O endurecimento das regras de capital de risco pela Superintendência de Seguros Privados (Susep) abre espaço para as empresas de resseguro ampliarem a participação no mercado brasileiro, atuando no alívio do estresse de caixa das seguradoras.
Como as mudanças do regulador ampliam a exigência do capital que as companhias precisam manter imobilizados para fazer frente aos riscos do setor, as empresas de seguros têm que buscar recursos no mercado.
É nesse contexto que as resseguradoras, consideradas o “seguro das seguradoras”, aparecem como uma opção, justamente por atuarem assumindo parte dos riscos das empresas de seguro e, consequentemente, reduzindo a necessidade de capital dessas companhias.”A seguradora consegue, através do resseguro, ter soluções de ‘financiamentos’ mais baratas e interessantes que do mercado financeiro”, afirmou Rodrigo Belloube, CEO da operação brasileira da Munich Re, uma das maiores resseguradoras do mundo.
“O que ela [seguradora] paga para nós, como margem da operação, é menor do que ela pagaria para o mercado financeiro”, completou. O executivo afirmou que, em um cálculo feito pela empresa, enquanto uma seguradora pagaria prêmios entre 12% e 14% para se financiar no mercado de capitais, com a emissão de uma debêntures, por exemplo, ao fazer um resseguro para aliviar a necessidade de capital, a companhia arcaria com um prêmio entre 6% e 8%.
Em palestra realizada ontem, no 4º Encontro de Resseguro do Rio de Janeiro, organizado pela Confederação Nacional de Seguros (CNSeg), José Alberto Pereira, da Susep, apontou que as resseguradoras locais – sediadas no Brasil – estão capitalizadas e podem atender essa demanda.
De acordo com ele, o capital mínimo requerido dessas empresas (ou seja, os recursos exigidos para cobrir riscos) é de R$ 1,75 bilhão, porém elas têm patrimônio líquido ajustado de R$ 5,70 bilhões, gerando um índice de suficiência que fechou em 226% no final do ano passado – em 2013, esse mesmo índice era de 198%.
“[O resseguro] pode atenuar a necessidade de capital, intervir na gestão de risco junto às seguradoras. É um aliado na prática gestão de risco. E isso é algo que será bem aproveitado, principalmente em época em que os capitais não estão tão disponíveis”, observou Pereira.
Riscos
Entre os riscos que exigem capital imobilizado das seguradoras estão o risco de subscrição, provenientes de situações econômicas adversas não esperada pela sociedade, e o risco de crédito, relativo a possibilidade de uma empresa na qual a seguradora investiu dar calote na dívida.
Segundo Pereira, ao fazer um resseguro, o risco de subscrição de uma seguradora diminui em um ritmo muito maior que aumenta o risco de crédito. “Então, o resseguro pode ser usado como um instrumento de gestão de risco”, afirmou o técnico.
Outros riscos que possuem necessidade de capital são o risco operacional, que envolve uma série de riscos enfrentados pela sociedade, e o risco de mercado – cujas regras foram alteradas no final de dezembro pela Susep e podem obrigar o mercador segurador a aportar R$ 3,8 bilhões para fazer frente às novas exigências -, que consiste na possibilidade de perdas decorrentes das flutuações dos mercados financeiros.
“A resseguradora vem procurando sofisticar seu modelo de negócio. A gente não quer somente absorver volatilidade de riscos específico de um portfólio. A gente quer ajudar o nosso cliente, como parceiro estratégico, a melhorar várias facetas da operação de seguros. Uma delas é a utilização de capital”, afirmou Belloube.
As mudanças nas regras de capital de riscos, promovidas pela Susep, procuram aproximar o mercado brasileiro da regulação europeia, nomeada de Solvência II. As medidas do regulador devem estar todas em vigor até o final de 2016.
“Isso, sem dúvida, abre oportunidades para os resseguradores oferecerem produtos e operações de resseguro para aliviar a necessidade de capital das seguradoras nas mais diversas linhas de negócios, principalmente nas linhas que demandam mais capitais”, avaliou José Carlos Cardoso, vice-presidente da resseguradora IRB Brasil Re, a maior do País.
Pereira, da Susep, disse que, além das empresas de resseguro, as seguradoras poderão lançar mão de outras estratégias para atender aos novos requerimentos de capital, como abrir mão de algumas carteiras, vendendo-as para outra companhias, ou até mesmo buscar o mercado de fusões e aquisições. “Sem ter como sanear a necessidade de capital, e empresa terá que fazer a liquidação”, concluiu o executivo da agência reguladora.



















