Valor: seguro rural como despesa obrigatória requer nova lei 

Transformação do seguro rural em despesa obrigatória no orçamento em 2027 vai depender da aprovação de uma nova lei que está no topo da agenda de interesse do governo Lula

Fonte: Valor Econômico,  Rafael Walendorff  e Giordana Neves 

A transformação do seguro rural em despesa obrigatória no orçamento da União em 2027 — uma das prioridades do setor agropecuário e da bancada ruralista para dar mais previsibilidade à política e expandir a área cultivada protegida no país — vai depender da aprovação de uma nova lei que está no topo da agenda de interesse do governo Lula na reta final do ano. No campo, o receio é que os avanços esperados com o novo marco legal do seguro atrasem.

A proteção da verba do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) de cortes, bloqueios e contingenciamentos está prevista na lei 15.526/2026, sancionada neste ano. Na votação do texto no Senado, porém, o governo federal propôs um acordo para condicionar a criação dessa nova despesa obrigatória, que “engessa” o orçamento, ao cumprimento de medidas de compensação fiscal em uma outra legislação específica. Em troca, se comprometeu a não vetar os principais pontos da proposta, o que ocorreu.

Para criar uma despesa obrigatória, a regra exige a demonstração de que há espaço no caixa para pagá-la. Normalmente, a compensação é feita com a ampliação de receita, pelo avanço de arrecadação em alguma fonte ou a criação de imposto, ou redução permanente de alguma despesa no orçamento.

Entretanto, o Ministério do Planejamento e Orçamento apontou que a compensação virá de um movimento maior, que está na agenda básica e urgente do governo para reorganizar os gastos e sinalizar maior rigidez fiscal ao mercado. A intenção é enviar um projeto de lei complementar para autorizar o Executivo a perseguir o centro da meta fiscal e não mais o limite inferior da banda de tolerância, medida de contenção fiscal para acelerar o processo de consolidação das contas públicas.

A manobra dá a possibilidade ao governo de fazer contingenciamentos no orçamento mesmo quando a projeção do resultado primário estiver dentro do intervalo de tolerância da meta fiscal. Ou seja, permite “cortar” despesas não obrigatórias e abrir espaço para custear a subvenção ao seguro.

Seguro rural terá só R$ 318 milhões ‘livres’ no orçamento de 2027

No relatório do projeto de lei 2.951/2024, transformado na nova legislação, a bancada ruralista havia apontado que os recursos para bancar a despesa obrigatória do PSR poderiam sair de multas e penalidades aplicadas no âmbito do seguro rural, do incremento de arrecadação do Regime Especial de Atualização e Regularização Patrimonial (Rearp) e da redução de benefícios fiscais federais sobre o seguro privado promovida pela Lei Complementar 224/2025.

Parlamentares que participaram do acordo no Senado não foram informados sobre a nova proposta. Técnicos que trabalharam na elaboração do texto não sabiam do movimento e enxergam uma estratégia do Executivo para atrelar a eficácia de uma lei defendida pelo agronegócio a uma pauta necessária do governo petista.

O Ministério da Agricultura, gestor do orçamento do PSR, também não foi avisado previamente. No setor agrícola e nas seguradoras, há receio de que a implementação da lei possa atrasar e aumentar a imprevisibilidade no campo.

Quando o projeto foi votado no Senado, no início de setembro, o acordo previa que o governo enviaria em 15 dias uma medida provisória com o contingenciamento de outro recurso para cumprir a regra de responsabilidade fiscal e abrir espaço para aplicação dos valores no seguro rural. O texto foi sancionado no fim de setembro, mas até agora a compensação não foi apresentada.

Posicionamento

Questionado sobre o assunto na terça-feira (27), o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), cobrou o cumprimento do acordo. “Que seja cumprido o que foi combinado”, disse. “Essa lei complementar precisa ser estudada, precisamos ver o que é que vem para entender se dá para apoiar ou não dá e se, efetivamente, vai resolver o problema ou não. Precisamos da solução do problema, não da briga política”, afirmou à imprensa.

Em entrevista ao Valor nesta semana, o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, disse que o debate precisa ser feito com o Congresso Nacional ainda nesta legislatura porque “sem ela, inclusive, essa Lei do Seguro Rural não tem eficácia”.

O PSR segue com R$ 416,7 milhões bloqueados, metade do orçamento de 2026. Ainda não há previsão de liberação. Para 2027, o projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) prevê R$ 1,2 bilhão.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre seguros, previdência, educação financeira, longevidade e saúde para o blog Sonho Seguro, do qual e fundadora, e para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do SindSeg-SP, entrevistadora em eventos e podcasts, bem como palestrante sobre temas diversos que envolvem o setor de seguros. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 17 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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