Por Hélio Kinoshita, managing partner de Seguros da águilahub e sócio da Olik e conselheiro do Grupo Sabemi
Durante décadas, a tecnologia no setor de seguros foi tratada como uma função essencialmente operacional, uma atividade-meio. Sua principal função era garantir que os sistemas funcionassem, que as apólices fossem emitidas corretamente, que os sinistros fossem processados e que as exigências regulatórias fossem cumpridas. Era uma base necessária, mas distante das decisões estratégicas do negócio.
Boa parte das seguradoras ainda opera sobre esse modelo construído ao longo de décadas. Sistemas legados, processos fragmentados e forte dependência de atividades manuais continuam presentes em muitas organizações. Ocorre, no entanto, que, em um ambiente que exige velocidade, integração e personalização, essa base passa a representar não apenas um desafio operacional, mas uma limitação estratégica.
Antes de seguirmos, uma reflexão: o modelo começou a se tornar insuficiente à medida que o ambiente competitivo se transformou. O setor segurador, historicamente mais conservador, passou a enfrentar uma combinação de pressões que aceleraram a necessidade de mudança. A evolução do comportamento do consumidor, a entrada de novos players digitais e a busca por maior eficiência operacional criaram um cenário em que a tecnologia deixou de ser suporte e passou a ser determinante.
Hoje, mais do que captar e acompanhar de perto a base de dados dos clientes, é fundamental tratar esses dados como forma de “virar” a operação de seguros, de um modelo reativo para um sistema mais moderno e preditivo, identificando, por exemplo, os riscos associados a eventos climáticos e seus impactos no seguro rural. Nesse ambiente de “virada”, olhamos também para o desenvolvimento de novos produtos e para uma melhoria nos sistemas de precificação, tendo em vista justamente a já mencionada maior acurácia na predição. Por fim, olhamos para um aprimoramento na detecção das fraudes, reconhecido fator de custos – e voltamos a outro fator mencionado, a melhoria da precificação. Tudo se conecta.
Essa transformação tecnológica começa, em muitos casos, pela digitalização da jornada do cliente. Processos que antes eram lentos e burocráticos passam a ser simplificados, com a adoção de canais digitais, automação e integração de dados. A contratação de seguros se torna mais fluida, e o atendimento ao cliente, mais ágil. No caso de sinistros, o uso de inteligência artificial e automação reduz prazos, melhora a experiência e aumenta a eficiência.
No entanto, limitar a transformação à digitalização de processos existentes é uma visão incompleta. O verdadeiro impacto da tecnologia no setor de seguros está na forma como ela altera a lógica de criação de valor. O uso intensivo de dados permite uma avaliação de risco mais precisa, com modelos analíticos que incorporam um volume maior de variáveis e oferecem uma visão mais granular dos clientes. Isso possibilita não apenas uma precificação mais adequada, mas também a construção de produtos mais personalizados.
Ao mesmo tempo, novos modelos de distribuição começam a ganhar espaço. O conceito de embedded insurance ilustra bem essa mudança, ao integrar o seguro diretamente à jornada de consumo, seja em plataformas digitais, marketplaces ou serviços. O seguro deixa de ser um produto isolado e passa a ser incorporado de forma natural à experiência do cliente, ampliando o alcance das seguradoras e criando novas oportunidades de receita.
Esse novo cenário, no entanto, traz um aumento significativo na complexidade. A necessidade de integração com diferentes parceiros, a interoperabilidade entre sistemas e a adaptação a novas regulamentações, como o próprio open insurance, exigem uma arquitetura tecnológica mais moderna e flexível. A discussão deixa de ser apenas sobre adoção de novas ferramentas e passa a envolver a forma como a tecnologia é estruturada dentro da organização.
Um dos principais desafios está em equilibrar inovação com governança. O setor de seguros opera em um ambiente altamente regulado e sensível a riscos, o que exige que qualquer avanço tecnológico esteja alinhado a requisitos rigorosos de segurança, conformidade e controle. Isso demanda uma abordagem que combine modernização com disciplina, evitando tanto a rigidez excessiva quanto a adoção desordenada de soluções.
Nesse contexto, a transformação tecnológica não deve ser conduzida como um fim em si mesma, mas como um meio para gerar impacto real no negócio. Iniciativas bem-sucedidas são aquelas que conseguem identificar com clareza onde a tecnologia contribui para melhorar a experiência do cliente, aumentar a eficiência operacional ou aprimorar a gestão de riscos, evitando investimentos que não se traduzem em resultado.
O que se observa, de forma cada vez mais evidente, é a mudança do papel da tecnologia dentro das seguradoras. De uma função de suporte, ela passa a ocupar uma posição estruturante, influenciando diretamente a capacidade da empresa de crescer, inovar e competir. Esse movimento também redefine o papel dos executivos de tecnologia, que deixam de atuar apenas como gestores de infraestrutura e passam a participar ativamente da construção da estratégia.
Nosso setor sempre se caracterizou pela sua capacidade de adaptação ao longo do tempo. A diferença, neste momento, está na velocidade com que essa adaptação precisa acontecer. Empresas que conseguirem alinhar tecnologia, estratégia e execução terão condições de capturar novas oportunidades e se posicionar de forma mais competitiva. Por outro lado, aquelas que permanecerem presas a modelos tradicionais correm o risco de perder relevância em um mercado que se transforma rapidamente.
No fim, a tecnologia no setor de seguros deixa de ser apenas uma ferramenta para operar melhor o que já existe e passa a ser um elemento fundamental para viabilizar novas formas de fazer negócio.


















