Todos são responsáveis pelo caos da Saúde

Fácil não esse setor de saúde suplementar. Caos total. E vai piorar, pois tem problema para todo lado. E pelo jeito, todos na cadeia – consumidores, operadoras, laboratórios, hospitais – estão tentando salvar a pele para depois ver como fica. Enquanto isso, os órgãos reguladores e governos dão de cara com uma situação insustentável. Centenas de queixas, judiciário abarrotado (cerca de 30% das demandas judiciais vem da saúde) e SUS, que poderia ser um sucesso absoluto, implodindo e explodindo.

O que passei nos últimos dias mostra um pouco desse caos.

Minha filha abusou de gelado nesse calor, mesmo sabendo que tem a garganta muito sensível. Adolescente, não pensa no futuro. O que importa mesmo é se refrescar do calor. Já sentido a garganta, foi para o pré-carnaval na Faria Lima, que teve público três vezes maior do que o previsto pela Prefeitura de SP. Resultado: tumulto, empurra empurra, falta de água e calor de quase 40 graus.

Segunda-feira, corre para o hospital São Luis com febre de 40 graus. Chegamos às 14 horas. Médica optou por pesquisar dengue. Pediu vários exames, inclusive de dengue, mesmo eu insistindo que o hemograma seria suficiente. Gigi reclamando que eu sou barraqueira e fico discutindo com todos.

Ommmmmmmmmm

As 14h15 na sala de medicação com briga por cadeiras. Era preciso sentar para receber a medicação. 80% dos que estavam lá recebiam soro para aliviar o corpo da bebedeira. Consegui cadeira para a Gigi mas não deixei dar o exagero de remédios. So novalgina. Tinha até tramal na jogada. “Vamos esperar o resultado do exame e dai medicamos corretamente”, disse eu para a médica e para a Gigi.

Volta a enfermeira. “Senhora, o convênio não cobre dengue. A senhora tem de ir no terceiro andar pagar”. Subo. Escuto o cara da internação. Explico que o convênio não cobre pois é desperdício pedir esse exame. Peço a ouvidoria. Nao tem ninguém. Desce, sobe. Então procura a gestora de saúde. Procura. Desce sobe. Resolvo pagar. Ai a enfermeira diz: a senhora pede reembolso pro plano que ele paga. E eu digo: vou pedir reembolso para a médica, pois ela foi ineficiente de pedir um exame desnecessário e que certamente sabe que é.

Bem, uma hora para esperar os exames de sangue e de urina para medicar a menina que ardia em febre. Depois de 2h30, perco a paciência e saio atrás dos exames e da ficha da Gigi. Uma hora depois encontro, com a ajuda de uma boa samaritana. Fico de plantão no arquivo das fichas. A dela era laranja para destacar a prioridade “infecção”. Mesmo assim, os médicos pegam qual eles querem. Sem obedecer qualquer ordem.

Ommmmmmmmm

Ai começo a briga de novo, com muita paciência. Por que a senhora pegou essa ficha verde lá atrás se a que esta na frente é essa laranja????? Ai a medica sorri e pega a laranja. Vou atrás dela. Ela se incomoda. E digo que não vou tirar o olho daquela ficha enquanto ela não atender e diagnosticar minha filha. Ela olha, olha e olha. E diz: vou internar na UTI. O que???? Louca. Ela explica que os exames mostram duas infecções fortes: garganta e aparelho urinário, e tem de internar. Como não tem quarto, pois o hospital está lotado de bebuns e estressados com trabalho e relacionamentos (ouvi muita conversa), manda para a UTI.

Entreguei tudo na internação, mas vai demorar pois está uma loucura aqui, me diz a médica. Mais uma hora esperando. Sumiu a ficha da Gigi de novo. Vou atrás do médico gestor. Do dê cara com a polícia, que veio atender um chamado de paciente brigando com paciente pelo lugar na fila de atendimento. Acho a médica gestora observando a polícia. Tiro ela do transe e explico o caso da Gigi. Insiste que tem de internar Gigi e agiliza tudo.

Gigi medicada e na UTI por falta de quarto. Tudo mais tranquilo. Volto para casa para tomar um banho e retornar. Gigi fica com pai e tia. Entra a enfermeira para dar injeção na barriga dela. Anticoagulante. Eles deixam, pois são leigos como 99% da população, e acreditam em tudo o que médicos dizem. Quase infarto de ódio. Chamo o médico de plantão da UTI. Ele diz que é o protocolo de UTI. Relembro que Gigi não é uma paciente de UTI. É de quarto. Só está lá porque não tinha quarto. Ele insiste em seguir o protocolo.

Ommmmmmmmmm.

Peço para todos rezarem pois a situação me traz a mente a frase da minha mãe: tem horas que só podemos segurar na mão de Deus e seguir. De alguns escuto que a culpa é toda minha, pois estresso a Gigi de tanto falar em prevenção. De outros, que a culpa é do olho gordo, pois eu posto foto dela linda e inteligente e isso desperta a inveja alheia.

Ommmmmmmmmmmmmm

E eu explico a minha filosofia: causa e efeito. Uma vez ou outra tem um evento aleatório, inesperado. Mas geralmente quem se cuida tem saúde. Quem medita, amplia a consciência. Quem estuda, eleva o conhecimento. Quem tem fé, se ilumina com a espiritualidade. Independentemente, se não se cuida, eu cuido. Fico do lado, levo no médico, compro o remédio e seguro na mão. Rezo também. Ficarei ao lado em qualquer momento. Mas até mesmo o mais poderoso antibiótico e a mais santa padroeira precisam de ajuda para trazer a bonança pós tempestade no corpo causada por bactérias e antibióticos. É preciso repouso, aceitação, Netflix e comida em papinha apetitosa, que não tem no hospital e que também não posso levar pois é proibido levar qualquer coisa para pacientes de UTI. Enfrento olhares de “coitadinha da Gigi. Sua incompreensível. Vou levar ela pra casa comigo”.

Ommmmmmmmmmmm

Enfim, peço ajuda para amiga médica. Ela me alerta para chamar o médico particular. Ele vem. Vê a Gigi e manda ela para casa com os antibióticos e remédios necessários. Pego as mochilas e os papeis de alta. Vou assinar a alta da internação. O rapaz do departamento do terceiro andar me diz, do mais alto degrau da arrogância que pode existir: A senhora não precisa assinar nada. Tudo aquilo que o convênio não pagar será remetido para a senhora pagar.

Digo: você não esta entendendo. 1. Se tem um vilão aqui certamente não sou eu. Eu quero ver a conta para checar o que está sendo cobrado. Quero ter certeza de que ninguém se enganou e colocou na conta da Gigi algo que ela não usou. E se houve um “engano”, quero pedir para tirar o que não é certo. 2. E o que o convênio não cobrir, pague você do seu bolso para aprender que antes de vender algo para alguém tem de perguntar se a pessoa autoriza e quer o que você está ofertando.

Ommmmmmmmmmmm

Mais calma, penso. Mesmo que eu queira lutar para prevenir a saúde da filha para ela não precisar do hospital, sou refém dos hormônios da adolescente. Mesmo que eu diga para o médico que aquilo é desperdício, ele opta por manter a arrogância, deixando o bom senso de lado. Mesmo que eu lute para evitar desperdício, sou refém de organizações que não estão preparadas para mudar processos e pessoas.

Resumo da opera: a saúde está um caos. Como diz a Solange Beatriz, presidente da Federação Nacional das Empresas de Saúde (Fenasaúde), o momento exige a união de todos em atitudes conscientes para que as pessoas possam continuar tendo acesso aos planos de saúde. Quanto mais se usa, mais caro fica. Todos pagam a conta. Os valores das internações, remédios, médicos, exames são somados e divididos para o número de clientes que paga plano de saúde.

O meu grupo de saúde, que é a empresa do meu marido, em 2016 gastou tanto que o reajuste no preço do plano foi de 60%. Isso mesmo. 60%. Qual a saída para o empregador manter o beneficio aos funcionários? Trocou um plano maravilhoso por um inferior para baixar o preço da mensalidade do plano para os empregados. Agora todos terão menos cobertura e pagarão mais caro porque a realidade é essa: desperdício, ignorância, corrupção.

Triste realidade.

Dados da Fenasaúde mostram que ano de 2017 não começou bem para, aproximadamente, 200 mil brasileiros. Eles entraram nas estatísticas de beneficiários que perderam o plano de saúde. Segundo levantamento da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), em janeiro, o setor registrou 47,5 milhões de beneficiários em planos médico-hospitalares. A comparação com o mês de dezembro mostra que houve uma redução de 192,2 mil beneficiários em planos de assistência médica.

Desde 2015, segundo a ANS, o setor perdeu 2,5 milhões de segurados. E esse quadro está diretamente ligado à crise econômica e ao desemprego de mais de 12 milhões de pessoas.

Neste caos, tenho ainda que agradecer que tenho meu plano de saúde. Não o que gostaria, mas já é alguma segurança. O plano B é ir morar em uma cidade que tenha um SUS digno (tem algumas sim), e que conseguem sobreviver a má gestão do Estado.

Todos nós somos responsáveis pelo caos na Saúde. Desde quem pega dois recibos em uma consulta até os políticos que mudam regras para receber propina dos empresários. Precisamos mais sabedoria. Causa e efeito. Uso consciente. Dizer não ao desperdício financeiro e físico. Paciência para ensinar quem não consegue compreender. Paciência para enfrentar tanta ignorância e egoísmos.

Eu peço ao Universo saúde física e mental e Deus no coração para chegar à velhice com a consciência tranquila de ter feito bem a minha parte. Pratico ioga, musculação e natação. Medito. Mantenho uma dieta saudável quase 90% do tempo. Perdoo. Tenho compaixão. E vou a luta todo santo dia. Não desisto nunca.

Namastê!

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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