por Felipe Nicola, Diretor de Seguros e Clima & Sustentabilidade da Oliver Wyman
O setor de seguros é peça central na agenda climática, pois tem a capacidade única de precificar e gerir riscos em diferentes dimensões da transição climática. Isso inclui os riscos climáticos físicos — como enchentes, estiagens e eventos extremos — que exigem adaptação em projetos de infraestrutura, ou modelos inovadores, como seguros paramétricos no agronegócio.
Ao mesmo tempo, o segmento precisa lidar com riscos associados a tecnologias emergentes e de transição, sejam tecnológicos (ex. confiabilidade de novas soluções) ou de adoção e demanda (ex. infraestrutura para veículos elétricos, projetos de geração de biometano).
O setor segurador brasileiro avançou de forma significativa ao incorporar sustentabilidade na regulação prudencial (com a adoção da Circular 666, CNSP 473, ORSA). Ainda assim, sua eficácia depende de implementação consistente, com a adoção de métricas robustas, dados confiáveis e integração plena à estratégia. Nesse sentido:
- A Circular Susep nº 666/2022 foi um marco ao exigir que seguradoras, resseguradoras e entidades abertas de previdência implementassem políticas de sustentabilidade, gestão de riscos ambientais, sociais e climáticos (ESG/ASG) e relatórios de sustentabilidade aprovados pela alta administração. Essa norma colocou o tema no centro do sistema de governança e de risco do setor.
- Em 2024, a Resolução CNSP nº 473 complementou essa agenda, estabelecendo critérios para classificar produtos de seguros e previdência como “sustentáveis”, criando segurança jurídica para ofertas ESG e reduzindo o risco de greenwashing.
- O ORSA (Resolução CNSP nº 416/2021) também reforça a necessidade de incorporar riscos climáticos nos cenários prospectivos de capital e solvência, alinhando o Brasil às melhores práticas internacionais.
Inovações e práticas em curso
- Cresce a adoção de seguros paramétricos, especialmente no agro e em infraestrutura, permitindo indenizações rápidas com base em gatilhos climáticos (chuva, temperatura, vazão de rios), já utilizados em projetos-piloto no Brasil com dados do INMET.
- Seguradoras começam a oferecer condições diferenciadas ou descontos vinculados a práticas sustentáveis de clientes (seguros agrícolas vinculados a práticas de baixo carbono; seguros de frotas que incentivam eletrificação)
Principais desafios atuais
- Dados e modelos locais: ainda há defasagem em cat models adaptados à realidade brasileira, especialmente para riscos “secundários” como enchentes urbanas, deslizamentos e incêndios florestais. Como exemplo de modelo adaptado à realidade nacional, a corretora de resseguros Guy Carpenter possui modelo inovador probabilístico de alagamento no Brasil.
- Acúmulo e precificação: zonas críticas de risco exigem maior granularidade e mecanismos de agregação dinâmica de exposição.
- Capacidade técnica: há necessidade de fortalecer times de modelagem climática e integração com áreas de risco, subscrição e resseguro.
- Integração público-privada: falta avançar em mecanismos de redução de riscos ao setor e de definição do papel do governo/cidades em catástrofes ambientais, como já ocorre em outros mercados, para garantir resiliência sistêmica.


















