Chegar ao cargo de CEO em um setor tradicionalmente masculino como o de seguros e resseguros tem, para Beatriz Protasio, um significado que combina orgulho e responsabilidade. “Liderar uma corretora de resseguros sólida e global como a Aon é a materialização de uma trajetória construída com muito trabalho, resiliência e propósito”, afirma. À frente da Aon Re, Beatriz vê a liderança como uma plataforma para transformar convicções em ações concretas, contribuindo para um ambiente colaborativo e sustentável no longo prazo — para a companhia, para o setor e para a sociedade.
Sua forma de liderar é fortemente ancorada em engajamento, colaboração e trabalho em equipe. “Acredito genuinamente que todas as pessoas têm algo a contribuir”, diz. Para ela, reunir profissionais com diferentes histórias, experiências e perspectivas não é apenas um valor cultural, mas um diferencial competitivo. “Times inclusivos são mais criativos e mais preparados para entregar soluções relevantes e inovadoras”, afirma, destacando que esse princípio está presente tanto na cultura da Aon quanto em sua atuação cotidiana como líder.
Beatriz reconhece os avanços recentes na agenda de diversidade e inclusão, mas reforça que o progresso exige compromisso contínuo. Empresas globais como a Aon, segundo ela, têm papel decisivo ao promover uma cultura de pertencimento e apoiar ativamente o desenvolvimento de lideranças. Um exemplo que a inspira é a liderança de resseguros para a América Latina, a quem se reporta. “É uma profissional brilhante, uma líder admirável, que mostra, na prática, que é possível ocupar esses espaços com competência e autenticidade.” Ao mesmo tempo, Beatriz destaca a importância de lideranças femininas apoiarem umas às outras, criando redes de suporte e fortalecendo as próximas gerações para que o êxito seja impulsionado por habilidades, sem vieses adicionais.
Quando o tema é diversidade em posições de alta liderança, Beatriz amplia o olhar para além do setor. “Esse não é um desafio exclusivo dos seguros, mas um reflexo de questões estruturais da sociedade”, afirma. Vieses, muitas vezes inconscientes, ainda dificultam o acesso equitativo a oportunidades estratégicas. Um dos pontos centrais, em sua visão, é garantir visibilidade e apoio ao desenvolvimento das carreiras femininas, promovendo acesso real às oportunidades.
Na prática, isso exige mais do que discurso. “Construir uma cultura de inclusão e pertencimento significa valorizar potencial, comportamentos e entregas de alto impacto”, diz. Para acelerar esse avanço, Beatriz defende processos mais estruturados e transparentes de desenvolvimento e sucessão, formação de lideranças conscientes de seu papel como agentes de inclusão e ambientes seguros, onde diferentes estilos de liderança sejam reconhecidos. E reforça: “O apoio entre mulheres profissionais é fundamental. Quando nos apoiamos e abrimos espaço umas para as outras, fortalecemos não só trajetórias individuais, mas a evolução do mercado como um todo.”
Olhando para 2026, Beatriz avalia que o setor de seguros e resseguros entra em um período em que incerteza e volatilidade deixam de ser circunstanciais e passam a ser estruturais. Esse cenário, segundo ela, é moldado pela convergência de quatro forças: comércio, tecnologia, clima e força de trabalho. Tensões geopolíticas, mudanças regulatórias e eventos climáticos extremos pressionam empresas, governos e cadeias globais de suprimentos, tornando a resiliência um imperativo estratégico.
A transformação digital, impulsionada pela inteligência artificial e pela IA generativa, redefine modelos de análise, precificação e tomada de decisão. “Ao mesmo tempo em que ampliam eficiência e precisão, essas tecnologias também aumentam a exposição a riscos cibernéticos e operacionais”, alerta. Compreender a evolução do risco digital e estruturar soluções eficazes de transferência e mitigação dessas ameaças será decisivo no próximo ciclo.
Nesse contexto, a Aon vem realizando investimentos globais significativos, integrando dados, análises avançadas e capacidades preditivas em suas plataformas. “Isso nos permite transformar insights em decisões acionáveis e apoiar clientes na antecipação de riscos emergentes”, explica Beatriz, destacando também o fortalecimento das estratégias de gestão de capital e de pessoas por meio da colaboração global.
O risco climático permanece no centro da agenda. Eventos extremos ampliam perdas econômicas e reforçam a necessidade de modelos preditivos mais robustos e soluções inovadoras. No Brasil, as soluções paramétricas ganham espaço pela agilidade e previsibilidade. Beatriz cita como exemplo a apólice paramétrica inédita contra incêndio florestal desenvolvida pela Aon para a Faber-Castell no país, ilustrando como inovação e análise de dados podem elevar a resiliência das organizações.
Para as mulheres que almejam posições executivas, Beatriz destaca competências que se tornam cada vez mais determinantes. “Qualificação contínua é essencial”, afirma, diante de um setor transformado por tecnologia, dados e novos modelos de risco. Soma-se a isso a resiliência e uma visão estratégica capaz de conectar riscos interdependentes — como clima, cadeias de suprimentos e cibersegurança — às decisões de negócios.
A liderança colaborativa aparece como outro diferencial-chave. “Traduzir complexidade em clareza, gerar confiança e construir pontes entre diferentes áreas humaniza a entrega de valor”, diz. Desenvolver pessoas, incentivar times inclusivos e criar ambientes de troca genuína são, para ela, atributos centrais da liderança contemporânea.
Se pudesse deixar uma mensagem para o início da carreira, Beatriz seria direta: “Não é preciso esperar estar 100% pronta para aceitar novos desafios.” O aprendizado, segundo ela, acontece muitas vezes no caminho. Também ressalta a importância de construir uma rede sólida de relacionamentos, buscar mentores e patrocinadores e dar visibilidade ao próprio trabalho com autenticidade. “Façam escolhas intencionais”, aconselha. “Carreiras executivas não são lineares — e, no setor de seguros, a capacidade de se adaptar, aprender e liderar em meio à incerteza é o que realmente faz a diferença.”


















