O mercado segurador latino-americano vem se recuperando do impacto da pandemia na maioria dos países, mas ainda não atingiu os níveis de 2019. O valor dos prêmios de seguros nos países da América Latina cresceu 6% em 2021, atingindo a cifra de US$ 137,8 bilhões, após uma queda de 15% no ano anterior. “Temos o desafio de recuperar um caminho de crescimento rentável em todas as linhas, num contexto marcado por grande instabilidade”, afirma Rodrigo Bedoya, presidente da Federação Interamericana de Seguradoras (FIDES), que aponta essa situação como uma das principais preocupações do setor na região.
A rentabilidade do setor de seguros diminuiu para 5% das vendas contra 12% obtidos em 2019. Isso se deve ao aumento de pagamento de indenizações e queda dos resultados financeiros. Especificamente no Brasil, depois de amargar recuo no lucro líquido no primeiro semestre de 2021, as seguradoras obtiveram ganho de R$ 7,4 bilhões de janeiro a junho de 2022, segundo dados da Susep (Superintendência de Seguros Privados), organizados pela consultoria Siscorp.
Apesar de quase dobrar o valor, ainda não voltou ao patamar pré pandemia, quando exibiram R$ 8,1 bilhões aos acionistas no primeiro semestre de 2020. A participação sobre o patrimônio líquido anualizado saiu de 8% em 2021 para 16% em 2022. Veja abaixo o histórico dos quatro últimos semestres no Brasil, saindo de R$ 8,6 bilhões nos seis primeiros meses de 2019, recuando para R$ 3,3 bilhões em 2021.

Ainda há uma longa tendência de concentração nos principais mercados: Brasil, México, Argentina, Chile e Colômbia respondem por 89% dos prêmios da região. Em penetração no PIB, a América Latina chegou a 2,9%, diante de média mundial acima de 8%. A boa notícia, segundo o presidente da Fides, é que apesar das perdas com a pandemia, há dois importantes aspectos positivos para o setor, como uma maior consciência de seguros da população sobre os riscos e também a incorporação de tecnologia aos negócios.
Entre os principais desafios do setor na região é recuperar o crescimento rentável em todas as linhas num contexto de instabilidade, como elevada inflação, encarecimento de custos, especialmente na carteira de automóvel e saúde. Segundo ele, as associadas afirmam que há um esforço em controlar os custos da inflação gerada pelos benefícios dados pelos governos para estimular a economia durante a fase mais crítica da pandemia, bem como investimentos para manter o índice de sinistralidade em patamares mais adequados e elevar os ganhos operacionais com o uso de tecnologia.
Os principais temas da pauta da FIDES são as inquietudes do setor. A principal é a regulatória. Rodrigo Bedoya cita a falta de capacidade dos reguladores para conversarem, de forma proativa, com os líderes do setor segurador nos diversos países sobre modificações que podem ser abordadas para promover o desenvolvimento e crescimento do mercado de seguros. “Na maioria dos casos, o papel do regulador está no controle e na supervisão dos mercados de seguros, o que é importante e bom para todos, além de inquestionável. Mas o papel do regulador deveria ter dois lados. O de supervisão e controle dos mercados e, o outro, de identificação e implementação de políticas que permitam o desenvolvimento desses mercados”, afirma.
Ele cita que em alguns países, desde a pandemia, houve avanços na incorporação de regulamentações que permitiram, ou estão permitindo, a comercialização de seguros digitais e isso é importante e deve ser destacado. Sobre o Open Insurance no Brasil, pioneiro na implementação regulatória de um mercado de seguros abertos, ele disse que tem acompanhado, mas não espera um resultado no curto prazo. “Talvez depois de 2023 possamos ter dados para entender melhor e ver se este modelo vai ser replicado em outros países”.
Segundo ele, a tecnologia é um algo relevante para as associadas da Fides, com parcerias com insurtechs para melhorar a jornada dos clientes, diversificar a oferta de produtos e a distribuição comercial, além de aprimorar a identificação de fraude e o gerenciamento de riscos. Segundo ele, as fraudes em seguros na América Latina geram perdas anuais em torno de US$ 50 bilhões, com comportamento diverso entre os países. Nos extremos, o Chile tem o menor percentual de perdas em relação ao prêmio ganho, próximo de 2%. A Argentina, o maior, 45%. O Brasil, segundo ele, gira em torno de 15%, sendo automóvel e saúde os principais alvos dos fraudadores.
“Precisamos de tecnologia, investigação e conscientização, pois muitos daqueles que cometem fraude não sabem que aquela atitude é um delito, como, por exemplo, pegar dois recibos médicos para conseguir um reembolso maior”, citou Bedoya. “Queremos um maior envolvimento das autoridades sobre a importância do mercado de seguros na economia de um país poderia ajudar nesta jornada”, conta o executivo que assumiu em 1º de janeiro de 2021 e deixa o cargo em 1º de janeiro de 2024, depois da Fides Rio 2023, organizada pela CNseg, a confederação nacional das seguradoras no Brasil, que acontecerá em setembro.


















