Fórum Global de Resseguros quer participar dos debates do PL 29/2017 no Senado

"Gostaríamos também de ter audiências públicas no Senado, onde o projeto de lei poderia ser discutido com todas as partes interessadas", pede Charlie Shamieh, chairman do grupo global de resseguradoras

O Global Reinsurance Forum (GRF), órgão representativo da indústria global de resseguros, atualmente composto por 12 resseguradoras líderes globais, divulgou uma carta onde expressa preocupação com a retomada, pelo governo brasileiro, do Projeto de Lei 29/2017, lançado em 2004 e arquivado em 2019 no anterior governo, e foi reaberto em abril deste ano.

O principal objetivo do GRF é promover um mercado mundial de resseguros estável, inovador e competitivo. Os membros do GRF são Everest Re, Gen Re, Hannover Re, Lloyd’s, MAPFRE Re, Munich Re, Partner Re, RenaissanceRe, RGA, SCOR, Swiss Re e Toa Re. Coletivamente, os membros do GRF respondem por mais de 65% dos prêmios líquidos globais de resseguro.

Com um volume total de prêmios de mais de US$ 62 bilhões, o Brasil se tornou o 17º maior mercado de seguros do mundo. Nos últimos dez anos, a indústria de seguros do país expandiu-se a um ritmo mais rápido do que a economia como um todo. De 2011 a 2021, a penetração do seguro não vida (prêmios em proporção ao PIB) aumentou de 1,3% para 1,7%, e a penetração do seguro vida de 1,5% para 2,1%.

Esse forte desempenho do mercado também reflete as reformas realizadas nos últimos anos com o objetivo de promover a concorrência nos mercados de seguros do Brasil. A liberalização do mercado de resseguros em 2008, por meio da Lei Complementar 126/2007, foi um marco importante nessa caminhada, afirma Charlie Shamieh, chairman do grupo global de resseguradoras e CEO da General Re, no documento.

O grupo acredita que, diante desse cenário, a recente iniciativa legislativa poderia comprometer os benefícios da política de liberalização. A carta cita os pontos do PLC 29/2017 das regras propostas diferem das práticas globais de seguros, como:

  • falta de diferenciação entre risco de seguro/resseguro de grande porte de varejo e comercial
  • falta de alinhamento com a legislação regulatória existente
  • falta de consideração de formas de distribuição e atendimento ao cliente inovadoras e habilitadas por tecnologia
  • necessidade de prévio registro regulatório e aprovação dos termos e condições contratuais, independentemente da natureza do risco (prática anterior que havia sido eliminada)
  • criação de um regulador de reivindicações independente com responsabilidades pouco claras
  • aceitação tácita do resseguro se a oferta não for rejeitada no prazo de 10 dias
  • obrigação de apresentar uma justificação fundamentada em caso de não aceitação de um determinado risco
  • potencial exposição vitalícia a sinistros além do período de cobertura da apólice e
    Classificação: Confidencial
  • várias disposições que criam burocracias operacionais e regulatórias para as (res)seguradoras, em contradição com a lei nacional de liberdade econômica.
    As consequências não intencionais da legislação proposta para o mercado de resseguros do Brasil podem incluir
  • uma redução adicional na capacidade de resseguro disponível, especialmente para riscos grandes ou altamente voláteis, como catástrofes naturais, exacerbando ainda mais a grave escassez de capacidade existente no importantíssimo setor agrícola
  • mais áreas cinzentas nos mercados de resseguros, levando ao aumento do risco de litígio e exigindo aumentos de taxas, em detrimento dos clientes de varejo e comerciais e neutralizando os esforços para reduzir as lacunas de proteção
  • redução da inovação do contrato de resseguro e escolha do cliente e
  • menor investimento em inovação digital, dificultando o acesso à expertise internacional em resseguros.

Segundo o grupo de resseguradoras globais, os benefícios da lei proposta para os clientes não são claros, enquanto os danos infligidos aos grandes mercados de riscos e resseguros do Brasil são óbvios, considerando o já desafiador mercado global de resseguros afetado por vários eventos recentes de grandes perdas (por exemplo, COVID 19) e a confiança significativa do setor de seguros do Brasil em resseguro (quase 16% dos prêmios de seguro são cedidos a resseguradores, mais de 40% dos quais cross-border).

O GRF conclama o governo brasileiro a reconsiderar sua posição sobre esta iniciativa. “Correria o risco de interromper ou mesmo reverter a contínua expansão do mercado de seguros no Brasil, para o qual a liberalização do acesso ao mercado para resseguradores estrangeiros deu uma grande contribuição. Gostaríamos também de ter audiências públicas no Senado, onde o projeto de lei poderia ser discutido com todas as partes interessadas”, comenta Charlie Shamieh no documento.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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