Mercados emergentes, moedas decadentes

ALLIANZ Michael HeiseARTIGO DE Michael Heise, economista-chefe do grupo Allianz, publicado no portal Veja

O ano de 2014 começa com sinais de instabilidade para muitas economias emergentes. Há uma acentuada preocupação com a desaceleração da economia chinesa. A forte queda do peso argentino frente ao dólar provocou pressão de venda generalizada de moedas de países emergentes como um todo. Mas a volatilidade atual não é prenúncio de uma desaceleração permanente dessas economias como um todo. A diferenciação é necessária — e é isso que os mercados financeiros estão fazendo agora.

A escala do desgaste varia amplamente de país a país. Exemplo disso são os problemas que atualmente assolam a Argentina. Eles podem ser tudo, menos uma surpresa. Ao contrário, são o resultado de anos de anos de má gestão política, que resultou em inflação elevada, moeda supervalorizada e corrosão maciça das reservas externas.

Por outro lado, as moedas dos mercados emergentes da Europa Central e Oriental permaneceram relativamente estáveis. Por exemplo, graças ao desempenho robusto da economia da Polônia, a moeda local (o złoty) manteve sua taxa de câmbio estável em relação ao euro, caindo apenas 2,2% desde o começo do ano. O forint húngaro registrou queda de pouco mais de 5% em relação à moeda única no mesmo período — menos que no passado, quando problemas macroeconômicos do país tornaram a taxa de câmbio mais vulnerável às mudanças de perspectiva de mercado.

A estabilização da economia da zona euro e a redução dos desequilíbrios têm ajudado a melhorar as perspectivas de crescimento para os países da Europa Central e Oriental. Além disso, a maioria dessas nações tem feito progressos ao controlar seus próprios desequilíbrios. Por outro lado, a moeda russa continuou sua longa trajetória em queda livre este ano, caindo mais de 5,5% desde o início de janeiro. Os motivos são, principalmente, internos: o frágil clima para investimentos, pesadas saídas de capital e amplo déficit em conta corrente.

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Olhando para a América Latina também notamos grandes diferenças regionais. O peso argentino, o principal culpado da região, despencou 19% em relação ao dólar este ano. No Brasil, as perdas do real em 2014 têm sido relativamente baixas, mas isso vem da forte depreciação no ano passado. O capital também está deixando o México e o Chile.

A dependência da região em relação às commodities é preocupante. Se o crescimento econômico chinês se mostrar mais fraco que o esperado, os preços das commodities e as exportações estão propensos a cair, prejudicando o crescimento dos países latino-americanos.

No entanto, como os indicadores de produção industrial globais sobem desde o segundo semestre de 2013, assinalando melhorias nas economias avançadas, as previsões negativas para os mercados de commodities podem estar equivocadas.

Até agora, as perdas cambiais asiáticas estão limitadas. A moeda sul-coreana (o won) sofreu uma grande queda (de 3%) entre o início do ano até fevereiro (resultado de uma tendência ascendente prolongada no ano passado). As moedas indiana e indonésia têm aguentado bem a tempestade, após uma queda abrupta em 2013. A rúpia, sobrecarregada por um crônico déficit em conta corrente, o avanço da inflação e uma acentuada desaceleração no crescimento, perdeu 11% ao longo do ano passado.

Paradoxalmente, a China, país atualmente sob intensos holofotes, é a única grande economia emergente cuja moeda subiu ligeiramente em relação ao dólar. Fato notável quando se leva em conta os enormes desafios que a China enfrenta – como o de reequilibrar o seu modelo de crescimento para arcar com a bolha de crédito imobiliário. Autoridades chinesas estão prestes a apertar a política monetária e impor medidas reguladoras para refrear o risco sobre a dívida, que implica sacrificar o crescimento econômico de curto prazo e recolocá-lo numa base estável. Evidentemente, os mercados acham que as autoridades estão à altura da tarefa.

A Turquia, um país cujo enorme potencial de crescimento é marcado por grandes desequilíbrios, não foi tão feliz. A lira turca está sendo ridicularizada, caindo mais de 7% em relação ao euro desde janeiro — e 24% desde meados do ano passado. Mas a vulnerabilidade do país à brusca mudança nos mercados financeiros era previsível. Déficits em transações correntes (financiados principalmente pela entrada de capitais de curto prazo), a incerteza política interna e os últimos episódios da política monetária pouco ortodoxa têm prejudicado toda confiança do investidor nos últimos meses. Como na China, os processos necessários de ajustamentos vão pesar sobre o crescimento no curto prazo, embora as perspectivas de médio e longo prazo sejam positivas.

Os mercados financeiros estão evidentemente castigando as moedas dos países, que, devido a desequilíbrios macroeconômicos ou instabilidade política, são suscetíveis a choques externos de qualquer tipo. Com efeito, alguns participantes temem que a espiral de depreciação, aumento da inflação e taxas de juros ascendentes possam expandir a crise de confiança numa escala maior.

Mas, por enquanto a retirada de capital não pode ser descartada, pois nem todos os investidores nadam a favor da maré. Com os preços dos países afetados por essa crise a um patamar muito mais favorável, as medidas de estímulo à confiança poderiam incentivar futuros investidores a testar essas águas.

Em termos gerais, as desvalorizações podem ajudar a aumentar a competitividade e reduzir os déficits externos. Mas, no curto prazo, essas desvalorizações podem agravar problemas econômicos porque incitam maiores reivindicações salariais, alimentando a pressão inflacionária e aumentando os custos de financiamento externo.

Nestas circunstâncias, a política monetária deve desempenhar um ato de equilíbrio. Para combater o aumento da inflação doméstica, os bancos centrais precisam elevar as taxas de juros – sem sufocar o mercado. Os políticos estão mais propensos a ter sucesso em suas empreitadas à medida que reformas internas abordem os desequilíbrios macroeconômicos e outros obstáculos para o crescimento de longo prazo.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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