ABGR: Crise fortalece gestores de riscos dentro da estrutura das corporações

IMG_1186A crise fortaleceu os gerentes de riscos dentro da estrutura das corporações. Esse foi o recado passado pelos gestores de riscos que brasileiros que participaram em São Paulo do XI Seminário Internacional de Gerência de Riscos e Seguros. O evento reuniu cerca de 2 mil pessoas em seus três dias de realização. Segundo Cristiane Alves França, presidente da Associação Brasileira de Gerência de Riscos (ABGR), a crise mostrou ao alto escalão das empresas que o risco existe em todos os níveis e segmentos e está ai para ser mitigado pelos gestores junto a todos os departamentos da empresa.

Seguradores, corretores, advogados, economistas e prestadores de serviços da indústria de seguros debateram nos três dias temas diversos, como a situação política e econômica do Brasil, os riscos que inibem investimentos, como hídrico e energético, a globalização, os programas de multinacioniais, os seguros financeiros, como D&O, responsabilidade civil, garantia e riscos de engenharia, entre outros. A consolidação do mercado também foi um tema importante, bem como a inovação.

O crescimento do Brasil deve continuar baixo, diz Maílson da Nobrega. “Vamos levar em torno de três a cinco anos para consertar essa crise que se instalou no país para voltarmos a crescer’, sentencia o economista em sua palestra de abertura. Por isso é bom se preparar. “Na pior da situação sobre a decisão política, impeachment, renúncia ou afastamento determinado pelo Supremo Tribunal, não haverá ruptura da democrácia. Mas temos de nos preparar para um longo período de crise. A partir de 2019, há uma previsão de melhora muito grande”, afirma Nóbrega, citando que as conquistas do Brasil nas últimas décadas foram enormes. “Temos instituições sólidas, uma base industrial complexa e diversificada, um agronegócio competitivo. Tudo isso nos traz oportunidades incríveis para serem exploradas pelos empresários e colocar o Brasil nos trilhos”, diz.

O otimismo de Maílson da Nóbrega tem base no processo democrático instalado no Brasil, com voto eletrônico e um sistema de urna, segundo ele, totalmente blindado a fraudes. “Temos também um judiciário independente e isso é fundamental para o crescimento do Brasil. Temos também uma imprensa livre, que não se curva a pressão do governo brasileiro”, afirma. Ele garante que o Brasil não volta mais a ter uma ditadura. O desafio agora é ficar rico. Entrar no clube dos ricos. A próxima a entrar neste seleto grupo é a Coreia do Sul. Essa é a nova realidade brasileira. “Só temos 25 países ricos no mundo”, afirma. “Eu tenho esperança de ver o processo de produtividade acelerado e também educação de melhor qualidade nas escolas”, diz.

Abaixo um resumo das notícias veiculadas por mídias setoriais:

Paramétricos – O presidente da Allianz Global Corporate & Specialty Resseguros Brasil (AGCS Brasil), Angelo Colombo, participou do painel sobre Soluções Paramétricas. Uma das novidades que chega ao Brasil é o seguro paramétrico com foco em indenizar perdas financeiras e não apenas materiais. “O objetivo desse seguro é ajudar investidores e empresários a organizarem o fluxo de caixa diante de imprevistos com indicadores climáticos acima ou abaixo das médias históricas”, explica Colombo. E isso vale não só para a agricultura, como para uma infinidade de segmentos da economia. Previsto para chegar ao Brasil em 2016, o objetivo de garantir o fluxo de caixa diante das perdas quando índices climáticos ficarem acima ou abaixo da média histórica. Uma coleção de inverno que ficou encalhada porque o calor afugentou os clientes das lojas. Uma hidrelétrica que não pode gerar energia porque não tinha água suficiente para girar a turbina, relatou o blog Sonho Seguro.

Multinacionais – O número de empresas multinacionais brasileiras cresceu 321% entre 2010 e 2014, de 95 para mais de 400. A forte internacionalização do período não foi acompanhada na mesma proporção pela implementação de programas internacionais de seguros, segundo especialistas reunidos no XI Seminário Internacional de Gerência de Riscos promovido pela ABGR, a associação do setor. Este gap gera riscos para as empresas, além de oportunidades e desafios para os gestores, avaliaram. “Algumas grandes multilatinas têm programas muito bons, mas empresas emergentes têm um campo importante para desenvolver – e aproveitar assim os ganhos de escala da internacionalização”, disse Alejandro Solorzano, da corretora Marsh. Vanderlei Moreira, da Weg. Segundo ele, um programa global bem estruturado pode resultar em economia de custos com seguro da ordem de 20%, podendo chegar em alguns casos a 40%. Além do custo extra, a empresa pode ter de enfrentar sinistros que eventualmente não tenham sido bem monitorados no país onde foi atuar. Por outro lado, os especialistas afirmaram que já existem programas globais cujas apólices master estão baseadas no Brasil, um desenvolvimento que pode facilitar a gestão de tais programas pelas empresas multinacionais sediadas no país, informa a Risco Seguro Brasil (https://riscosegurobrasil.com)

Gestão de risco – Sempre foi complicado levar para dentro da empresa a necessidade da gestão de riscos”, disse a presidente da ABGR, Cristiane Alves. “Mas eu tenho notado que, no atual momento difícil em que a gente está vivendo, as empresas estão mais preocupadas em fazer o seguro de crédito, o seguro de garantia. Está havendo um envolvimento de todas as áreas dentro da empresa e isso recaindo sobre o gestor de riscos e seguros. É um processo que está começando a se espalhar para além das empresas grandes”, disse Cristiane Alves França, a presidente da Associação Brasileira de Gerência de Riscos. Até mesmo eventos que causam transtornos a muitas companhias no curto prazo estão tendo um efeito salutar no que diz respeito à governança corporativa. “A questão da Lava Jato ressaltou como é importante fazer a gestão de riscos relacionados ao compliance, à parte financeira da empresa”, disse Alves. “De uma certa forma o gestor de risco também participa deste processo”, publicou a Risco Seguro Brasil.

D&O – Segundo especialistas reunidos em painel sobre o seguro e a aplicabilidade da Lei Anticorrupção, o subscritor de D&O ganhou mais preponderância e responsabilidade, e as seguradoras estão cobrando muito mais informações do tomador do seguro. “Estão perguntando mais e precificando de forma diferente”, disse Celso Soares Júnior, responsável pelas linhas financeiras da seguradora Zurich. Soares diz que se busca conhecer de maneira detalhada como está estruturado o programa na empresa, como funciona o canal de denúncias, se há política anticorrupção, se há treinamento nessa área para os funcionários, entre outras coisas. “Percebemos que muitas empresas falham nesses itens”, disse ele. “Acredito quer a subscrição vai ficar muito mais personalizada”, completou Álvaro Igrejas, diretor de grandes riscos da corretora Willis. De acordo com Igrejas, a expectativa é que a fase atual do D&O irá desembocar num maior envolvimento da alta direção das empresas nos assuntos de compliance e gestão de riscos. Além disso, a tendência é que os procedimentos internos passem a ser melhores, com análise periódica e avaliação de riscos, canais de denúncias e controles internos. A advogada Márcia Cicarelli, do escritório Demarest, lembrou que o D&O é uma importante ferramenta de proteção dos executivos, mas não é a única. “O seguro é complementar”, afirmou. De acordo com ela, outras formas de proteger a empresa e o board, evitando práticas nebulosas, é limitar o poder dos executivos, produzir atas claras do conselho de administração e utilizar as confort letters (mecanismo pelo qual a empresa assume responsabilidade de seus executivos, desde que eles ajam de acordo com a legislação e as regras da companhia). Ela lembrou que programas efetivos de compliance têm potencial de reduzir em até 50% os casos de corrupção numa companhia. E deu números para o tamanho do problema no Brasil. Citando como fonte reportagem do Valor Econômico, lembrou que a corrupção consome 2,3% (ou cerca de R$ 95 bilhões) do PIB brasileiro e que 15% dos executivos do país se disseram dispostos a pagar propina para viabilizar algum negócio.

Consolidação – Em defesa da consolidação do mercado, Antonio Penteado Mendonça, sócio da Penteado Mendonça e Char Advocacia, afirmou em sua apresentação que a redução do número de players é uma boa notícia para o setor. “Não justifica haver 108 resseguradoras para cerca de 50 seguradoras, sendo que elas têm limite de sobra e não precisam de resseguros para os negócios que operam”, disse. Segundo ele, a crise será o principal gatilho para as resseguradoras repensarem no Brasil, com exceção das locais que criaram companhias conforme a legislação local. “Algumas das admitidas não ficarão, pois ficará caro para elas, e as eventuais terão um problema muito sério, provavelmente o Brasil perca o rating de economia estável, o grau de investimento”, analisou, segundo reportagem da revista Cobertura.

Clausulado – Walter Polido, da Polido Consultoria, fez críticas ao modelo atual. “O Brasil não adota o mesmo padrão de clausulado dos mercados desenvolvidos e isso acontece porque o segurado não cobra e temos um Estado com uma visão atrasada. Foram quase 70 anos de monopólio de resseguro, isso desgastou o mercado”, afirmou. Como reflexo, ele disse que o mercado é altamente comercial e pouco técnico. “Há um paternalismo do Estado em uma área altamente técnica. Vivemos um momento de estagnação e o Brasil não está enquadrado nas boas práticas do mercado internacional. Não temos técnica de subscrição no País, é tudo feito por olhômetro”, lamentou ele em sua palestra, segundo o portal da revista Cobertura.

Energia – No Brasil, a prática de se postergar problemas é comum em vários âmbitos e na questão de abastecimento de água e energia não seria diferente. Segundo o físico e ex-ministro da Educação, José Goldenberg, a lição de casa, o racionamento, deveria ter sido posta em prática em 2012 quando a crise foi anunciada. “Ao contrário, à época, o Governo Federal reduziu a tarifa de energia elétrica em 20% e concedeu isenção de IPI para a linha branca”, disse. O resultado, avalia ele, é que a demanda por energia elétrica cresceu 3,5% ao ano, enquanto o PIB subiu muito menos e até apresentou decréscimo, exatamente por conta da transferência de renda e aumento do consumo de produtos eletrodomésticos. Outra questão, segundo o especialista, é que se em 2009 a energia hidrelétrica representava 84,2% da matriz energética, hoje esse percentual é de 65% dando lugar, principalmente, às fontes termoelétricas. “Hoje, 25% da energia utilizada no Brasil são de fontes termoelétricas. Além de serem mais caras, a conta de luz subiu mais de 50% e subirá mais, elas também são mais poluentes, informou a revista Cobertura.

Saúde – Cláudia Machado, sócia da MBS Seguros, responsável pela área de gerenciamento de riscos, mostrou ao público os rumos do seguro saúde, antecipando que a próxima atualização do Rol de coberturas da ANS se dará em janeiro de 2016. Ela afirmou que “estamos chegando ao ponto que as empresas não estão mais dando conta de pagar e há poucas alternativas para pessoas físicas. Para ter um plano de saúde tem que ser basicamente empregado ou sócio, ou ter uma profissão regulamentada (planos coletivos por adesão). É um cenário bastante complicado”. Para as contratantes, ela alertou que elas precisam se atentar muito mais do que simplesmente aos custos. “Precisam avaliar se a operadora tem sustentabilidade e se entregará o que está no contrato. De nada adianta ela ter uma série de programas de prevenção à saúde se não tem reserva técnica. Hoje, há operadoras com dificuldade de solidez e vimos quantas pessoas ficaram desassistidas pelo que ocorreu com a Unimed Paulistana”, citou ela em reportagem na revista Cobertura.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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