Durante o 8º Fórum internacional de seguros para jornalistas, organizado pela Allianz Seguros, o economista-chefe do grupo, Michael Heise, disse que a transição demográfica terá mais impacto nos países em desenvolvimento. “Enquanto na Ásia, e na maior parte da América Latina, os índices de fecundidade permanecem positivos, na Europa isso já não ocorre mais. A maioria dos países recuou nas décadas de 1970 e 1980. A expectativa dos demógrafos é a de que essa tendência comece a ocorrer na Ásia e América Latina a partir da próxima década. Diferente do resto do continente latino-americano, no Brasil isso já está acontecendo também”, explica.
O fórum abordou os impactos das mudanças demográficas no setor de saúde, assim como alternativas para o gerenciamento dos custos nos setores público e privado. André Portela, da FGV, e o Marcelo Caetano, IPEA, também participaram do debate, que durou todo o período da manhã.
Michael Heise tem se dedicado nos últimos anos, ao debate de questões de impacto na economia mundial. Em seu mais recente livro, Emerging from the euro debt crisis (Emergindo da crise do euro), ele aborda as saídas para o crescimento no bloco europeu. Agora, no Brasil, ele discutiu como minimizar os efeitos do envelhecimento da população na economia. Acompanhe esta entrevista, onde o economista fala sobre os desafios dessa transição, e alerta: é preciso repensar o papel dos trabalhadores acima dos 50 anos e dar espaço aos profissionais que se aproximam da terceira idade.
De que maneira diferem as mudanças demográficas nos países desenvolvidos e em desenvolvimento?
Na maioria dos países, as taxas de fertilidade estão caindo, ao passo que a expectativa de vida aumenta. Em função disso, estamos assistindo ao envelhecimento da população mundial em ritmo dobrado. Mas há diferenças importantes. Enquanto na Ásia e América Latina os índices de fecundidade permanecem positivos, superiores 2,1 filhos por mulher, na Europa isso já não ocorre mais. A maioria dos países recuou da barreira de dois filhos por mulher nas décadas de 1970 e 1980. A expectativa dos demógrafos é a de que essa tendência comece a ocorrer na Ásia e América Latina a partir da próxima década. No Brasil isso já acontece.
A expectativa de vida dos países em desenvolvimento está acompanhando as mesmas tendências da Europa?
Sim. A expectativa de vida aumentou marcadamente ao longo das últimas décadas, principalmente na Ásia, embora os índices mais elevados continuem se encontrando nos países industrializados. O conjunto dessas tendências revela que os países em desenvolvimento enfrentarão os desafios impostos pelo envelhecimento da população em um ponto mais distante no tempo. Porém, o período de transição será muito mais curto na comparação com as economias industrializadas.
O Brasil vive hoje um problema de escassez de mão de obra qualificada. Como convencer trabalhadores bem preparados a estender sua permanência no mercado no momento em que se aproximam da aposentadoria?
Para minimizar os efeitos demográficos de uma população em fase de envelhecimento, seja na oferta de mão de obra ou no sistema de previdência, é necessário aumentar a participação dos trabalhadores mais velhos no mercado. Para alcançar esse objetivo, é preciso mudar o ambiente laboral, com programas de formação continuada e planos de carreira para profissionais acima dos 50 anos. É preciso ainda repensar processos e readaptar o local de trabalho para atender às necessidades específicas desses empregados. Oferecer telas maiores de computador é um pequeno exemplo.
Como equacionar os desafios econômicos impostos aos sistemas de previdência e planos de pensão?
Incentivos a quem se aposenta cedo, como generosos pacotes de benefícios, deveriam ser abolidos com a introdução de mecanismos de dedução para quem requer sua pensão antes do cumprimento do período de contribuição. Isso pode ser feito aumentando os índices de expectativa de vida que são usados no cálculo dos planos de aposentadoria. Por outro lado, a pré-condição mais importante para essa transição é assegurar oportunidades de trabalho para a população acima dos 60 anos. Se isso não acontecer, pode surgir uma tendência ascendente de pobreza na faixa mais velha da população.


















