais, resseguradoras estrangeiras também estão operando em outros países a partir do Brasil. “É preciso facilitar essa internacionalização por meio da redução de tributos”, disse. Outra possibilidade para alavancar o resseguro é a transferência de riscos de seguros para o mercado de capitais. “Ou ficamos assistindo o mercado de capitais entrar ou tentamos administrar a entrada nele. Temos de aprender a ser bons nisso para evitar que eles venham e nos engulam”, disse.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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