
O presidente da Brasilprev ria à toa hoje em encontro de final de ano com jornalistas. “36.7%. Esse é o crescimento dos nossos ativos sob gestão comparando setembro de 2015 com o mesmo mês do ano anterior. Estamos quase chegando a R$ 130 bilhões em administração de recursos de VGBL e PGBL. É um número significativo dentro de um ano marcado por tantos desafios como tem sido 2015”, disse Miguel Cícero Terra Lima, presidente da empresa de previdência privada aberta, que tem como sócios principais o Banco do Brasil e a americana Principal.
O setor realmente apresenta números surpreendentes. De acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades de Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), a captação de planos de previdência bateu o recorde entre janeiro e setembro deste ano, com R$ 26,1 bilhões, alta de 45,8% comparado ao mesmo período do ano passado. Terra Lima credita o avanço da captação de recursos a um sentimento de insegurança das pessoas que estão empregadas. “Enquanto as que estão sem emprego precisam de recursos e sacam suas poupanças, as que têm emprego postergam gastos como viagens ou troca de carro, o que beneficia a poupança previdenciária”, disse ele.
O que embala os sonhos do executivo é ele vender um produto que está na lista de prioridades dos brasileiros, que precisam urgentemente formar poupança para garantir uma aposentaria digna. “Tínhamos dois sonhos. Um era ser líder em valores de arrecadação de contribuições de planos de previdência no Brasil. Conseguimos isso no dia 24 de maio de 2015 quando passamos nosso concorrente que deteve a liderança por anos”, diz ele com orgulho, ao se referir a Bradesco Vida e Previdência.
“O outro sonho é tornar a Brasilprev líder no ranking da América Latina”, afirmou ele, se referindo ao ranking produzido pela Fundación Mapfre e que traz a Bradesco na liderança de vida e previdência em 2014. Apesar de a Brasilprev ter 1,8 milhão de clientes e o BB mais de 60 milhões, ou seja, um espaço enorme para vender planos de previdência, se manter na liderança é um desafio e tanto, uma vez que a diferença entre Brasilprev e Bradesco Previdência será reduzida quando o Banco Central aprovar a compra do HSBC pelo Bradesco. Mas sem dúvida coloca uma pitada a mais na concorrência entre os dois bancos neste segmento.
O ranking de captação líquida já era do grupo desde 2008. De acordo com o sistema Quantum Axis, que apura dados de fundos de investimento existentes no País, a empresa é líder do segmento em captação líquida, com R$ 18,3 bilhões em outubro de 2015, face aos R$ 15,9 bilhões no mesmo mês de 2014, o que representa um crescimento de 15,1%. “Com isso, detém 55,2% de participação de mercado neste indicador no acumulado do ano e mantém-se na liderança, posição que atingiu pela primeira vez em 2008”, afirmou.
Além do difícil cenário de recessão ameaçar o crescimento da poupança previdenciária, o risco de aplicar recursos ficou mais evidente com os problemas enfrentados pelo banco BTG Pactual, com a prisão do presidente e controlador André Esteves na semana passada. Apesar de já ter renunciado aos cargos que tinha no grupo, as denúncias envolvendo o executivo que estava entre os mais ricos e influentes do país geraram perdas significativas. Hoje é o quarto pregão consecutivo de baixa nos papéis do BTG, acumulando mais de 35% de perda. A exposição da Brasilprev no BTG Pactual é inferior a 0,5%, informou Altair Cesar de Jesus, superintendente de investimentos da Brasilprev.
Terra Lima vê 2016 com bons olhos, apesar das turbulências no cenário do Brasil. As oportunidades para manter o crescimento, segundo o executivo, esta no fato de o Brasil estar envelhecendo e 23% da população ter mais de 65 anos em 2050. Entre os desafios, ele cita incentivar ações e discussões sobre educação financeira e cultura previdenciária e destacar a importância do segmento empresarial para o crescimento da previdência privada no pais. “É de suma importância que tenhamos incentivos para atrair as empresas para a previdência privada, principalmente as pequenas e médias”, destacou.
Um dos grandes avanços do ano citado por Terra Lima foi a resolução 4.444, que muda as regras para a aplicação dos recursos das entidades de previdência privada, seguradoras e resseguradoras. As novas regras entram em vigor em 180 dias. Ou seja, em maio de 2016 as empresas de previdência poderão oferecer aos participantes fundos mais diversificados pois poderão aplicar em novas classes de ativos. Entre as novidades será possível investir até 10% do patrimônio em ativos no exterior, ou até 70% em renda variável, em vez dos 49% permitidos atualmente. Os fundos abertos também tem permissão para aplicação em ETFs (carteiras que replicam índices e têm cotas negociadas em bolsa) e em fundos imobiliários, além de Certificados de Operações Estruturadas (COE). Sem falar que após a regulamentação as empresas terão incentivos para o investimento em infraestrutura, como o limite de 5% dos recursos, ressaltou Terra Lima. “São investimentos de longo prazo que podem melhorar a rentabilidade das carteiras”, comentou.
Apesar de comemorar a maior flexibilização dos investimentos, Terra Lima concorda que é preciso avançar nos investimentos em educação financeira para que os clientes entendam claramente que estão aplicando em um ativo de risco, como ações, debentures de infraestrutura e ativos no exterior, bem como se conscientizem de que aplicar em renda fixa não significa que o rendimento será sempre positivo. Caso o Brasil perca o grau de investimento diante da piora do quadro politico e econômico, há uma grande chance de boa parte dos ativos em renda fixa apresentar variação negativa com a marcação a mercado. “Já tivemos um teste no passado para explicar isso aos clientes. Se ocorrer novamente, será mais fácil e com a taxa de juros agora mais elevada, em quase 15%, o impacto sera menor do que naquela época em que a Selic estava 7%”, comentou Jesus.


















