Mudanças climáticas ampliam riscos fiscais para governos, alerta Moody’s

Estudo, divulgado nesta terça, mostra que lacunas de proteção securitária transferem parte crescente dos prejuízos climáticos para os cofres públicos, elevando pressões sobre orçamento, dívida e crescimento econômico

As mudanças climáticas representam uma ameaça cada vez maior não apenas para empresas e populações, mas também para a saúde financeira dos governos. No estudo “Credit risk of floods in the UK is contained For now”, divulgado nesta segunda-feira, a Moody’s alerta que as chamadas “lacunas de proteção” — parcela dos prejuízos não coberta por seguros — podem deteriorar a qualidade de crédito de países, estados e municípios ao transferirem para o setor público uma parcela crescente das perdas causadas por desastres naturais.

No estudo Catastrophic events in an uncertain future: A pending $41 trillion bill for businesses and governments to resolve publicado em setembro passado, traz números assustadores. Segundo os autores, as mudanças climáticas poderão provocar perdas econômicas globais de US$ 41,4 trilhões até 2050, o equivalente a uma redução de 14,5% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, caso não sejam adotadas novas políticas de transição climática. A estimativa analisa os impactos dos chamados riscos físicos — tanto os eventos extremos quanto os efeitos graduais do aquecimento global — sobre economias, empresas e sistemas financeiros.

Embora as projeções se estendam até meados do século, os sinais já são visíveis. O estudo lembra que as catástrofes naturais registradas em 2024 provocaram perdas econômicas estimadas em US$ 320 bilhões e perdas seguradas de aproximadamente US$ 140 bilhões, segundo dados da Munich Re. Foi o quinto ano consecutivo em que as perdas seguradas globais ultrapassaram a marca de US$ 100 bilhões.

Além dos danos diretos à infraestrutura e aos ativos físicos, a Moody’s destaca efeitos indiretos que tendem a se tornar cada vez mais relevantes. Entre eles estão a redução da produtividade dos trabalhadores expostos ao calor extremo, o deslocamento populacional provocado por eventos climáticos, a pressão sobre os sistemas urbanos e o aumento dos gastos públicos com reconstrução e assistência social. 

A análise do estudo de hoje amplia o debate sobre adaptação climática em um momento crucial para a agenda internacional. À medida que eventos extremos se tornam mais frequentes e severos, governos em todo o mundo enfrentam o desafio de financiar reconstruções, apoiar comunidades afetadas e manter a atividade econômica após grandes catástrofes.

Segundo a Moody’s, quando residências, empresas e propriedades estão insuficientemente seguradas, a pressão política e social faz com que os governos atuem como “seguradores de última instância”, assumindo despesas extraordinárias com reconstrução, habitação temporária, recuperação de infraestrutura e apoio econômico às regiões atingidas.

“O impacto dos desastres não se limita às perdas materiais. Eles afetam a arrecadação tributária, reduzem investimentos, interrompem cadeias produtivas e pressionam os gastos públicos justamente quando a capacidade fiscal já está sob tensão”, destaca o relatório.

O custo da falta de seguro

A Moody’s define a lacuna de proteção como a parcela dos prejuízos econômicos que permanece sem cobertura securitária. Quanto maior essa diferença, maior tende a ser o impacto sobre as finanças públicas.

O estudo lembra que mesmo economias avançadas enfrentam esse desafio. Nos Estados Unidos, pesquisas anteriores da agência identificaram perdas não seguradas relacionadas a enchentes entre US$ 375 bilhões e US$ 1 trilhão em diferentes cenários extremos.

Na Alemanha, as enchentes de 2021 ilustram o problema. Com apenas cerca de 47% dos imóveis segurados na Renânia do Norte-Vestfália e 37% na Renânia-Palatinado, grande parte dos custos acabou recaindo sobre o setor público. Como resposta, foi criado um fundo de reconstrução de € 30 bilhões financiado conjuntamente pelo governo federal e pelos estados alemães.

Já no Paquistão, as inundações de 2022 provocaram perdas equivalentes a aproximadamente 10% do PIB nacional, enfraquecendo o crescimento econômico, elevando a inflação e ampliando significativamente o déficit fiscal. A Moody’s destaca que fragilidades institucionais agravaram ainda mais os efeitos sobre a solvência do país.

Reino Unido mostra avanços, mas enfrenta desafios

O relatório usa o Reino Unido como exemplo de um sistema relativamente bem protegido. Atualmente, a lacuna de proteção contra enchentes no país gira em torno de apenas 10% das perdas econômicas relacionadas a inundações, percentual considerado baixo em comparação com outros mercados.

Grande parte desse resultado é atribuída ao Flood Re, mecanismo criado em parceria entre governo e mercado segurador para garantir acesso ao seguro residencial em áreas de alto risco de inundação. O programa funciona como um sistema de resseguro que permite às seguradoras oferecer cobertura a preços acessíveis para proprietários expostos a enchentes.

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Apesar do sucesso da iniciativa, a Moody’s alerta que sua sustentabilidade está sob pressão. O aumento da frequência e da severidade das enchentes vem elevando os custos do programa, ao mesmo tempo em que a exposição ao risco climático continua crescendo.

Segundo estimativas do Comitê de Mudanças Climáticas do Reino Unido, cerca de 7 milhões de propriedades estavam expostas ao risco de inundação em 2025. Esse número pode crescer 40% até 2050, mesmo em cenários alinhados às metas do Acordo de Paris.

A Moody’s calcula que, sob um cenário climático intermediário para 2050, as perdas anuais não seguradas decorrentes de enchentes poderão aumentar cerca de 30% em comparação com os níveis atuais.

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Seguros entram no centro da adaptação climática

A conclusão da Moody’s reforça uma tendência observada globalmente: o seguro está deixando de ser apenas um mecanismo de indenização para se tornar peça central das estratégias de adaptação climática.

A discussão ganha relevância justamente nesta semana, quando a CNseg lidera uma missão de executivos brasileiros em Londres para participar da London Climate Action Week, um dos principais fóruns globais sobre sustentabilidade e mudanças climáticas.

A iniciativa faz parte de uma estratégia iniciada em 2023, com a participação da entidade na COP28, e que ganhou força à medida que seguradoras e resseguradoras passaram a integrar de forma mais ativa os debates internacionais sobre financiamento da adaptação, resiliência climática e proteção de populações vulneráveis.

As perdas relacionadas a tragédias climáticas são estimadas em R$ 500 bilhões na última década no Brasil, mas a cobertura de seguros desse montante é muito pequena, segundo a CNseg. Ao mesmo tempo, estudos mostram que as mudanças climáticas podem representar um custo de até R$ 17 trilhões no PIB brasileiro até 2050 caso nada seja feito para minimizar o impacto das mudanças climáticas no país. Apenas as enchentes do Rio Grande do Sul em 2024 responderam por R$ 100 bilhões nesta década, dos quais somente R$ 6 bilhões tinham a proteção de empresas seguradas.

O tema deverá ganhar ainda mais destaque na COP31, em novembro. Para especialistas, a ampliação da cobertura securitária e o desenvolvimento de mecanismos de transferência de riscos serão fundamentais para reduzir a pressão sobre os cofres públicos e fortalecer a capacidade de resposta das economias diante de um cenário de eventos extremos cada vez mais frequentes.

Para a Moody’s, a mensagem é clara: sem instrumentos adequados de proteção financeira, os impactos das mudanças climáticas tendem a migrar dos balanços de seguradoras e empresas para os balanços dos governos, ampliando riscos fiscais e comprometendo a capacidade de investimento das próximas décadas.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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