Como a Nova Lei de Seguros redefine eficiência, confiança e diferenciação no setor

por Felipe Nicola, Diretor de Seguros e Clima & Sustentabilidade da Oliver Wyman   

O mercado de seguros passa por um ciclo de redução de preços na América Latina, segundo dados do Relatório Global do Mercado de Seguros da Marsh. O movimento, que vem se acentuando desde o início deste ano, após um dos mais longos períodos de aumento de valores, reforça a necessidade de seguradoras estabelecerem estratégias pautadas na melhoria da experiência do cliente e maior eficiência, que resultem em aumento da penetração de seguros e maior rentabilidade.

Neste cenário, há espaço relevante de crescimento do mercado no Brasil, que exibe um gap de penetração quando comparado a países maduros, nos quais a presença de seguros varia entre 6% e 12% do PIB. Por aqui fica entre 1,5% e 3,0% do PIB, de acordo com fontes do setor, como Susep e Axco.

Apesar do avanço das seguradoras em novas propostas de valor, o Brasil ainda apresenta diversas dores e necessidades não atendidas dos clientes, o que cria barreiras para o aumento da penetração em todos os segmentos.

Para melhorar essa relação com os usuários, a Nova Lei de Seguros – que entra em vigor no próximo dia 11 -, busca elevar a clareza nas relações entre seguradoras e segurados, aumentar a segurança jurídica e melhorar a experiência do consumidor, ao mesmo tempo em que reforça as responsabilidades do próprio segurado. 

O escopo da nova legislação é amplo: cobre todo o ciclo de vida do produto, com mais de 130 artigos, resultando em mais de 20 mudanças estratégicas com impactos relevante para as seguradoras — incluindo aspectos tão diversos quanto o desenvolvimento de produtos, subscrição, gestão de apólices, sinistros e também resseguros.

Na subscrição, o questionário de risco passa a ser o instrumento formal para a aceitação do seguro, o que exigirá, sem dúvidas, maior rigor na coleta de informações e análise técnica prévia à decisão. Profissionais de mercado preveem questionários mais detalhados, o que impactará a eficiência dos subscritores e a experiência dos clientes, demandando, dessa forma, ajustes operacionais e tecnológicos.

Na regulação de sinistros, a nova regra determina um prazo de 30 dias para manifestação sobre a cobertura, com possibilidade de suspensão do prazo em até duas solicitações adicionais de documentação.

Adicionalmente, abre-se a possibilidade de compartilhar documentos da regulação diretamente com o segurado. A responsabilização também é ampliada, incluindo a responsabilidade solidária do regulador de sinistro, reforçando o papel de cada ator do segmento na fluidez e confiabilidade do processo.

Essa nova disciplina operacional favorece as seguradoras que adotam rapidamente ferramentas de analytics e Inteligência Artificial — tanto para otimizar a subscrição e cotação quanto para gerir prazos e decisões intermediárias na regulação de sinistros. 

Paralelamente, resseguradoras tendem a priorizar companhias que se adaptem com maior rapidez às exigências da Lei, criando uma pressão competitiva adicional na busca por capacidade.

Em um mercado “soft”, como o atual, agilidade tecnológica e compliance processual tornam-se diferenciais tangíveis, especialmente em um contexto em que o descumprimento de prazos pode implicar riscos relevantes à posição da seguradora no mercado.

Além dos impactos operacionais diretos, a Nova Lei de Seguros tende a reconfigurar a dinâmica competitiva do setor. Na subscrição, deverá ocorrer maior diferenciação entre seguradoras com competências técnicas avançadas em contrapartida àquelas com processos mais rígidos ou questionários extensos. 

Na regulação de sinistros, por sua vez, a eficiência e o cumprimento de prazos se tornam fatores críticos de confiança e fidelização, enquanto o menor volume de documentação e a transparência podem se converter em diferenciais de experiência.

Por fim, a Nova Lei leva a uma postura mais seletiva das resseguradoras, que deverão privilegiar parceiros com governança, compliance e eficiência.

Em resumo, a convergência entre um mercado mais competitivo e uma regulação mais granular define um novo roteiro estratégico para o setor: disciplina, transparência e tecnologia como alavancas essenciais para capturar o potencial de crescimento ainda inexplorado. 

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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