Os investimentos globais em inteligência artificial (IA) e a crescente fragmentação geopolítica estão transformando o perfil de riscos da economia mundial e ampliando a demanda por soluções de seguros e resseguros. É o que aponta o novo relatório sigma, do Swiss Re Institute, divulgado nesta terça-feira (8), que projeta um crescimento mais moderado do mercado segurador global em 2026, em meio a um ambiente de inflação persistente, desaceleração econômica e sucessivos choques nas cadeias de suprimentos.
Segundo o estudo World Insurance in 2026: Shock absorbers in a fragmenting world, o crescimento real dos prêmios globais deverá desacelerar para 1,3% em 2026, ante 3,9% registrados em 2025. Ainda assim, a indústria de seguros ganha relevância estratégica ao oferecer proteção para novos investimentos em infraestrutura, energia, tecnologia e cadeias produtivas mais resilientes.
A inflação global, que o instituto espera que atinja uma média de 4% este ano, e o consequente ambiente de juros mais elevados continuarão a beneficiar o seguro de vida, cujos prêmios devem crescer 2,3% em termos reais em 2026, acima da tendência de longo prazo, de acordo com o relatório.
Para o economista-chefe do Grupo Swiss Re, Jérôme Haegeli, o mais recente conflito no Oriente Médio representa mais um episódio de uma nova realidade econômica marcada pela instabilidade geopolítica.
“O conflito no Oriente Médio não é um choque isolado, mas mais um sinal de que o risco geopolítico se tornou uma característica estrutural da economia global. À medida que as economias investem em infraestrutura de IA, sistemas de energia e cadeias de suprimentos mais resilientes, surgem novos conjuntos de riscos. O seguro tem um papel fundamental não apenas na mitigação desses riscos, mas também em viabilizar essa transformação econômica”, afirma.
Economia global enfrenta novo ciclo de choques
O relatório destaca que o conflito no Oriente Médio se tornou o quarto grande choque de oferta enfrentado pela economia mundial em apenas seis anos, após a pandemia, a crise energética e as interrupções no comércio internacional.
Como consequência, o Swiss Re Institute estima que a inflação global alcance média de 4% em 2026, cerca de um ponto percentual acima das projeções anteriores ao conflito, enquanto o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial deverá desacelerar para 2,5%.
O cenário também indica juros elevados por um período mais prolongado, refletindo a maior percepção de riscos inflacionários, fiscais e geopolíticos. Na avaliação dos pesquisadores, governos e empresas estão abandonando o modelo de cadeias produtivas baseadas no conceito de just in time para priorizar estruturas mais resilientes, no modelo just in case, reduzindo dependências de fornecedores e fortalecendo a segurança das operações.
IA impulsiona novo ciclo global de investimentos
Ao mesmo tempo em que os choques de oferta pressionam a economia, os investimentos em inteligência artificial inauguram um dos maiores ciclos globais de investimentos em infraestrutura das últimas décadas. O estudo estima que os grandes grupos de tecnologia — conhecidos como hyperscalers — investirão cerca de US$ 750 bilhões em infraestrutura de IA em 2026, incluindo centros de dados, redes de energia e manufatura avançada. Segundo o levantamento, esses investimentos deverão acrescentar entre 0,2 e 0,3 ponto percentual ao crescimento da economia norte-americana.
Para o CEO da Swiss Re Corporate Solutions, Ivan Gonzalez, esse movimento cria uma nova fronteira para o mercado segurador. “À medida que a economia global e as cadeias de suprimentos se tornam mais fragmentadas, cresce a demanda por soluções especializadas para apoiar o comércio internacional, investimentos e continuidade dos negócios. Ao mesmo tempo, o boom da IA impulsiona investimentos sem precedentes em infraestrutura. Alguns dos maiores data centers dedicados à inteligência artificial já possuem ativos superiores a US$ 20 bilhões antes mesmo da instalação dos equipamentos tecnológicos, gerando riscos relevantes de construção, operação e concentração”, afirma. Segundo ele, esses riscos exigem soluções que vão além do seguro tradicional, combinando engenharia de riscos, mecanismos alternativos de transferência e financiamento.

Seguro de danos desacelera, mas mantém rentabilidade
O segmento global de seguros de danos (non-life) deverá entrar em uma fase mais moderada do ciclo de subscrição. O relatório projeta crescimento real de apenas 0,6% dos prêmios em 2026, bem abaixo da média anual de 3,6%registrada entre 2015 e 2024.
Apesar da desaceleração, o estudo ressalta que fatores como inflação de sinistros, aumento das perdas catastróficas e incertezas geopolíticas deverão impedir uma queda mais acentuada dos preços.
Mesmo em um ambiente mais competitivo, a rentabilidade permanece elevada. O retorno sobre o patrimônio (ROE) das seguradoras de danos deverá alcançar 11,4% em 2026, abaixo do pico de 14% observado em 2025, mas ainda sustentado pelos maiores rendimentos financeiros proporcionados pelas taxas de juros.
O relatório também projeta continuidade do crescimento do mercado global de seguros de vida. Os prêmios deverão avançar 2,3% em termos reais em 2026, acima da tendência histórica, impulsionados pelo ambiente de juros mais elevados, que favorece produtos de acumulação e anuidades. Nos mercados emergentes, o desempenho deverá ser ainda mais robusto, apoiado pelo envelhecimento populacional, reformas regulatórias e aumento da penetração dos seguros.
Segundo o Swiss Re Institute, o cenário reforça a perspectiva de rentabilidade para as seguradoras de vida, uma vez que os maiores retornos obtidos nos reinvestimentos continuam fortalecendo as receitas financeiras e sustentando os resultados do setor.























