por Denise Bueno
A digitalização acelerada e o avanço da inteligência artificial (IA) não vão afastar corretores de seguros de seus clientes — ao contrário, devem ampliar sua relevância. Essa foi a mensagem dos CEOs das principais seguradoras do país durante debate no Conec 2025, evento organizado pelo Sincor-SP entre os dias 25 a 27 de setembro, em São Paulo.
A discussão foi provocada por uma pergunta da plateia sobre o papel dos corretores no desenvolvimento de portais e ferramentas digitais das seguradoras. “Podemos contribuir para a melhoria dos portais, para se encaixar mais nas nossas prioridades de fluidez? O consenso entre os presidentes foi de que a escuta ativa e a cocriação com os intermediários são indispensáveis para que a tecnologia de fato melhore a jornada de clientes e parceiros.
José Adalberto Ferrara, presidente da Tokio Marine Seguradora, afirmou que ouvir corretores é parte do DNA da companhia. Segundo ele, toda novidade passa por testes com os profissionais, que oferecem sugestões valiosas. Ferrara revelou que a seguradora realiza dezenas de pesquisas por ano e que cerca de 50% dos corretores participam. “Prefiro dar a vara de pescar: queremos que nossos parceiros tenham ferramentas próprias para prospectar clientes em toda a base da corretora e não apenas para gerir a carteira Tokio. Estamos desenvolvendo uma solução de captação baseada em IA que será disponibilizada no primeiro trimestre de 2026”, antecipou o executivo, com a mesma empolgação que contou a todos que em alguns dias será avó. “Finalmente, o sonho do primeiro neto será realizado”, contou com grande entusiasmo, arrancando aplauso da platéia.
Felipe Nascimento, CEO da Mapfre, reforçou que nenhum produto ou processo sai da companhia sem a chancela de corretores e clientes. Ele destacou iniciativas como o programa Juntos Resolvemos e o Conselho Nacional de Corretores, que orientam decisões estratégicas. “Acabamos de lançar um aviso de sinistro guiado pelo WhatsApp, construído em cocriação com os corretores. Mas é preciso não perder a essência: relacionamento e confiança. IA que não agregue valor ao corretor e ao cliente vira custo”, alertou.
Ivan Gontijo, presidente do Grupo Bradesco Seguros, apontou o Opinião de Valor como instrumento de escuta ativa. “Temos investido para tornar a jornada mais fluida. A maior perda acontece quando seguradora e corretor não estão abertos ao novo. A transformação digital é irreversível”, afirmou. Ele também citou a plataforma Universeg, que oferece capacitação para aumentar a efetividade de vendas, e lembrou que corretores têm acesso às agências e plataformas do Bradesco para crescerem juntos e levarem mais proteção para toda a sociedade.
Eduardo Dal Ri, CEO do Grupo HDI, destacou que a digitalização exige investimentos pesados, sobretudo em segurança de dados. “As seguradoras precisam apoiar os corretores porque são tecnologias caríssimas. IA pode ser usada para comparar coberturas e preços, agilizar sinistros e reduzir rotinas. Mas os corretores precisam se letrar digitalmente”, disse. Ele lembrou que a integração das marcas HDI e Yelum, antiga Liberty, tem como meta entregar uma jornada homogênea e menos burocrática. “Queremos que os corretores dediquem tempo ao que é sua vocação: se relacionar com clientes.
Na Porto, o presidente Paulo Kakinoff reconheceu que há uma “ansiedade” em relação ao uso da IA, mas defendeu equilíbrio. “É preciso separar modismo de uso prático. A IA pode equipar corretores com conteúdos rápidos e didáticos para redes sociais, replicando explicações sobre produtos aos clientes. Por isso criamos a AcademIA, nosso centro de treinamento e capacitação”, disse. Para ele, a ferramenta será “a mais potente em ganhos de eficiência, equivalente à soma de tudo que vimos nos últimos 30 anos”.
Ferrara, da Tokio Marine, completou: “O corretor precisa ser híbrido, como os carros. A tecnologia amplia a base de clientes e não substitui a consultoria. Seguro não é commodity como uma geladeira que você pesquisa no Google, que traz dezenas de anúncios do mesmo produto com preços diferentes; seguros são diferentes em cobertura e serviços e por exigem orientação especializada ao cliente e só os corretores para orientarem os consumidores sobre quais são mais importantes para cada perfil de cliente”.
Apesar da ênfase em dados e tecnologia, todos os executivos reforçaram que o corretor continuará sendo insubstituível. “Assim como a medicina evoluiu para cirurgias a distância sem eliminar a importância do médico, os corretores jamais perderão sua relevância”, disse Nascimento, da Mapfre. Gontijo, da Bradesco, resumiu: “A inteligência artificial é meio, não fim. Serve para liberar os corretores de tarefas administrativas e aproximá-los ainda mais dos clientes.” Kakinoff, da Porto, foi além: “Nenhum gerente de banco conhece a vida de uma família como um corretor conhece. Essa relação olho no olho é um patrimônio que nenhuma tecnologia vai substituir.”


















