A curiosidade das pessoas em saber como fiquei tão especializada em seguros aumentou depois de ganhar mais um prêmio. Esse foi o sexto. Cinco com seguro e um da revista Imprensa, chamado Jornalista do Futuro, numa premiação promovida pela editora Abril em 1990, logo quando me formei.
Bem, nada melhor para explicar minha origem em seguros — cobertura que me rendeu três troféus da Allianz, um Gaivota, da revista Seguro Total, e um da Segurador Brasil — do que o capítulo escrito por mim para o livro “Matías M. Molina – O Ofício da Informação – Um perfil com vários autores”.
Como diz Vera Brandimarte, diretora da redação do Valor Econômico, “o rigor e dedicação do editor marcaram a formação de mais do que uma geração de jornalistas econômicos e foram fundamentais na construção de um dos mais reputados jornais econômicos dos anos 1980 e 1990. Historiador meticuloso e culto… profissional que inspira admiração e respeito…amigo de todas as horas”. E eu tive o grande privilégio de aprender muito com ele.
(Thomaz Souto Correia, Celso Nucci, Denise Bueno e Cristiane Segatto na premiação Jornalista do Futuro)
Segue o texto publicado no livro citado:
Peinnnnnnnnnnnnnnnnn. A estridente campainha, tocada por Matías M. Molina, editor chefe da Gazeta Mercantil, rompia o silêncio matinal da redação do principal jornal de economia do Brasil na época. Eu chegava quase sempre antes dele, as 9 horas da manhã. Arrumava tudo na minha mesa. Checava a agenda, lia os títulos do jornal, comparava com os concorrentes, me detinha em uma ou outra matéria.
Tudo isso para ficar antenada e decifrar com mais facilidade o que o seu Molina, com seu sotaque espanhol, iria me pedir ao longo do dia. Poucos entendiam de bate e pronto o que ele falava. Tanto pelo sotaque como pela pressa. Ele corria muito naquela época para produzir um jornal sem internet. É. Não tinha internet. O telex era o que existia de mais moderno.
Quando o tom do noticiário era o dólar, sabia que chamaria a Ângela Bittencourt e a Maria Cristina Carvalho várias vezes. Se era a crise externa, Mara Luquet e os correspondentes de Londres e de Washington, Celso Pinto e Getúlio Bittencourt. E assim seguia com Márcia Raposo comandando a editoria de indústria, Marília Stabile em nacional, Vera Brandimarte em agribusiness.
Seu Molina admirava o interesse das pessoas por informações. Pelo saber. Não se importava de explicar quantas vezes fosse necessário. Ou repetir, pois tinha consciência de que poucos o entendiam. A pessoa podia não entender nada de economia. Mas tinha de ter boa vontade para ganhar pontos com aquele senhor tímido e estilo sabe tudo.
No início, fiquei perdida em exercer meu papel como secretária. Não podia mexer na mesa dele. Segredos? Não. Pelo contrário. Jornalistas adoram revelar segredos. Milhões de jornais recortados e tiras que ele cortava do rolo trazido da sala de telex espalhados por toda a sala. Claudia, a secretária anterior, já tinha me alertado: você tem cara de certinha. Mas vou avisar. Se quiser se dar bem com ele, não tire nenhum papel do lugar.
Difícil conviver com aquela bagunça sem poder arrumar. Para ele aquele caos era a mais completa ordem. Impressionante como ele encontrava tudo que procurava. E sabia quando eu mexia. As vezes não resistia e juntava tudo em um canto da mesa para abrir um lugar para ele trabalhar. Ele ficava doido por alguns segundos. Sim. Só por alguns segundos, pois sua mente era inundada o tempo todo por centenas de informações úteis para produzir o jornal que pautaria os concorrentes do pais e também do mundo.
Desisti de tentar dar um tom de ordem naquela sala típica de jornalista de uma época sem internet quando percebi a verdadeira intenção daquele senhor de cabelos e barbas grisalhos, que aparentava ter mais idade do que realmente tinha. Apesar de seu Molina dirigir um dos principais jornais de economia do mundo e estar ligado em tudo o que acontecia no globo terrestre – desde um leilão de sucata até o que seria discutido no Palácio do Planalto –, o principal fato do dia para ele era uma banalidade para muitos: a vida.
Ele se empenhava em levar conhecimento e sabedoria aos que o cercavam. Ele sabia que para fazer um jornal digno tinha de respeitar a inteligência do leitor. A sua equipe precisava estar comprometida a transformar o “economês” dos economistas, o discurso dos políticos e o poder dos banqueiros em uma mensagem simples para a sociedade: as atitudes tomadas por eles vão mexer com o seu bolso e, portanto, com a sua vida.
Tal propósito me encantou e por isso foi fácil me acostumar a entrar em sua sala pela manhã para tirar uma xícara de chá e um pratinho onde colocava, diariamente, às 17 horas, sua fruta do dia. Fora isso, só entrava lá quando me chamava ou quando eu percebia que o clima estava ficando muito tenso. “Aceitam um chá”, perguntava com a intenção de fazer o grupo parar para respirar.
Para ele era vital que as pessoas estivessem conectadas com a família, com os amigos. Ao mesmo tempo tinham de cultivar a individualidade e se dedicarem ao próprio crescimento pessoal e profissional. Estimulava que todos apreciassem obras de arte e escutassem seus corações, despertando assim a intuição, matéria prima da ética e, consequentemente, das entrevistas. De forma singela, ele construía o caminho mais seguro para seus pupilos produzirem um jornal impresso de economia cada dia melhor. Assim, teria fôlego para enfrentar o que já estava por vir: a democratização da informação por meio da internet.
Depois de perceber esse jeitão Molina de ser, comecei a me concentrar em ajudá-lo a ganhar tempo, já que esse era seu maior desafio: dar conta de tudo que acontecia no mundo sem ter internet. Isso fazia dele uma espécie de google dos jornalistas, que recorriam a ele como fonte de dados e de pesquisa. E ele encontrava tudo naquele monte de papéis apinhados em sua mesa.
Seu humor era influenciado pelos altos e baixos da economia na década de 90, marcada pelas sucessivas crises externas, guerra cambial, aceleração inflacionária e desigualdade de renda da população brasileira. Ele entrava feito uma bala na sala no quarto andar, a única fechada da redação. Se eu não estivesse atenta, achava que tinha visto apenas um vulto passar. Nada de bom dia ou boa tarde. Mais lia do que falava.
Eu gostava de contar para medir o humor dele. Ao cruzar a baia para o salão da redação, dividido por grupos de mesas que representavam as editorias, ligava o cronometro mental. Um, dois, três….Mal me mandava distribuir os picotes nas mesas da redação e ele já tocava a campainha de novo. Quando a contagem chegava ao dois, era certo que seria um dia agitado. Se chegava ao dez antes do “peinnnnnn, todos teriam um dia mais tranqüilo.
Poucas vezes fui fazer algo a seu pedido e voltei sem ser aterrorizada pelo som estridente daquele arcaico chamador de secretaria e pelo olhar dos editores que acompanhavam o meu corre-corre. Muitas vezes sentia olhares de compaixão. No meu íntimo eu achava engraçada aquela situação. Todos pensavam que eu estava triste e humilhada. E eu estava feliz, adorando conhecer o bastidor do quarto poder de um país.
Minha principal tarefa era mantê-lo calmo. Todos ganhariam com esse esforço. O dia seria produtivo, os jornalistas poderiam se dedicar com mais calma a suas entrevistas e textos. Como resultado, um jornal respeitado por sua veracidade e autenticidade e responsável por educar financeiramente a sociedade. Essa era a meta do seu Molina. E também a minha. Tal sonho, dizia ele, só seria conquistado com uma população mais culta, capaz de eleger políticos mais comprometidos.
Tive o melhor estágio que uma estudante de quarto ano de jornalismo poderia sonhar. Cheguei na redação em março de 1990, logo após Fernando Collor de Mello ter assumido como presidente da República e confiscado todos os ativos financeiros do país da noite para o dia. Ou seja, aquela campainha passou a ser música para meus ouvidos logo de cara.
Para compensar o estresse de cada dia (afinal, não é fácil conviver com uma pessoa tão ansiosa como seu Molina), eu era recompensada pelo conhecimento. Passava dez horas por dia ao lado do cérebro do melhor jornal de economia do Brasil. Aprendia a cada minuto a importância de se preparar para uma entrevista, o que deveria observar no entrevistado para saber o rumo das perguntas. “Ele respondeu isso olhando nos seus olhos?”, perguntava o editor a seus repórteres quando desconfia da informação. “Como ele tratou a secretária?”, continuava, caso ainda quisesse checar a veracidade das informações passadas pela fonte ao seu repórter.
Queria muito retribuir a ele a tremenda oportunidade que estava me dando de desfrutar de seu experiência. Fazia de tudo para livrá-lo das mínimas coisas, pois nas grandes sua equipe dava conta. Como quem não quer nada, quando chamava os jornalistas que ele solicitava, ia dizendo no caminho de volta: “Nossa, seu Molina tá bem agitado com as noticias hoje”. Essa era a frase mais comum para alertar a todos que o melhor a fazer era escutar e ficar quieto. Sem justificar nada naquele momento.
Outra frase típica para sinalizar que o dia seria exaustivo e seria melhor cancelar todos os compromissos pessoais era: “Acredita que seu Molina chegou na redação hoje com todos os jornais já recortados de casa?” Nesses dias, o lucro era do disk pizza e dos leitores, que apreciavam um jornal repleto de furos. Muitos deles gerados pela leitura do Diário Oficial, função delegada por seu Molina ao Yves Leon.
Dessa forma contribuía para equilibrar as expectativas de cada um. Geralmente dava certo. As vezes não. Quando alguém tentava justificar algo no dia em que ele estava na contagem dois da campainha, já ia marcando o nome na agenda. Seria o próximo a ser chamado para um bate papo informal durante os 15 minutos do tradicional cafezinho no Estadão, bar que ficava em frente ao jornal. Nesses minutos, nada de falar de trabalho. Só da vida. Era uma forma de pedir desculpas pela falta de paciência.
Enquanto ele era um furação para as coisas do intelecto, era sutil como um pássaro para ver a alma das pessoas. Da mesma forma que ficava furioso quando via um título errado, ficava com seu coração partido ao sentir que alguém estava triste. Quando percebia, como quem não quer nada, colocava as duas mãos no ombro da pessoa, geralmente sentada em frente a máquina de datilografar ou a espera do telefone (os repórteres dividiam o telefone naquela época) e dava um sorriso: “me paga um café?”. Ele nunca almoçava. Se o assunto era mais sério, ele chamava para uma pizza após o fechamento do jornal. Depois das 23 horas.
Essa foi a rotina que compartilhei com seu Molina durante um ano como sua secretaria. Um dos melhores anos da minha vida. Período marcado por um grande desenvolvimento da minha mente e da minha alma. Segundo ele, a melhor secretária do mundo. Quem o conhece, sabe que ele não é de fazer elogios. Quando faz, acredite. Você mereceu.
Foi com muita tristeza que deixei esse cargo e ainda para ganhar um salário 25% menor como repórter na redação. A tristeza de deixar de ser sua secretaria fez parte da dor do crescimento. Minha sorte foi continuar tendo o privilégio, por muitos anos, de ser uma de suas pupilas e poder contar com seus ensinamentos. “Você vai cobrir seguros. Hoje esse setor não é nada no Brasil. Mas logo será e você vai ser uma grande referência nesse setor. Tenho certeza”.
Como sempre, ele vislumbrou o futuro. Assim como o seu Molina vê o Lloyd`s of London, o berço do seguros do mundo, com três séculos de existência, único capaz de ter a inteligência e flexibilidade para desenhar proteção para qualquer tipo de risco, eu o vejo: se ele não existisse, ninguém tentaria inventá-lo. Inovou, ousou e foi original para acompanhar o pulsar da vida. E os dois tinham outra característica comum: tocavam o sino para divulgar uma notícia.



















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que legal saber disso renata. voce é parente do fernando milliet?
Gostei da sua história, e, principamente da forma com você a relatou! Sou advogada e gostaria muito de ter cursado jornalismo também, porém não vislumbrei em outras épocas essa possibilidade.Solicitada a alimentar o portal de notícias da Audatex Brasil desde 2009, tenho o gostinho de um jornalismo feito de uma forma muito pessoal e sem crítica, somente a minha própria.O setor automotivo e a área de seguro são os temas principais desse portal, daí porque dei de cara com seu blog! Não passo uma semana sequer sem consultá-lo! beijo e obrigada
Denise,
Muito legal este relato sobre teu começo. Sou leitor ávido de jornais desde os 14 anos, e admiro muito a profissão de jornalista.
Parabéns!!!
Abraços,
Alberto Kessel